Páginahttps://www.vaticannews.va/pt.htmls

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Todos nós somos pecadores


“De agora em diante, pois, já não há nenhuma condenação para aqueles que estão em Jesus Cristo. A lei do Espírito de Vida me libertou, em Jesus Cristo, da lei do pecado e da morte. O que era impossível à lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus o fez. Enviando, por causa do pecado, o seu próprio Filho numa carne semelhante à do pecado, condenou o pecado na carne, a fim de que a justiça, prescrita pela lei, fosse realizada em nós, que vivemos não segundo a carne, mas segundo o espírito”.
Já não há mais nenhuma condenação porque Cristo realizou o sacrifício por nossos pecados. O seu mistério pascal, paixão, morte e ressurreição (cf. At, 2, 22-36) é a certeza do perdão que Deus nos oferece gratuitamente.
Em nosso cotidiano, ouvimos muitas vezes o uso da palavra sacrifício. Por exemplo, muitos pais gastam horas do seu dia trabalhando por seus filhos. Os filhos, por sua vez, gastam horas do seu dia estudando. Tanto os pais quanto os filhos, sacrificam-se pelo que consideram importantes. Existem pessoas que renunciam a um bem ou direito seu por algo que consideram mais valioso. Pode ser uma privação, seja voluntária seja involuntária, por uma coisa digna de apreço e estima. Quantos atletas se privam, voluntariamente, para alcançar um melhor resultado. Muitos gastam fortunas por sua saúde, fazem dietas por sua qualidade de vida. Sem dúvida, o que mais nos chama a atenção, é quando alguém sacrifica a si mesmo por causa de outra pessoa. Se você perguntar a uma mãe que vê seu filho em perigo, se ela seria capaz de dar a vida em troca do filho, sua resposta seria sim. O evangelista nos diz que Cristo Jesus, “tendo amado os seus, os amou até o fim” (Jo 13,1), sendo capaz de se oferecer a si mesmo em troca da nossa salvação. Por isso, o madeiro da cruz tornou-se a prova do amor de Deus por nós.
Na tradição de Israel, eram oferecidos sacrifícios pelos pecados (Lv1-7) que ofendiam a Deus e ao próximo. O sacerdote entrava na tenda e oferecia o sacrifício, através do sangue de animais, que se tornavam vítimas de reparação pelos pecados do povo. O autor da carta aos Hebreus reflete largamente sobre essa realidade, afirmando que Cristo é o sumo sacerdote, o altar e o cordeiro, que, no seu próprio sangue, expia os pecados da humanidade. O seu sacrifício inaugura a nova aliança, que continuamente se renova na eucaristia, memorial perpétuo de nossa salvação. Ele é “vítima pascal, o cordeiro imolado” (Cf. 1 Cor 5,7), que tira os pecados do mundo (Jo 1,29). Na antiga aliança, o sacerdote colocava a mão sobre a vítima e oficiava, imolando o animal que tinha o seu sangue derramado. Procurava-se assim, agradar a Deus, fazer com que ele aceitasse o sacrifício pelo perdão dos pecados. Na nova aliança, o madeiro torna-se o altar onde Cristo se doa voluntariamente. Ao contemplar o crucificado, vemos o cumprimento perfeito do que profetizou Isaías “Ele carregou os pecados de todos e intercedeu pelos pecadores” (Is 53,12). Por isso, podemos nos aproximar com confiança de Deus “para obter misericórdia e alcançar a graça de um auxílio oportuno” (Hb 4,16).
Deus nunca abandonou o homem à própria sorte e, em sua infinita misericórdia, quis sempre salvá-lo. Em todo o fio que se desenrola pela Sagrada Escritura, vemos um Deus sempre pronto a perdoar, que quer “a misericórdia e não o sacrifício”. A aliança que Deus faz com o homem de Adão a Noé, de Abraão a Davi, de Amós a João Batista se realizou de modo definitivo no mistério pascal de Cristo Jesus, Nosso Senhor, que é o dom do Pai que, gratuitamente, oferta-se por nossa Salvação. É este anúncio que Pedro faz no dia de Pentecostes a todos os ouvintes que participavam da festa naquela ocasião: “A este Jesus (que foi crucificado), Deus o ressuscitou, e disto nós somos testemunhas. Portanto, exaltado pela direita de Deus, ele recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e o derramou, e é isto o que vedes e ouvis... Saiba, portanto, com certeza, toda a casa de Israel: Deus o constituiu Senhor e Cristo, este Jesus a quem vós crucificastes” (At 2,32-33.36). A força do discurso do grande apóstolo fez com que os ouvintes se perguntassem: “O que devemos fazer irmãos? ”, e Pedro prontamente responde: “arrependei-vos e batizai-vos, cada qual invocando o nome de Jesus Cristo, para que sejam perdoados os vossos pecados” (At 2, 38). O arrependimento nos coloca sentados à mesa no banquete do perdão que é abundante, alimenta-nos da certeza da vida eterna e faz de nós “novas criaturas” (2 Cor 5,17).
A parábola do filho pródigo (Lc 15,11) ilustra bem o que queremos dizer. Essa é outra história de perdão. O filho “pede a parte da herança que lhe cabe”, abandona a casa do pai. Segue o seu caminho e amarga, ao longo dele, muita decepção. Ele (o filho) colocou tudo a perder, e de repente veio a lembrança da casa do pai: “até os empregados da casa do meu pai têm pão com fartura”. Maior do que a sua tristeza, foi a decisão de voltar para casa do pai. Maior que a sua dúvida, foi a alegria que invadiu o seu coração quando o pai pulou no seu pescoço, abraçou-o e beijou-o. “Vamos fazer uma festa – disse o pai – pois esse meu filho estava morto e voltou a viver, estava perdido e foi reencontrado”. Aqui reluz a imensa bondade e misericórdia de Deus que, a exemplo do pai da parábola, está sempre pronto a nos acolher, amparar, auxiliar e perdoar. É o arrependimento e a firme decisão de voltar para a casa do Pai, que faz com que a festa no céu comece!
No aspecto jurídico, quando estamos devendo, temos que pagar. E quando não podemos fazer isso? Negociamos. Foi isso que pensou o filho da parábola. Ele quis negociar com seu pai, pois sua dívida era imensa. Nada daquela casa era mais seu, e o filho mais velho provavelmente devia guardar um documento assinado pelo irmão, onde constava que ele não tinha mais direito a nada. Mas não é assim que Deus age conosco. Como pai amoroso, não negocia conforme os nossos termos; mas, transcende, demonstrando a força libertadora do seu amor. São Paulo afirma que em Cristo, Deus nos chama a viver na companhia dele e cancela o documento escrito contra nós e que nos condenava. Através de sua morte e ressurreição, esse documento de condenação perdeu o seu valor (Cf. Cl 2, 13-14).
A cruz foi o preço pago por nossos pecados, o resgate de nossa dívida. Se nossa dívida fosse material, corruptível, quem sabe o ouro e a prata, bois e jumentos ou qualquer outro penhor poderia redimir essa dívida, mas como o que estava em questão era a nossa salvação ou condenação eterna, é no “Filho, pelo seu sangue, que temos a Redenção, a remissão dos pecados, segundo as riquezas da sua graça” (Cf. 1,7).

            Todos nós somos pecadores, ofendemos a Deus, ficamos “devendo”. Erros, faltas e falhas são cometidos diariamente. Não podemos dizer que “não temos pecados”, pois estaríamos mentindo (1Jo 1,8). Por isso, Jesus veio chamar os “pecadores” (Mt 9,13) e o eixo principal de toda a sua ação é o perdão dos pecados, a remissão das faltas.  É do alto da cruz que nosso sumo sacerdote brada: “Pai, está tudo consumado”. Aquilo que o homem não podia fazer por si mesmo, Deus o fez, o amor foi consumado, e o perdão nos foi dado. Somos amados por Deus e essa é a novidade que Nosso Senhor veio revelar. Recusamos, relutamos, abandonamos ou até negamos, mas é o amor que sempre vence. O demônio tenta enganar os filhos e filhas de Deus, pondo nos seus ombros culpas, remorsos, condenações, fazendo-nos crer que o perdão de Deus tem limites. Se o homem se arrepende, Deus está pronto para perdoar. Não importa o que se fez, o arrependimento apaga tudo e garante acesso à festa dos redimidos.

