A oração de Paulo vai do “Dou graças ao meu Deus por vós…” para “não cesso de pedir por vós”. Sua oração passa da contemplação à ação, da ação de graças à intercessão. O Apóstolo aprendeu na escola de Abraão e Moisés que interceder é uma ação que nasce da solidariedade para com o outro.
Abraão protagoniza um momento muito significativo nesse sentido. Diante da iminente destruição de algumas cidades, ele “negocia” para salvar o máximo de habitantes, apelando para encontrar um justo que pudesse ser poupado, “Destruirás o justo com o injusto? Talvez haja cinquenta justos na cidade! Destruirás e não perdoarás a cidade pelos cinquenta justos que estão no meio dela?” (Gn 18,24-25). Moisés, chamado por Deus para libertar o povo da escravidão, inúmeras vezes precisou mediar, argumentar e suplicar junto de Deus pelo seu povo, porque sentia uma necessidade de intervir para salvar aqueles que lhe foram confiados, “ó Senhor, por que se acende a tua ira contra o teu povo, que tirastes da terra do Egito com grande poder e mão forte? (...) Lembra-te dos teus servos Abraão, Isaac e Israel” (Cf. Ex 32,11).
Eles prefiguram Jesus, o Cristo, nosso grande mediador, que intercedeu por nós, tomando sobre si, os nossos pecados e abrindo para todos o caminho da salvação. Como diz o grande Apóstolo, “Ele perdoou todas as nossas faltas, anulou o título de dívida que havia contra nós, deixando de lado as exigências legais; fez o título desaparecer, pregando-o na cruz” (Cf. Cl 2,14). Damos graças em todo o tempo porque Cristo nossa Páscoa foi imolado (Cf. 1 Cor 5,7), o verdadeiro cordeiro que tira o pecado do mundo. Tudo o que oferecemos ao Pai o fazemos por meio de Cristo Jesus, Nosso Senhor, ele que é o fundamento de toda intercessão. Paulo quando fala da linguagem da cruz, nos ensina que a cruz é a linguagem do amor que se entrega. Por isso, olhar para a cruz nos tira da indiferença e faz enxergar todos que caminham em nossa direção e que devem ser conduzidos ao madeiro para depois ir até a pedra removida, testemunhando o amor do Ressuscitado que passou pela cruz.
Quando exercito o serviço da intercessão, desenvolvo uma percepção que me leva na direção do outro. Paulo, andou por diversos lugares, fundou comunidades, conversou com muitos, ouviu seus lamentos, conheceu suas dificuldades. Ele não ficou indiferente e descobriu que um dos primeiros gestos de caridade é a oração. É apresentar tudo aquilo que viu, ouviu, as realidades que tocou a quem tem o poder de mudar, Jesus nosso Redentor. Quem ora pelo outro sente a ação do Espírito Santo que o leva para fora de si, porque Ele nos faz ir do eu para o tu, que se transforma em um nós, porque no momento que intercedo, o caminho é percorrido por mim, o outro e Deus que me chama a “orar em todo lugar” (1 Tm 2,8) e “sem cessar” (1 Ts 5,17).
Nas suas Cartas Paulo intercede em favor das suas comunidades. Quando escreve aos Romanos, chama Deus para ser sua testemunha de que constantemente ora pelos fiéis que estão em Roma, reafirmando o desejo de vê-los para compartilhar algum dom espiritual. Quando ficou sabendo que os cristãos de Éfeso cresciam na fé no Senhor e no amor aos “santos” passou a orar por eles “suplicando ao Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai glorioso, que vos desse o Espírito da sabedoria e da consolação” (Cf. Ef 1,15). Percebam que aquilo que o Apóstolo deseja não são bens materiais e sim espirituais, porque aqui o centro de suas orações não está na solução imediata de problemas, mas no crescimento dos seus irmãos em Cristo. Paulo não intercede apenas para que Deus resolva problemas, mas para que os fiéis cresçam enquanto lidam com eles.
