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terça-feira, 21 de julho de 2026

O Espírito Santo nos ensina a rezar

Depois do encontro com Cristo na estrada de Damasco, Paulo não recebeu apenas uma nova missão, ele recebeu uma nova vida, onde tudo passou a ser lido a partir do mistério pascal de Cristo. Essa vida nova vai crescendo a partir de uma nova experiência de oração onde o Espírito Santo passa a orar nele e com ele, fazendo com que o Apóstolo se reconheça como “templo do Espírito Santo”. 


Vimos que algo de extraordinário aconteceu fazendo com que Saulo passasse a ser Paulo. Isso se deve ao encontro com o Cristo ressuscitado no caminho de Damasco. Esse encontro abriu caminho para outro, que foi o encontro com o Espírito Santo, que passou a ser para o Apóstolo, mestre da oração. Antes de Damasco, Saulo conhecia muitas orações, ele rezava diariamente, por exemplo, o Shemá. Depois de Damasco, ele descobriu que o Espírito Santo desperta no discípulo o desejo de orar, fazendo com que aquilo que sai lábios, tenha sido antes conhecido no coração. 


Chegada a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher (Cf. Gl 4,4)  para realizar nossa salvação. Com isso, passamos a ser filhos no Filho, “herdeiros e co-herdeiros” e podemos clamar “Abba, Pai” (Cf. Gl 4,6). E Jesus cumpre o que Ele havia dito, enviando o Espírito Santo. Paulo compreendeu que Deus habita no homem, que somos sua “morada”, lugar sagrado e que assim, podemos dialogar como “amigos” com aquele que habita em nós. Esse diálogo se transforma em uma amizade que cresce a cada dia, quando oramos. A oração  nos faz “amigos do Espírito Santo” e é a sua marca que recebemos para “garantia da nossa herança até o resgate completo e definitivo, para louvor da sua glória” (Cf. Ef 1,13-14), porque como nos disse Jesus, é Ele “que nos ensinará tudo” (Jo 14,26). 


Paulo diz que uma nova vida, segundo o Espírito, vai criar uma nova lei (Cf. Rm 8). Essa nova lei se opõe à antiga lei, onde uma leva a vida e a outra, a morte. Uma dessas leis vai crescer dentro de nós, influenciando como vamos agir. Se a lei da carne se impor,  falar mais alto, nossas ações vão ser egoístas o que irá causar inúmeros males a sociedade. Por exemplo, se formos guiados pelo ódio, o que podemos esperar? e se as intrigas, contendas e divisões prevalecerem? Pelo contrário, se a lei do Espírito nos dirigir, nossas ações serão marcadas pelo “amor, alegria, paz, paciência, bondade, benevolência, fé,mansidão e temperança” (Cf. Gl 5,22). Que lei queremos que nos guie?  

Se o Espírito Santo habita em nós devemos viver segundo o Espírito, ser guiados por Ele. E como vivemos segundo o Espírito? Paulo nos responde dizendo que devemos nos “inclinar para aquilo que é próprio do Espírito” para não sermos dominados pelos instintos egoístas. O Apóstolo nos leva a compreender a filiação divina, nossa condição de filhos, o que faz toda diferença em nosso aprendizado sobre oração. Como um filho deve se relacionar com o pai? com confiança. Por isso que através do Espírito, devemos clamar em nossa oração “Abba, Pai”, o que demonstra que temos plena confiança em Deus, queremos fazer sua vontade. Por isso nos aproximamos dele, sem medo, porque sabemos que todas as coisas concorrem para o bem dos que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o projeto dele”. 

Paulo diz que “todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus”. Ele insiste nisso porque é assim que devemos nos relacionar com Deus. Como Deus é nosso Pai, ele cuida de nós, não deixa que falte o necessário, garante o essencial para uma vida digna. E esse Espírito “que ora em nós com gemidos inefáveis” sabe do que precisamos. Diante de Deus, o que podemos fazer é se dar a conhecer, deixar que ele mesmo nos ajude neste caminho de autoconhecimento para que assim, se revele quem somos de verdade e reconheçamos nossa verdadeira condição de filhos. Nossa oração nesse sentido, passa a ser filial e nossa missão é a de manifestar ao mundo o “Pai das misericórdias” (2 Cor 1,10). 