            Isso me recorda uma experiência extraordinária que testemunhei. Uma jovem que conheci quando tinha 13 anos. Uma flor, que começou a ser colhida muito cedo. Engravidou cedo e depois envolveu-se com drogas. Isso lhe causou um mal imenso, desfigurando completamente a sua beleza. Para encurtar a conversa; depois de ter vendido tudo o que tinha, passou a vender o próprio corpo para continuar usando droga. Eu ouvi algumas vezes ela gritar, dizendo “é só 5 reais” o que equivalia, na época, a uma pedra de crack. Mas Deus é surpreendente. Ele não se cansa de nos amar. Em certa ocasião, perdida completamente e fugindo de alguns desafetos que queriam matá-la, ela foi bater à porta de uma casa terapêutica. Ela já não aguentava mais. Sem nem um centavo no bolso, ela foi acolhida na casa e saiu de lá enriquecida com o mais belo tesouro que se pode imaginar: o perdão de Deus! Por causa do perdão, gratuito e generoso de Deus, ela foi devolvida ao convívio dos seus.

            Ela poderia ser mais um número na triste estatística das drogas, mas graças ao encontro com “aquele que tudo perdoa”, sua vida não foi mais a mesma. O que pode acontecer quando acolhemos o perdão de Deus? Uma verdadeira transformação que não conseguimos medir! Nesse testemunho que relatei vi isso acontecer. A casa em que ela vivia caia aos pedaços. Ele dormia sobre um colchão velho e nada mais restava. Tudo havia sido vendido para comprar drogas, inclusive às portas. Depois da sua conversão, as coisas foram se endireitando. Com o passar do tempo tudo foi sendo colocado no lugar. O perdão nos devolve a capacidade de voltar a caminhar na direção da vida onde Deus se esconde restaurando o que foi destruído, esmagado e pisado pela nossa liberdade marcada pelo pecado.

            Grandes coisas podem acontecer quando acolhemos o amor, o perdão generoso e gratuito de Deus. É hora de deixar que a sua vida também seja modificada! Clame a Deus e deixe o milagre acontecer!

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

A Parábola do Filho Pródigo


A Parábola do Filho Pródigo nos aponta o itinerário para o encontro com aquele que é rico em misericórdia.
            O filho mais novo pede ao pai a parte da herança que lhe cabia. Abandona a casa do pai e gasta tudo...absolutamente tudo! Não tendo mais nada, vai atrás de emprego, e acaba indo cuidar de porcos. A parábola ilustra bem o que o pecado é capaz de fazer com uma pessoa. E isso é importante que você compreenda: o pecado é uma desgraça. Conheci um jovem que morava próximo a nossa comunidade e quis levá-lo para participar, conosco, do grupo de oração. Ele riu, e disse que não tinha tempo para isso. Um dia saindo da missa, esse mesmo jovem me abordou. Fiquei surpreso, pois ele lembrava o meu nome. Pediu-me dinheiro. Sabia que era para usar droga. Sua face apresentava os primeiros traços de desfiguração. Passado um tempo, um jovem aproximou-se do carro que estava dirigindo e me pediu dinheiro. Custei a reconhecer: era aquele jovem que riu do convite que lhe fiz para ir ao grupo de oração. Me deu uma tristeza imensa. Ele já não me conhecia mais. O pecado mudou quem ele era, transformando sua alegria em tristeza. Muitas vezes, o nosso corpo denuncia o que o pecado faz; às vezes, não. Mas, quando abandonamos a casa do Pai, lugar do amor e da misericórdia, nossa alma fica assim, atingida por um sono mortal, perturbador.
            Então o filho cai em si “Pai, pequei contra o céu e contra ti”. Ele faz o seu exame de consciência.  Reconhece o mal que foi ter saído da casa do Pai. Esse passo é muito importante em nosso processo de cura interior, pois examinamos o que fazemos à luz dos preceitos divinos e percebemos a distância que se estabeleceu entre nós e Deus. O que somos e o que devemos nos tornar depende do encontro com o Deus misericordioso, revelado por Cristo, que sempre nos recebe de braços abertos. Em meio ao nosso sono, somos despertados e, diante de nós, aparece um espelho que, à luz do Espírito Santo, faz-nos ver quanto mal o pecado nos faz e o quanto precisamos do perdão de Deus.
            “Na casa do meu pai há pão com abundância... vou voltar e dizer: Pai, pequei contra o céu e contra ti...". Ele admite o erro e toma a firme decisão de voltar à casa do Pai. Esse passo é, sem dúvida, o mais doloroso, pois envolve a aceitação de si mesmoe a dúvida sobre a aceitação por parte dos outros. Uma vez, fazendo um trabalho assistencial com os moradores de rua da minha cidade, perguntei a um deles se ele não tinha casa. Ele me respondeu que sim. Então perguntei porque ele não voltava, e ele disse: “eles não me aceitariam depois do que fiz”. Esse exemplo ilustra a dura decisão que precisamos tomar. Além de reconhecer o erro, precisamos ter coragem de admiti-lo. Devemos estar certos da imensa misericórdia de Deus, “que não leva em conta nossas faltas. Se o fizesse, o que seria de nós? Nele se encontra o perdão” (Cf.Sl 129). Tudo pode ser perdoado desde que haja arrependimento. Um bom exemplo disso é o caso do ladrão ao lado da cruz. Ele admitiu o erro que o levou àquela condenação e reconheceu que Jesus não merecia isso, pois era inocente do crime que lhe havia sido imputado. A sua consciência o acusou diante do juiz que julga com amor, por isso, ouviu o que não esperava: “hoje mesmo estarás comigo no paraíso”. O ladrão encontrou a salvação, sendo recebido na eternidade por aquele que espera nosso arrependimento.
            “Pai, pequei contra o céu e contra ti, já não sou digno de ser chamado seu filho”. Diante do mal que o filho fez a si mesmo, ele decide-se voltar à casa do pai. Quer ser recebido pelo menos como um empregado. A condição em que se encontrava gerou uma mudança de consciência com relação a si mesmo e ao mundo que o cercava. As bebedeiras, orgias, comilanças, orgulho e avareza passaram a causar nele uma tristeza que produziu arrependimento (cf. 2 Cor 7,10). Às vezes, por não querermos enfrentar a realidade, enganamo-nos considerando que tudo vai bem. Criamos desculpas que amenizam nossa culpa e continuamos vivendo como se não tivéssemos feito nada de errado. Mas, chega uma hora, que não suportamos mais essa situação. Do fundo de nossa alma, gritamos: “pequei”.
            O arrependimento exige da pessoa uma relação de confiança na bondade e misericórdia divina. Confessar os pecados é humilhar-se diante da mão poderosa de Deus que não nos pune, mas perdoa. No aspecto jurídico, toda a acusação da qual eu sou culpado, deve ser punida conforme a lei. A experiência com o Cristo ressuscitado, coloca-nos diante de outra lei, imutável, que transcende nossa compreensão, lei que não pune, mas salva, que não condena, mas perdoa,lei do amor, a mesma que fez com que houvesse festa na casa do pai. O anel do dedo, as sandálias e a veste nova são sinais da dignidade que foi restaurada. É importante levar em conta, nesse itinerário, a força dessa palavra: RESTAURAÇÃO. Esse é um ofício do artista que quer fazer com que a obra se assemelhe ao que era antes. Com todo o cuidado, trabalha incansavelmente para que a obra seja contemplada da forma como foi concebida pelo criador. O divino artista trabalha assim, para fazer com que a deformidade causada pelo pecado dê lugar ao “homem novo”, transformado pela força do perdão.
            Um costume antigo, o Mea Culpa, demonstra o reconhecimento da falta e o desejo de ser perdoado por Deus. Eu assumo a culpa diante de quem me julga com misericórdia. O nosso caminho para a conversão depende dessa condição, pois de outra forma, permaneceremos os mesmos. Existe um apelo interior que nos põe nesse caminho, por vezes doloroso, mas fundamental em nossa busca da santidade:
“A conversão interior impele à expressão exterior, com gestos e sinais visíveis, com gestos e sinais de penitência (...) A penitência interior é a reorientação de toda a vida, um retorno, uma conversão a Deus, de todo o coração, a ruptura com o pecado, a aversão ao mal, juntamente com a reprovação das más ações cometidas” (CIC 1421; 1430)
            A boa nova que a Igreja anuncia é essa: Deus vem perdoar os pecados! Aos seus apóstolos ele diz “o que ligares na terra será ligado no céu, e o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,19; 18,18; Jo 20,22s). Esse poder é exercido em nome de Cristo, e o sacerdote quando nos recebe no confessionário faz às vezes do Pai da parábola que celebra com alegria nossa reconciliação. A sentença que se repete constantemente é essa: “esse meu filho estava morto e voltou a viver, estava perdido e foi reencontrado”. Nesse encontro, somos julgados pelo amor, e essa dinâmica do encontro nos traz de volta para a comunhão da qual nos afastamos por causa do pecado.


quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Estrela da manhã, Deus vos salve



No Antigo Testamento, o autor do livro do Eclesiástico faz o elogio ao sacerdote Simão, filho de Onias (Cf. Eclo 50). Sua atuação foi tão importante junto ao povo que ele foi chamado de “estrela da manhã”, reconhecidamente como um luzeiro que reflete a glória de Deus a quem ele serve.
O apóstolo Pedro diz que devemos ouvir a palavra dos profetas e a eles devemos recorrer porque eles são “como uma luz que brilha em lugar escuro”.
Maria é invocada no Ofício como estrela da manhã. Podemos dizer que ela reúne em torno de si a antiga tradição dos profetas pois sua vida reflete uma luz que nos tira da escuridão. Por ser “cheia de graça” a Virgem de Sião irradia uma profecia no silêncio da casa de Nazaré que deve ser ouvida por todos nós, “Ele (Jesus) é a luz verdadeira que ilumina todo homem” (Cf. Jo 1,9).
Maria sabe que não é a luz verdadeira da qual fala o Evangelista São João, mas como estrela da manhã, ela cedo nos acorda para reconhecermos a luz do mundo, Jesus, seu Filho e Nosso Senhor (Cf. Jo 8,12) que veio para dissipar todas as trevas. Na tradição astronômica, as estrelas que tem maior brilho recebe nomes. Podemos  dizer que a esposa de José, bendita entre todas as mulheres, tem recebido muitos nomes: Aparecida, Fátima, Lourdes, Nossa Senhora do bom parto, das dores...Tantos homens e mulheres, em tantos cantos do mundo a invocam porque sabem que através dela chegarão até “a estrela que tem maior brilho”.
No dia 2 de fevereiro, celebramos a festa de Nossa Senhora da Luz, chamada em outros lugares de Nossa Senhora da Candelária e de Nossa Senhora das Candeias. Essa festa é celebrada no dia em que a liturgia celebra a festa da Apresentação do Senhor Jesus Cristo e a da Purificação da Virgem Maria.
No dia em que Maria levou o menino para ser apresentado no templo, o velho Simeão tomou a criança nos braços e cheio do Espírito Santo exultou: “Agora, Senhor, deixai o vosso servo ir em paz, segundo a vossa Palavra. Porque os meus olhos viram a vossa salvação que preparastes diante de todos os povos, como luz para iluminar as nações, e para a glória de vosso povo de Israel”.
Aquele que nasceu de Maria é a luz do mundo. Ao segui-lo não andamos nas trevas (Cf. Jo 8,12). Nele, somos chamados a ser luz para fazer resplandecer as obras de Deus (Cf. Mt 5,16). Inspirado na profecia de Isaias, Paulo e Barnabé declaram aos judeus que se opõem a sua missão entre os gentios: “Pois assim nos ordenou o Senhor: Eu te estabeleci como luz das nações, para que sejas portador de salvação até os confins da terra (At 13,47)”.
Com bem mais resplendor brilha Maria, a mãe do redentor que profeticamente tem irradiado sua luz para que a humanidade reconheça Jesus como Senhor e Salvador.
Como filhos de Maria somos chamados também de filhos da luz, e por isso mesmo temos uma alta vocação, à qual somos chamados a corresponder com fidelidade: “Porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia. Não somos da noite nem das trevas. Não durmamos, pois, como os demais. Mas vigiemos e sejamos sóbrios. Porque os que dormem, dormem de noite; e os que se embriagam, embriagam-se de noite. Nós, ao contrário, que somos do dia, sejamos sóbrios. Tomemos por couraça a fé e a caridade, e por capacete a esperança da salvação” (1 Ts 5,5ss).
Em tempos de escuridão, precisamos de luz para enxergar novamente o caminho. Recorramos sempre a intercessão de Nossa Senhora, quem assim o faz, anda na luz.

Oração à Nossa Senhora da Luz

Ó Senhora da Luz, dona de todas as graças,
cobre-nos com o teu manto resplandecente,
pois tu és a luz que nos guia pelas trevas
e, pela tua imensa misericórdia,
nos dás força e alento para seguir o nosso rumo,
que nos leva até a ti, ó Cheia de Graça.
Nossa Senhora, pelo Espírito Santo iluminada,
Mãe de Nosso Senhor, nossa fonte de luz,
tu és a nossa força e o nosso caminho
e nos proteges por entre montanhas e vales,
pelos desertos e ilhas, no sofrimento e na tortura,
nas perseguições que sofremos.
Ó Nossa Senhora da Luz, nossa Mãe,
cobre-nos com a tua interminável glória
e continue a iluminar o nosso caminho
com a tua interminável e Divina Luz,
que outra coisa não queremos ver,
senão as maravilhas da tua presença.
Ó Nossa Senhora da Luz, Mãe de Deus,
ajuda-nos, com a tua bondade infinita,
a enfrentar todos os perigos e tentações,
para que com a tua preciosa ajuda,
sigamos nosso caminho com a tua luz
e longe da escuridão das trevas.
Amém!




segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Deus quer ouvir a voz da sua comunidade