O Apóstolo continua na mesma direção quando escreve aos Filipenses. Ele ora para que o amor entre eles cresça cada vez mais e que caminhem buscando “conhecimento e discernimento” e assim fiquem “íntegros”. Já aos Colossenses ora continuamente para que cheguem a conhecer plenamente a vontade de Deus (Cf. Cl 1,9). O desejo que Paulo testemunha através da sua oração é de crescimento espiritual. Essas comunidades têm muitas necessidades, mas o que Ele considera mais importante é que não se desviem do caminho. Podemos dizer que ele ora pela perseverança dos seus irmãos em Cristo Jesus.
Paulo não faz qualquer oração diante de Deus. Ele não simplesmente ora pela humanidade. Ele conhece suas comunidades, suas lutas, fé e fragilidades. Por um tempo esteve com eles, recebia notícias, sabia de suas aflições. Por isso, o exemplo de Paulo tem uma consequência pastoral: interceder é carregar histórias diante de Deus. É apresentar a Deus as necessidades individuais e comunitárias que chegam até nós. Não deixar de trazer para o altar do sacrifício que imolamos todas essas necessidades, principalmente dos que estão próximos. Temos em primeiro lugar, a responsabilidade de orar por aqueles com quem compartilhamos nossa vida, seja através de laços consanguíneos ou espirituais. Seus nomes, suas lutas, suas aflições, conquistas e fracassos, enfim, suas histórias devem ser contadas por nós àquele que tem o poder de reescrever novas histórias.
Nossa missão de interceder se dá debaixo da missão do grande mediador, que é Jesus Cristo, nosso Senhor. Ele nos chama a fazer “súplicas, orações, intercessões, ação de graças, por todas pessoas, pelos reis e pelas autoridades em geral para quem vivam uma vida calma e tranquila com toda a piedade e dignidade” (1 Tm 2,1-2). Nossa oração deve se estender ao lugar que vivemos para que não nos falte principalmente uma vida digna. Neste caso, as notícias passam a ser transformadas em preces, informações em ações espirituais como penitências e mortificações pela transformação da realidade que vivemos. Não podemos ficar indiferentes às necessidades dos outros, sejam os que estão próximos ou os que estão longe, porque Deus quer que através da oração o mundo seja transformado pelo poder do Espírito Santo.
Somos seres de conexões e por isso rezamos uns pelos outros na certeza da comunhão dos santos. Somos auxiliados por uma “nuvem de testemunhas” (Cf. Hb 12,1) que nos precedem no Reino de Deus e que oram por nós. São nossos amigos espirituais! Apelamos aos santos e à Maria, Auxílio dos cristãos, porque quis Nosso Senhor, que através dos seus méritos pudéssemos recorrer a sua intercessão. Eles nos ajudam a seguirmos no caminho da salvação e pelo testemunho deles, permanecermos fiéis a Jesus. Enquanto andamos neste mundo, fortalecemos os passos nos alimentando do Pão da Palavra e da Eucaristia para não desanimarmos ao longo do caminho. Através desses alimentos espirituais são dispensadas as graças necessárias para continuarmos firmes.
Se queres crescer na tua vida espiritual lembra-te que existem muitos que precisam do teu sacrifício de oração. Talvez hoje exista alguém cuja história Deus quer que você guarde no coração para transformá-la em oração. Não é preciso dizer muito, basta ter a coragem para levar seu nome diante de Deus. Leve sua dor, sua esperança, suas lutas. Interceder é isso: permitir que o amor nos tire de nós mesmos e nos faça carregar alguém. Quem aprende a interceder descobre que a oração não é apenas estar sozinho diante de Deus; às vezes precisamos levar tantos outros para o lugar em que me encontro sozinho com Deus porque o amor recebido de Cristo me faz assumir o “nós” na oração.
Paulo não aparece apenas como “aquele que intercede”. Ele também diz: “Irmãos, rezai por nós.” Isso é muito valioso para a espiritualidade da intercessão porque o Apóstolo que ora em favor de suas comunidades, que apresenta suas necessidades diante de Deus também reconhece que precisa ser carregado pelas orações dos outros. Paulo não se apresenta como super-herói espiritual. Ao contrário, ele reconhece suas fraquezas, seus medos e fragilidades e pede que rezem por ele. Sua oração leva a humildade e é nisto que consiste sua força. Isso cria uma reciprocidade: Eu rezo por você. Você reza por mim. Nós carregamos um ao outro diante de Deus.
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