Nossa oração ganha um outro sentido quando damos ouvidos ao que Paulo diz: “O Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis”. O que significa interceder? entre muitos significados, tomar partido. Quem intercede, discute, justifica, apresenta os motivos para a defesa daquele por quem intercede. Só se intercede porque quem se acredita. Se eu não acredito, se não dou valor aquela pessoa, não assumo essa causa, não tomo partido em favor dela. O Espírito Santo toma partido porque acredita em nós e quer nos fazer participantes na comunhão do Filho com o Pai. O Apóstolo em outra Carta diz que “alguém pagou um alto preço pelo nosso resgate” (1 Cor 6,20), reconhecendo nosso valor. Desse modo, quando oramos, sabemos que Deus age em nosso favor, porque quer nos santificar, “essa é a vontade de Deus, a vossa santificação” (1 Ts 4,3). A santidade só se alcança através da oração e isso é obra do Espírito Santo que ora em nós. 

São Paulo reconhece que o Espírito Santo é mestre da oração, por isso mesmo ele diz que devemos “orar incessantemente no Espírito”. Quando lemos a Parábola do Fariseu e do Publicano (Lc 18,9) aprendemos que nem toda oração é no Espírito. Por que a oração do Fariseu não agradou a Deus? porque não foi no Espírito e sim na carne, ao contrário do Publicano, que de coração reto dizia “Senhor, tende piedade de mim”. Jesus exortou duramente os seus dizendo que “nem todo aquele que me diz, Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus” (Mt 7,21). Paulo diz a uma de suas comunidades que só através do Espírito podemos dizer “Jesus é o Senhor”. 

Portanto, orar no Espírito depende de uma vida no Espírito e essa vida só se alcança buscando as coisas do alto em vez das coisas da terra (Cf. Cl 3,1). Quando buscamos as coisas do alto, vamos nos despojando do “homem velho e de suas ações, e se revestindo do homem novo que, através do conhecimento, vai se renovando à imagem do seu Criador” (Cf. Cl 3,9). Toda oração no Espírito nos conforma cada vez mais a Cristo e nos introduz em sua relação filial com o Pai fazendo com que cresça esse conhecimento e nossa vida se transforme em oração para ser uma expressão da vida no Espírito que procuramos constantemente. 

A grande descoberta de Paulo não foi apenas que o homem pode falar com Deus, mas que Deus fala no homem porque somos seu “templo”. O Espírito Santo faz com que a oração deixe de ser apenas uma obrigação religiosa e passe a ser uma uma relação filial porque só se aprende a orar, quando se aprende a viver como filho. Orar passa a ser uma ação do Espírito que nos transforma para que tenhamos os “mesmos sentimentos de Cristo” (Cf. Fl 2). Dessa forma, a vida do discípulo passa a ser uma oração permanente. 



sábado, 11 de julho de 2026

O encontro que se tornou oração

          Saulo era da tribo de Benjamim, fariseu (Cf. Fl 3,1ss). Logo, ele aprendeu a oração dos pais. Rezava como de costume, o Shemá: "Ouve, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração" (Dt 6,4-5). Esse era o Credo de Israel que devia ser proclamado no amanhecer e ao anoitecer. Essa oração era muitas vezes recitada entre as bênçãos, antes das preces. A vida do judeu seguia um ritmo marcado pela oração, toda vida deveria ser uma expressão do chamado que Adonai lhe fez: “vocês serão o meu povo,  e eu serei o vosso Deus”. Portanto, quando olhamos para Saulo, devemos reconhecer um judeu que redescobriu uma nova forma de orar, onde a experiência do mistério pascal de Cristo passou a ocupar um lugar decisivo em sua vida. 