O nosso Evangelho vos foi pregado não somente por palavra, mas também com poder, com o Espírito Santo e com plena convicção. Sabeis o que temos sido entre vós para a vossa salvação”.
Cada comunidade é uma palavra viva de Deus para a humanidade. O que se quer é que essa palavra seja poderosa. É como isso vai acontecer? Através da ação do Espírito Santo. É ele que vai transformando cada comunidade em uma arma poderosa para derrubar “os ídolos” (Cf. 1 Ts 1,9b) modernos que tem prostrado a tantos diante de deuses, não mais construídos de madeiras ou barro, mas sim de fios e conexões.
Sem o Espírito Santo não existe comunidade. É ele que inspira e faz com que se levante uma voz poderosa que possa ser ouvida. Voz de Deus que ecoa através das palavras e obras que cada comunidade comunica. Essa é a hora que o Espírito Santo faz expirar. Palavras e obras nada mais são do que aquilo que dizemos e fazemos cotidianamente em nossa vida comunitária. Quando mais o Espírito Santo age mais inspiramos e expiramos nos transformando em “modelos” (Cf. 1 Ts 1,7) para outros que precisam se converter e servir ao Deus vivo e verdadeiro (Cf. 1 Ts 1,9c).
“E vós vos fizestes imitadores nossos e do Senhor, ao receberdes a palavra, apesar das muitas tribulações, com a alegria do Espírito Santo”.
            O Espírito Santo é o autor de cada comunidade e nós somos os atores. Atuamos para que outros queiram fazer o caminho na direção do Cristo ressuscitado que permanece vivo em cada comunidade. Não “fingimos” ou “encenamos”, mas testemunhamos com nossas vidas o amor que nos conquistou através da vida que vivemos. É preciso dizer que fomos conquistados pela forma que viviam outros irmãos e irmãs antes de nós. Eles amaram primeiro. É simples. Amamos o amado. É o amor quem transforma. De repente somos transformados naquele que amamos. Os outros veem isso. Eles veem a forma como vivemos depois que passamos a amar o amado. E aí, eles passam a querem amar também.
Não posso deixar de lembrar que Paulo fala das tribulações. Isso mesmo. Tem alguns que não querem amar a Cristo. Na verdade, alguns odeiam a Cristo. Por isso, a forma que vocês vivem em comunidade vai irritá-los, provoca-los. Eles vão perseguir, caluniar, mentir e até mesmo querer machucar vocês. E o que fazemos nessa hora? Ouvimos o autor da nossa fé: “coragem, eu venci o mundo!”.
Desconhecemos a força da forma como vivemos nossa experiencia de fé. Paulo elogia a comunidade de Tessalônica, as suas obras de fé, os sacrifícios da caridade que fazem e a sua firmeza na esperança (Cf. 1 Ts 1,1). O acolhimento da comunidade também chama a atenção do apóstolo. Porque Deus faz nascer uma comunidade¿ Para que ela se transforme em um sinal vivo da vida do mistério de Cristo que o Espírito inspirou. Assim, viver essa inspiração através de palavras e obras é o que nos cabe fazer.



quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Cada comunidade é uma obra de Deus


“Não cessamos de dar graças a Deus por todos vós, e de lembrar-vos em nossas orações” (1Ts 1,2).

Existe entre nós um parentesco espiritual estabelecido por vínculos que “águas torrenciais jamais poderão apagar” (Cf. Ct 8,7), porque é o amor que o fortalece ao longo da convivência. Um alcoólatra começou a participar da nossa comunidade. Ele vinha com muita frequência. E um dia, ele me confidenciou que por causa da acolhida que recebeu passou-se a sentir em casa, como se fossemos sua família. Esse exemplo ilustra bem o que nossas comunidades devem ser: uma casa de acolhida para os irmãos e irmãs. 

Como é o amor quem fortalece nossos vínculos espirituais, podemos faze-los crescer através da oração. A caridade evangélica é perfeitamente exercida quando nos propomos a orar uns pelos outros. Sem nos darmos conta nos aproximamos daqueles que estão em nossas orações e isso cria um nó espiritual que não se quebra tão facilmente sustentando assim, os fortes e os fracos. A oração pelos nossos irmãos e irmãs nos ajuda a vencer o egoísmo que insiste em nos fazer esquecer de quem se uniu a nós pelos laços da fé. Cria-se uma solidariedade espiritual capaz de nos curar da cegueira que nos impede de ver o outro.

Por que estou insistindo nisso? Muitas vezes quem chega em nossas comunidades tem suas próprias preocupações. E ora continuamente para que Deus atenda suas necessidades materiais e espirituais. Mas, só quem fica, quem persevera, é quem passa a se preocupar com os outros. Na verdade, quem atravessa o limiar do eu para o nós passa a se sentir parte da família. Quem fica no eu pode até continuar, porém, vai atrapalhar muito a vida dos que passam a pertencer a essa nova família por causa da sua indiferença, egoísmo e insensibilidade. O que fazer então com esses que não atravessam esse limiar? Orar! Porque é fazendo essa travessia que chegaremos ao céu.
A decisão de viver em comunidade é uma resposta a pergunta que Jesus mesmo faz e que ele mesmo respondeu: “todo aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,50).
No vs. 3, o Apostolo Paulo relaciona as virtudes teologias, fé, esperança e caridade as obras, a firmeza e aos sacrifícios, respectivamente.
Podemos dizer que a comunidade, por si só, é uma grande obra. Deus não levanta uma comunidade, se não para ser uma grande obra. Essa é a nossa certeza. Não podemos nos confundir achando que ser uma grande obra é ser uma grande comunidade, numerosa, espalhada por vários lugares, reconhecida por todos. Uma comunidade que se transforma em uma grande obra é aquela que se alegra com o que é e procura ser aquilo que O Espírito Santo a chamou a ser. O segredo é saber o que Deus chamou a ser. Devemos seguir as pistas para descobrir.
Santa Teresinha nos dá uma valiosa lição nesse sentido através da Parábola das flores do jardim. Diante de suas inquietações ela reconhece que todas as flores são belas e exalam o seu cheiro, mais nem todas são lírios ou rosas, algumas são violetas e malmequer. Compreendeu então que "se todas as florzinhas quisessem ser rosas, a natureza perderia sua gala primaveril, não haveria mais campos esmaltados de pequenas flores". E concluiu: "Dá-se o mesmo no mundo das almas, que é o jardim de Jesus. Quis Ele criar os grandes santos, os quais podem comparar-se aos lírios e às rosas; mas criou também os menores, e estes devem contentar-se em ser malmequeres ou violetas, destinados a deleitar os olhos do Bom Deus, quando os sujeita a seus pés. A perfeição consiste em fazer sua vontade, em ser o que Ele quer que sejamos".
Essa parábola pode ser interpretada por nós. Basta olhar e ver que no jardim de Deus existem grandes e pequenas comunidades. Algumas tem conseguido expandir seus ramos em tantos lugares e outras que ficam circunscritas a paróquia onde nasceram. Algumas atuam em tantas áreas que acabam ganhando notoriedade, outras desempenham um trabalho que nem sempre é reconhecido. Mas, não é isso que faz o jardim da Igreja ser tão bonito? Reconheçamos o nosso valor e façamos a vontade de Deus sendo aquilo que fomos chamados a ser. Poderemos nos perder se quisermos ser o que Deus chamou o outro a ser, entendem? Não podemos usurpar o que foi dado a outro! Ao contrário, devemos nos alegrar com o que foi dado a nós e aos outros, nos beneficiando dos dons que foram repartidos pelo próprio como lhe aprouve.
Grandes obras precisam de homens e mulheres firmes. Jesus uma vez contou uma parábola da casa edificada na rocha (Cf. Mt 7,24. Chuvas, ventos fortes e enchentes não podem derruba-la porque ela está firme. O Mestre nessa parábola também nos alerta que se a casa não estiver bem edificada será grande a sua ruína. Agora imagine que essa casa seja a sua comunidade. Ela pode está bem edificada ou não. Se sim, ela ficará firme quando sobrevierem as dificuldades, os conflitos, perseguições, disputas, intrigas, calunias ou difamações. Essa firmeza vem da esperança que não engana (Cf. Rm 5,5) que associada a fé que nos move nos torna fortes nas lutas que teremos que travar para permanecermos juntos.
Quanto mais o Espírito Santo nos conduz ao aprofundamento da vida em comunidade, mais firmes ficaremos. E para que isso aconteça devemos fazer sacrifícios. Esses sacrifícios são uma prova de amor dada por quem se descobriu amado e quer, responder ao amor com amor. Dizendo de um outro jeito, quando decidimos viver em comunidades temos que aprender a fazer os sacrifícios diários da vida espiritual. São Lucas nos diz que as primeiras comunidades eram assíduas ao ensinamento dos apóstolos, a fração do pão e as orações (Cf. At 2,42). Isso não exigia nada deles? Claro que sim, ainda mais quando recordamos o contexto de instabilidade que marcava essas comunidades nascentes.
Oseias fala de um sacrifício que vem dos nossos lábios (Cf. Os 14,2). Um sacrifício com cânticos de louvor é o que oferece Jonas (Cf. Jn 2,10). São Paulo nos diz que nós devemos progredir no amor, por causa do exemplo de Cristo, “que nós amou e por nós se entregou a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor” (Ef 5,2). Qualquer pai ou mãe que exerça bem o seu papel consegue dizer o que é sacrifício e acredita que todo o esforço não é em vão. Nós que aceitamos viver nessa nova família espiritual sabemos que os sacrifícios são inúmeros: regra, reuniões, missões, orações, leituras, estudos, compromissos. O sacrifício é o da vida toda doada por causa do amor que nos conquistou. É um sacrifício regado pelo Espírito Santo que transforma as horas em instantes transformadores, os suores e lágrimas em água viva, que lançado no chão da vida faz crescer novas esperanças.

“Sabemos irmãos amados de Deus, que sois eleitos” (1 Ts 1,4).



terça-feira, 13 de agosto de 2019

Como é que se forma uma comunidade? A Tessalônica de ontem e de hoje


"Passaram por Anfípolis e Apolônia e chegaram a Tessalônica, onde havia uma sinagoga de judeus" (At 17,1).
Na segunda viagem missionária (49-52 d.C.), Paulo atravessou a província da Ásia (a atual Turquia) e chegou à cidade de Filipos, na província da Macedônia (atualmente Grécia meridional), por volta do ano 50 d.C. Esse foi o início de sua missão na Europa. Apesar de todas as dificuldades (Cf.1Ts 2,2a), eles continuavam anunciado a boa nova da salvação formando novas comunidades como entrevemos na saudação do apóstolo, “Paulo, Silvano e Timóteo à igreja dos Tessalonicenses, reunida em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo” (1 Ts 1,1).
            Como é que se forma uma comunidade? Através da força do Espírito Santo, somos atraídos até Jesus e passamos a nos reunir em torno da sua Palavra. “Não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas mediante um encontro com um acontecimento, com um uma pessoa que dá um novo horizonte a vida e, com isso, uma orientação decisiva” (DA 243). Por isso, se faz necessário “quem pregue” (Cf. 1 Cor 10,14ss), que o anúncio seja permanente para que esse encontro decisivo aconteça.
Quando esse encontro acontece, vidas são transformadas pela força do Espírito Santo, homens e mulheres passam a seguir aquela voz que ressoa em todos os cantos criando uma realidade marcada pela presença do ressuscitado. Devemos acrescentar que esse encontro com Jesus “provoca uma conversão de vida, que leva ao discipulado, gera comunidade e impele a sair em missão” (DA 278).
            Paulo e Silas passaram meses testemunhando a boa nova da salvação. Nossas comunidades começam com um forte impulso carismática que nos empurra a testemunhar cada vez mais o amor que nos une e reúne em torno do Cristo que vive. O Evangelho se torna vivo e muitos vão se agregando a nossas comunidades, o que provoca uma efervescência entre nós. A comunidade reunida se torna palavra profética.
A comunidade é formada por quem segue e por quem professa a fé. O seguimento vem do encontro com o Cristo ressuscitado. Foi esse encontro que fez o apostolo Paulo deixar tudo para trás para correr atrás do conhecimento de Cristo, seu bem supremo (Cf. Fl 3,8). Esse encontro nasce da proclamação dos crentes que pregam com ou sem palavras despertando a fé nos que veem e ouvem. Depois essa fé se torna testemunho no lugar em que vivemos, porque esse “Jesus que chama é o mesmo que envia. Ele chama para estar consigo e para sair em missão. Por isso não se pode separar a vida em comunidade da ação missionaria, como se uma só dessas dimensões bastasse” (DGAE 18). Não foi isso que Paulo e seus companheiros fizeram? Não foi isso que despertou a fé, sendo o ponta pé inicial de novas comunidades?
Não podemos abdicar nosso status missionário. O que percebemos muitas vezes em nossas comunidades é que o ardor vai diminuindo e vamos nos enrolando com reuniões e mais reuniões, burocratizando cada vez mais a vida comunitária pondo nossos esforços na “pastoral de conservação”. O espírito Santo continua interpelando as comunidades a não abandonar sua raiz fundante. Do seu jeito próprio, no lugar em que foram enraizadas devem proclamar que Cristo está vivo. Mesmo com todas as dificuldades que enfrentamos devemos permanecer com ouvidos bem abertos para escutar o Senhor que diz: “IDE”.
            Depois que os apóstolos foram expulsos de Filipos, eles seguiram para o oeste, pela via Egnatia, a grande estrada romana que ligava Roma com as províncias do Oriente, fazendo conexão com importantes estradas, como a via Ápia (vinda de Roma). Depois de uma jornada de cerca de 150 quilômetros, Pau­lo e Silas chegaram à cidade de Tessalônica (atualmente Salônica, Grécia), capital da província da Macedônia. Uma das cidades mais movimentadas e prósperas do Império Romano no século I.
O cristianismo paulino foi preferencialmente, um fenômeno urbano.[1] Um dos desafios que vivemos hoje é a cultura urbana. Ontem e hoje somos chamados a ler a realidade que nos cerca para transformar pela força do Evangelho: “Quando a Igreja fala em evangelização da cultura urbana, tem clareza de que ‘não se trata tanto de pregar o Evangelho a espaços geográficos cada vez mais vastos ou populações maiores em dimensões de massa, mas de chegar a atingir e como que a modificar pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da salvação’” (DGAE 31).
Fé e cultura sempre se entrelaçaram. Como nossas comunidades têm iluminado a cultura urbana? Como essa cultura tem mudado a rotina de nossas comunidades?
Devido a localização privilegiada de Tessalônica a cidade presenciava uma grande circulação de indivíduos vindo de todos os lugares interessados em fazer negócios e explorar as riquezas do lugar. As informações históricas atestam, entre a população grega da cidade, a presença de vários povos: egípcios, trácios (povo indo-europeu), ítalos (da antiga Itália), sírios, ju­deus, entre outros. Por isso, podemos dizer que não só mercadorias circulavam mais ideias, crenças, medos, preconceitos, lendas, histórias e mitos que provocavam uma enorme pluralidade.
Essa pluralidade se verificava também nas crenças religiosas. Além dos cultos locais e das divindades do Olimpo grego (Zeus, Apoio, Ares, Afrodite, Dionísio etc.), a presença de cultos às divinda­des “estrangeiras” é bem atestada em Tessalônica: cultos romanos com suas divindades (Júpiter, Febo, Martes, Vênus etc.), culto obrigatório ao imperador (salvador e messias), divindades egípcias (Serápis, Osíris, Anúbis), asiáticas (Átis e Cibele) . O judaísmo tinha o seu espaço já que gozava de licitude por parte das autoridades. Também não faltavam novas religiões de mistérios, vindas do Oriente. Seus pregadores circulavam pelas ruas da cidade, vendendo o “êxtase espiritual”. Um verdadeiro mercado religioso!
Se olhamos para “as Tessalônicas” de hoje, vemos a mesma pluralidade em todos os cantos. Um simples olhar ao nosso redor atesta isso. O mercado de ideias, crenças, ídolos, mitos, ritos, estão em todo lugar tornando desafiador a vida em comunidade. Um emaranhado de fios precisa ser desenrolado em nossas comunidades graças ao progresso técnico-cientifico, opções de entretenimento, alcance dos meios de comunicação, circulação de ideologias, alternativas religiosas, desigualdades sociais, o que nos obriga a examinar o quanto não estamos sendo estrangulados por esses fios visíveis e invisíveis que por vezes, são difíceis de quebrar.
Quem chega em nossas comunidades vem pelas inúmeras estradas existenciais, virtuais e conflitivas que se criaram no meio em que vivemos. Elas trazem consigo sonhos, esperanças, planos, projetos, derrotas, fracassos, tristezas, magoas...enfim, eles não vêm de mãos vazias. Alguns carregam histórias que podem ser contadas, outras preferirem esconder ou até mesmo mudar, mentindo, enganando a si mesmo e aos outros. Eles já viram e ouviram muito ao longo da sua trajetória de vida e não sabemos o quanto isso os tem afetado. Mas, o Cristo itinerante, os achou pelo caminho e disse, “vinde e vede”. Portanto, nossas comunidades devem estar de portas abertas para acolher quem chega, preparadas para cuidar, sendo igreja samaritana (Cf. Lc 10,30-37).  
            “Alguns deles creram e associaram-se a Paulo e Silas, como também uma grande multidão de prosélitos gentios, e não poucas mulheres de destaque” (At 17,4).






[1] Pulga, Rosana. Os carismas na teologia paulina, edições Paulinas, 2008.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O início da RCC na Arquidiocese de Fortaleza


No período em que a Renovação Carismática chega a Fortaleza, a cidade está vivendo sob o “ciclo dos coronéis”. A ditadura militar conhece o seu apogeu através do ilusório milagre econômico brasileiro. Os governadores estaduais são indicados pelo Presidente da República. Através de atos institucionais decretados pelo poder executivo, muitas pessoas foram presas, inclusive aqui em Fortaleza: jornalistas, médicos operários, professores, estudantes, religiosos, oposicionistas permaneciam no 23o BC até segunda ordem.
A nível nacional, a RCC se desenvolve e parece não se importar com o cenário político-social do Brasil. Não consta, pelo que pesquisei nenhuma manifestação que se refira a problemática brasileira seja através de carta circular, boletim, jornais, etc. Paralela a toda tentativa de democratização, a Renovação cresce “por fora”, com uma preocupação estritamente eclesial, pois o movimento carecia de legitimação por parte dos poderes eclesiásticos, que olhavam com certo desdém para as atividades realizadas nos grupos de oração. Essa atitude parece se reproduzir também em Fortaleza. 
Na década de 70 chega da África ao Brasil, um missionário chamado Pe. Philippe Prevost[1], que começou a realizar experiências de oração na cidade, com grande atuação no movimento dos cursilhos, preparando o terreno para a chegada da RCC em Fortaleza, tanto que muitos dos que fizeram a primeira experiência do ‘batismo no Espírito Santo’ eram cursilhistas. Essa relação entre esses dois movimentos se evidenciou em vários lugares onde a Renovação se desenvolveu.
A Renovação chega a Fortaleza em 1975. Em um final de semana estavam reunidos alguns religiosos e religiosas e pessoas que participavam dos cursilhos de Cristandade, de 23 a 25 de Junho, onde o Pe. Eduardo Dougherty pregou o primeiro Seminário de Vida no Espírito Santo. Foram três noites de palestras no Cenáculo. Estavam entre eles Horácio Dídimo, Eduardo Bezerra Neto, Irmã Ribeiro e Vânia Torres.
Em Julho de 1975, Horácio Dídimo e sua esposa, participam de uma noite de oração carismática na casa de retiro São Francisco, em Salvador, Bahia, com a presença da Irmã Sara e Frei José, que os entregam posteriormente, algumas instruções para a realização dos Seminários de Vida no Espírito Santo. Ao chegar a Fortaleza, eles entregam o material ao Pe. Philippe.
Em Agosto de 1975, tem início o primeiro Seminário de Vida coordenado pelo Pe. Philippe, no Colégio Santa Cecília. Era um seminário de sete semanas, que reduzia-se ao Querigma, momentos de silêncio interior e partilha dos dons, mesmo que o seu uso não fosse tão difundido.
O primeiro tema abordado, segundo a organização do próprio Pe. Philippe e registrados nos seus cadernos de anotação pessoal, era o amor de Deus, continuando com o tema da salvação realizada por Cristo Jesus, a vida nova que o Senhor quer nos comunicar, uma oração de cura interior, a imposição das mãos pedindo a efusão do Espírito Santo, o crescimento que se espera de cada pessoa e a transformação em Cristo que acontece a cada dia através de uma renovação permanente. Os que participavam do Seminário eram orientados a seguir durante a semana um manual para os participantes dos Seminários de Vida no Espírito Santo publicado pelas edições Loyola.
Ainda em outubro de 1975, vai se realizar vários outros Seminários, coordenados pelo Pe. Philippe, Irmã Ribeiro e Irmão Henrique.
O Pe. Philippe ainda organizava experiências de oração no Espírito Santo em três etapas: a 1o experiência consistia na “Vida no Espírito Santo”, a experiência seguinte “A figura de Cristo contemplada no Espírito Santo” e por último a “Espiritualidade de evangelização”. Após essas experiências de oração no Espírito Santo ele aconselhava que as pessoas procurassem freqüentar algum grupo de oração na cidade. Em 1979, já era 40 o número de grupos de oração que se encontravam semanalmente.
Nos conta Emmir Nogueira[2] que quase ao mesmo tempo em que o Pe. Eduardo pregava, tinha chegado Zilah Maciel ao Pirambu, hoje Cristo Redentor, para ficar alguns meses.  Pe. Caetano, quando chega da Bélgica, encontra-se com Zilah Maciel, leiga paulistana, que já formava um grupo de carismáticos nessa região.
Não pude falar com Pe. Caetano, devido a sua idade avançada e problemas de saúde, mas o Pe. Batista[3] conta, que já depois de ter conhecido a RCC, foi convidado a participar de um retiro para sacerdotes ligados a Renovação em Salvador, mas como não podia, perguntou ao Pe. Caetano, em um encontro do clero, “você conhece a RCC? Respondeu o Pe. Caetano: não ouvi falar. Pois vai a um retiro no meu lugar, que lá você vai aprender. Pe. Caetano aceitou e quando voltou começou a desenvolver a grande obra do Espírito no Pirambu, que continua até hoje”. 
No norte de Fortaleza, encontramos esse grande incentivador da RCC: Pe. Batista Poinelli, que junto com Pe. Philippe pregou vários Seminários de Vida em Fortaleza.
Conversando com Pe. Batista, ele me disse que em 1975, quando decorava a Igreja para o natal, levou uma queda da escada e fraturou o colo do fêmur, tendo que ser hospitalizado. No ano seguinte, ainda se recuperando e andando de muletas, foi convidado para participar de um encontro no Cenáculo. Ele aceitou o convite, “era um jovem Pe. Americano, chamado Eduardo, que começou a falar da Renovação Carismática, do ‘Batismo no Espírito Santo’ voltei para casa na primeira noite, sem entender nada. Toda noite iam me buscar em casa para participar desses encontros. Após essas três noites de encontro, começamos a Renovação Carismática na Igreja de Nazaré”.
No sul, chegaram alguns Irmãos Canadenses por intermédio do Pe. Philippe. Eram eles: Ir. Mauricio, Michel e Ivo. A essa altura o Ir. Mauricio Labonté, que era missionário canadense começou a evangelizar os jovens a partir da espiritualidade da RCC, fundando o Grupo de Oração João XXIII, na capela das Irmãs Missionárias, na Aldeota, anos depois ficando sob a coordenação de Lucia Nogueira de Medeiros.
A década de 70 foi um período difícil para a Renovação Carismática. Essa nova expressão eclesial começava a se desenvolver. Conversando com Iolanda Fialho[4], ela me disse que nesse período não existia ainda literatura a respeito da RCC, “se ouvia as palestras, líamos a Bíblia e usávamos o livro de cânticos louvemos ao Senhor”. Emmir Nogueira[5] conta que o acesso a Bíblia não era tão fácil “naquela época para conseguir uma bíblia tinha que vir do Rio de Janeiro. Era preciosíssima uma Bíblia, pois era difícil consegui-la. Nossa turma ainda hoje guarda a primeira Bíblia, pois ela teve para nós um valor inestimável”.
Era o período do desenvolvimento da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais de Base, que na América Latina teve grande repercussão no meio do clero. Havia dificuldades de convivência entre essas duas expressões eclesiais. Emmir testemunha uma vez que foi expulsa da Igreja de São Benedito, onde o sacerdote dizia “sai porque você não é Igreja e a RCC não está no plano de pastoral orgânico paroquial. Retire-se daqui com seu povo! Eu sai com todos os coordenadores de grupo de oração atrás de mim. Lá fora faixas do PT. Cruzei com Maria Luiza a três dedos de mim de distância e, Deus foi muito bom, porque eu sorri para ela e disse: Deus te abençoe”[6]. Nesse período o Pe. Caetano escreve o livro A teologia da Libertação a luz da Renovação Carismática. O texto é resultado de um encontro de líderes da RCC de todo o Brasil em Campinas entre 04 e 11 de Janeiro de 1978. Nesse encontro foram feitas apreciações e criticas a respeito de um estudo feito a pedido da CNBB e com base em uma pesquisa do CERIS, realizada em 1975 e publicado em 1978 pela Editora Vozes. Mesmo nascendo no mesmo período, após o Concilio Vaticano II, Teologia da Libertação e Renovação Carismática, sempre tiveram dificuldades de entendimento. Era comum nessa época encontrar pessoas ligadas as Cebs que diziam que os carismáticos eram um bando de “alienados”, “só querem saber de rezar”, “eles constituem um grande perigo para a Igreja”, “não se engajam na luta dos pobres”, etc. O Pe. Caetano, em contrapartida, no livro citado acima, diz “Só existe libertação total, real e concreta, na medida em que o homem, assumido pelo Senhor Jesus, se liberta do seu egoísmo, de suas tensões, medos e angústias, das opressões do demônio, para se lançar na gratuidade e na disponibilidade do serviço libertador do próximo” [7]. São duas realidades eclesiais que se distanciavam cada vez mais.
Nos anos 70, vai surgir a primeira equipe de serviço da RCC, formada por Ir. Cardoso, Ir. Ribeiro e Horácio Didimo. Esse último[8] participa ainda hoje ativamente da Comunidade Face de Cristo, onde coordena um grupo de oração. Nesse período a preocupação da equipe era dupla: difundir a riqueza dessa espiritualidade e conquistar legitimação por parte do clero, já que nesse período se contava nos dedos os sacerdotes que apoiavam o movimento.
Em 1978, a primeira edição do jornal Ágape, traz a informação da primeira reunião do conselho de representantes dos grupos de oração da região no dia 1 de março, no cenáculo, com representantes dos seguintes grupos de Fortaleza: Cristo Redentor, Santo Afonso, Sagrada Família, N. S. Medianeira, Cenáculo, Santo Tomás de Aquino, João XXIII, N. S. Fátima, Espírito Santo, Noite de Oração, N. S. Piedade, N. S. do Santíssimo Sacramento, N. S. dos Remédios.
Em vários lugares começam a acontecer Seminários de Vida no Espírito Santo, e as lideranças da RCC vão sendo formadas. Em Março de 1978, o Pe. Eduardo dirigiu um retiro para cerca de 50 lideres, no cenáculo.
Em 6 de Abril de 1978, Dom Aloísio recebe a nova comissão regional formada por Ir. Ribeiro, Pe. Philippe Prevost, S.J, Pe. Caetano de Tilesse, Horácio Dídimo, Maria Evendina, Hiran de Albuquerque Lage, Cleide Maria Furtado Arruda.
Entre a década de 70 e 80, Dom Aloísio, que era Arcebispo de Fortaleza, envia Monsenhor Camurça, para acompanhar a RCC.  Ele vai dar um grande apoio a Renovação, participando com assiduidade dos encontros promovidos pelo movimento.
Em 1981, acontece um retiro com as lideranças da RCC onde estava presente o  Pe. Jonas Abib. Para os que estavam nesse retiro, esse foi um marco referencial na RCC de Fortaleza. O Pe. Jonas partilhou a sua experiência na comunidade Canção Nova, fundada por ele, que naquela época foi à primeira comunidade carismática do Brasil. Segundo Emmir, ele dizia na pregação: “Deus quer comunidades”. Depois desse retiro foram surgindo várias comunidades em várias localidades de Fortaleza: O Instituto Religioso Nova Jerusalém, a Comunidade Shalom, Face de Cristo, Nova Evangelização, Obreiros da Tardinha, etc. A década de 80, na verdade, foi o período de nascimento das comunidades e grupos de oração em todos os cantos de Fortaleza. De norte a sul, de leste a oeste, surgiam novas comunidades, grupos de oração, se realizam Seminários de Vida no Espírito Santo, aumentava a adesão de pessoas a essa nova expressão eclesial.
Em uma palavra, a Renovação começa a se expandir. Passa a acontecer um trabalho de evangelização através da Radio Assunção, que depois precisou ser vendida. Em 1986, Afondo Ibiapina apresenta ao Bispo o projeto do Queremos Deus, com o objetivo de mobilizar todas as comunidades em uma grande atividade de evangelização. O Governador na época era Gonzaga Mota que cedeu gratuitamente o Castelão para a realização do evento. Desde esse ano, só em 1987, 2001 e 2002 não aconteceu. De certo modo essa atividade é relevante para a Arquidiocese de Fortaleza, pois consegue congregar muitas pessoas de vários lugares. No ano 2000, chegou a reunir 200.000 pessoas na Base Aérea de Fortaleza, tendo repercussão nacional.
Um pensamento que circulava a nível Nacional era que a RCC era uma investida conservadora contra o avanço das Ceb´s. Isso tem reflexo na cidade, tanto que o Jornal o povo, em 1988, traz uma matéria com o seguinte titulo: “Investida conservadora conta com os carismáticos”. O jornal continua afirmando que os setores conservadores do Vaticano contam com a ajuda do movimento da Renovação Carismática Católica para desarticular a “ala progressista” no Brasil. Esse pensamento não se justifica, conforme Ronaldo José de Sousa[9], já que havia dualização do discurso, impedindo que houvesse na Igreja intercâmbio entre os adeptos das Ceb’s e carismáticos, diminuindo a possibilidade de influência entre esses dois movimentos. Cada qual se localizou na Igreja em lugares bem definidos e era impossível, por exemplo, encontrar um grupo de oração em uma Comunidade Eclesial de Base.
Outros continuam afirmando, que a RCC faz parte de um grande projeto reacionário, como deixa entrever o titulo do jornal fortalezense, levado a cabo pela própria hierarquia conservadora através de uma política de retração à Teologia da Libertação e que esse teria possibilitado sua expansão.
É evidente que a Igreja de Roma, sempre demonstrou simpatia pela Renovação Carismática. Em 1973, quando acontece a primeira conferência Internacional de Líderes, o Papa Paulo VI, conversando reservadamente com treze pessoas de oito países que participam desse encontro, disse: “alegremo-nos com vocês, queridos amigos, pela renovação da vida espiritual que se manifesta hoje em dia na Igreja, debaixo de diferentes formas e em diversos ambientes”.[10]
A aproximação da Renovação Carismática com o Vaticano se deu através de grande colaboração do Cardeal Leon Josef Suenens, Arcebispo de Malines, Bruxelas, Bélgica, que acompanhou o movimento desde o seu início, a pedido do próprio Paulo VI. O Cardeal Suenens teve participação decisiva no Concílio Vaticano II.
Já em 1975, em um novo encontro internacional de carismáticos, em Roma, o mesmo Paulo VI, diz aos mais de 10 mil peregrinos reunidos na Praça de São Pedro: “Para um mundo assim (...) não existe nada mais necessário do que o testemunho dessa renovação espiritual, que o Espírito Santo suscita hoje (...). Então, não será uma graça para a Igreja e para o mundo essa renovação espiritual? E, neste caso, como não adotar todos os meios para que isso continue acontecendo?”.[11]
Na mesma linha, segue João Paulo II, manifestando o seu apoio ao movimento, incentivando o desenvolvimento de uma teologia do Espírito Santo e de uma eclesiologia que mostre o lugar dos carismas na unidade da Igreja, pois reconhece o Papa, um despertar nos tempos atuais, ao Espírito Santo. No início de seu pontificado, em 11 de dezembro de 1979, o Papa polonês recebeu o Cardeal Suenens e outros membros do Conselho Internacional da Renovação Carismática. Foi exibido um documentário sobre a RCC. Eis alguns trechos dos comentários feitos pelo Papa: “Eu sempre pertenci a essa renovação no Espírito Santo (...) estou convencido de que esse movimento é um sinal de sua ação (...) agora eu vejo esse movimento por todas as partes. Em meu país vi uma presença especial do Espírito Santo (...). de maneira que estou convencido de que este movimento é um importante componente dessa total renovação da Igreja, dessa renovação espiritual da Igreja”.[12]
Esse apoio de Roma não influenciou a Igreja da América Latina. Na década de 70, esse continente seria marcado por uma forte adesão desse Episcopado à Teologia da libertação. A reunião do Episcopado Latino Americano em Puebla, em 1979, sela o compromisso da “opção preferencial pelos pobres”.
Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, em 14 de fevereiro de 1979, o teólogo da libertação Leonardo Boff assegurou: “E as três afirmações que Puebla fez e que nos interessam no aspecto político-religioso foram à afirmação da opção preferencial pelos pobres, a afirmação da Teologia da Libertação, ou melhor, da temática da libertação, e a afirmação muito decidida da defesa dos direitos humanos. E eu diria ainda uma quarta coisa que para nós é muito importante, a afirmação explícita e acentuada de apoio às comunidades eclesiais de base. (...) Essas quatro ultimas causas profundamente afirmativas de Puebla constituíram-se, nos últimos anos, nas grandes bandeiras da Teologia da libertação”.[13]  
Por outro lado Puebla nada refere acerca da teologia ou práxis dos movimentos eclesiais. A única referência direta ao que chama de renovação espiritual que aparece nos meios mais diversos lembra a complacência de Paulo VI e de algumas Conferências Episcopais em relação ao movimento, mas alerta que “essa renovação exige dos pastores bom senso, orientação e discernimento, para que se evitem exageros e desvios perigosos”.[14]
Na década de 70, a Igreja Católica Brasileira mostrou-se como a mais progressista de toda a América Latina. Foi aqui que as Ceb´s se tornaram modelo para as Igrejas dos Países do Terceiro mundo. Houve um forte apoio do episcopado as comunidades eclesiais, gerando uma forte oposição da hierarquia a RCC devido a sua postura considerada espiritualizante. O movimento não participava dos planos diocesanos, mantendo-se a margem e desenvolvendo atividades paralelas.
O jornal o povo manifesta uma opinião que não encontra lugar na realidade arquidiocesana das comunidades e grupos de oração, como pode ser explicitado acima, pelo simples fato da Igreja de Fortaleza receber forte influência da Teologia da Libertação. É evidente que os Bispos procuravam acolher como pastores, já que a própria Sé Apostólica manifestava certo apreço pelo movimento, mas as Paróquias e Áreas Pastorais faziam de sua freguesia, o lugar das “comunidades eclesiais de base”. Isso é tão verdade, que nessa mesma edição do Jornal O Povo, monsenhor André Camurça, então Vigário-Geral da Arquidiocese, afirma que não passam de cinco os padres alinhados com o movimento.
Nesse mesmo período, a Coordenação arquidiocesana busca entendimento com o Arcebispo Dom Aloísio, para continuar o projeto “Evangelização 2000”, que consistia em cursos com duração de 4 meses para evangelizadores com três horas por semana, ou cursos intensivos de 11 dias com o objetivo de despertar “a Igreja missionária, que vai as ruas anunciar o Evangelho”, diz Pe. Caetano. Esse é um projeto a nível nacional, mas que ganhou um grande espaço em Fortaleza, acontecendo evangelização nas ruas e praças públicas.
A Comunidade Nova Evangelização, hoje sob a coordenação de Lúcia Medeiros[15], nasce sob forte influência desse projeto. Ela me disse que procurou fazer cursos em outras partes do Brasil, trabalhando incansavelmente pelo desenvolvimento de uma evangelização sistemática em Fortaleza. É importante dizer que todo esse trabalho continua se desenvolvendo atualmente. No Congresso Estadual do ano passado, ouvi Emmir Nogueira dizer que sua comunidade havia evangelizado todo o bairro de Fátima, indo de casa em casa testemunhando a Palavra de Deus, conseqüência do forte trabalho de formação realizado na década de 80.
Já se aproximando do final dos anos 80, monsenhor Camurça diz que já são mais de 200 grupos espalhados pela cidade. Surge então uma dupla preocupação: a formação de lideranças e a estrutura adequada para o funcionamento dos grupos de oração, pois constatava-se ser essa a grande necessidade das equipes que coordenavam a Renovação. Vários encontros foram realizados nesse sentido sendo produzido algum material, que orientava por ênfase nos grupos de oração.
Essa formação começava pelos seminários carismáticos, lugar do primeiro anúncio, seguido de grupos carismáticos, que influenciados pela experiência da comunidade Shalom se dividia da seguinte maneira:
Grupos de 1º fase de crescimento, com no máximo 50 pessoas, onde o objetivo principal era a prática dos carismas (1 Cor 12,1-12); grupos de 2º fase de crescimento com o objetivo de uma instrução na doutrina católica; grupos de 3º fase de crescimento onde as pessoas são incentivadas a viver o discipulado, fazendo um caminho de santidade. Essas fases de crescimento tinham pelo menos quatro aspectos fundamentais: Estudo bíblico, oração pessoal, partilha de vida e ministérios (como se chama ainda hoje os serviços realizados dentro e fora do grupo de oração).



[1] Sacerdote jesuíta, que colaborou imensamente no desenvolvimento da RCC em Fortaleza.
[2] Informativo da Renovação Carismática Católica da Arquidiocese de Fortaleza - ANO XXII - Jul/Agos/2000 - no 205
[3] Pe. Batista é sacerdote Piamartino que se encontra no Brasil a vários anos.
[4] Iolanda Fialho é Assistente Social e coordenou a RCC Arquidiocesana de 2000-2006.
[5] Emmir Nogueira é Co-fundadora da Comunidade Católica Shalom que no ano de 2007 recebeu o reconhecimento pontifício, coordenando por dois mandatos de três anos a RCC arquidiocesana.
[6] Informativo da Renovação Carismática Católica da Arquidiocese de Fortaleza - ANO XXII - Jul/Agos/2000 - no 205.
[7] Tillesse, Caetano Minette. A Teologia da libertação a luz da Renovação Carismática, São Paulo, Edições Loyola, 1978, pg. 44.
[8] Horácio Dídimo foi professor do departamento de literatura da Universidade Federal de Fortaleza. É autor de vários livros entre eles: tempo de chuva, tijolo de barro, A palavra e a Palavra (amor – palavra que muda de cor), etc. Faleceu em 2018.
[9] Ronaldo José de Sousa foi membro da Comissão Nacional de Formação da RCC e Professor da Faculdade de Filosofia de Cajazeiras – PB. É consagrado da Comunidade Remidos do Senhor.
[10]  Renovação Carismática Católica. A identidade da RCC, apostila 1. São José dos Campos: Fundec, s/d, pg. 16.
[11] Ibid., pg. 15.
[12] Sousa, Ronaldo José de. Carisma e instituição: relações de poder na Renovação Carismática Católica do Brasil, Aparecida, SP; Editora Santuário, 2005, pg 66-68.
[13] Ibid., pg. 69.
[14] Ibid., pg. 70.
[15] Ela foi uma das coordenadoras do Grupo João XXIII, um dos primeiros grupos do movimento aqui em Fortaleza.