Antes de seguir o caminho para Damasco, Saulo provavelmente recitou a oração da manhã, rogou sobre si as bênçãos do Criador que é Deus e formou o homem com sabedoria: bendito és tu Adonai, nosso Deus, Rei do universo, que liberta os amarrados e ergue os curvados”. Ele seguiu com a convicção de que fazia a vontade Deus. Como fariseu, interpretou o que ocorreu com Jesus, como uma ameaça a sua religião, por isso mesmo, se tornou um “perseguidor da Igreja” como ele mesmo declara, por causa da “observância da lei” que julgava ser cumpridor irrepreensível. 


No caminho, aconteceu o encontro que mudou completamente a sua vida. Saulo não esperava por isso, mas quis o Cristo ressuscitado aparecer a ele: “Saulo, Saulo, porque me persegues?” (Cf. At 9,1ss). Saulo responde com uma outra pergunta: “Quem és tu Senhor?”. Jesus não tardou em responder: “Eu sou aquele a quem tu persegues”. Na tradição de Israel alguns “encontros” revelam progressivamente a face de Deus, o Adonai. 


Por exemplo, nosso patriarca Jacó, nas suas idas e vindas, entre a saída e a volta para sua casa, “luta com Deus”. Depois desse encontro, Deus muda o seu nome, e ele passa a se chamar Israel. Moisés, enquanto pastoreava o rebanho, viu uma sarça em chamas, que não se consumia e do meio delas escuta o Senhor lhe chamando pelo nome. Moisés se apressa em responder: “aqui estou”. O “Deus de Abraão, Isaac e Jacó” chama Moisés para libertar o povo da escravidão. Esse Deus dialogava com Moisés como um amigo e falava com ele “face a face” (Cf. Ex 34). Assim como Jacó, Saulo depois da experiência com o Ressuscitado, passa a ser chamado Paulo, e começa a ler sua história a partir daquele que leva “a história a sua plenitude, reunindo o universo inteiro” (Cf. 1,10). Jesus, o novo Moisés, fez de Paulo uma testemunha do seu mistério de amor, “ministro de uma aliança nova, não aliança da letra, mas do Espírito” (Cf. 2 Cor 3,6).


O que fez com que Paulo tenha passado a considerar tudo “perda, diante do conhecimento de Cristo Jesus”? (Cf. Fl 3,8) O que fez com que ele suportasse prisões, fadigas, açoites, vigílias, cansaços, inúmeros perigos, violências de diversas formas por causa de Cristo? (Cf. 2 Cor 11,16-30) O encontro com o mais forte, isso transformou a vida dele de modo que ele bem podia orar como o profeta Jeremias: “Tu me seduziste, Javé, e eu me deixei seduzir. Foste mais forte do que eu e venceste” (Jr 20,7). A partir desse encontro toda a sua experiência passou a ser lida pelos olhos daquele que venceu  a morte. Sua oração tinha na pessoa de Cristo sua nova marca, sua identidade, como ele mesmo declara, “é Cristo que vive em mim” (Cf. Gl 2,20), porque ele estava convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderes, nem as forças das alturas ou das profundidades, nem qualquer outra criatura, nada nos poderá separar do amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo, nosso Senhor” (Cf. Rm 8,38-39).


Até aquele dia, no caminho de Damasco, Saulo conduzia sua vida de acordo com sua tradição espiritual, suas orações se dirigiam ao Deus de seus pais, esperando servi-lo mediante a observância da Lei. Depois do encontro com o “Senhor”, compreendeu que o mesmo Deus lhe falava através do “Filho do Deus vivo” (Cf. Mt 16,16), o Cristo ressuscitado. Sua oração não abandonou Israel; encontrou em Cristo o seu pleno cumprimento. 


Quando colocamos os olhos nessa cena da Conversão de São Paulo, vamos inevitavelmente perceber que Deus nos encontra no caminho da vida. Ele faz isso não para nos destruir, mas sim reconstruir. Quando damos ouvidos ao próprio conselho do Apóstolo, de “orar sem cessar” (Cf. 1 Ts 5,17), O Espírito Santo vai transformando nossa vida para que resplandeça aquilo que Deus quer. Dessa forma a violência vai dando lugar a paz, o ódio ao perdão. Aquilo que antes eu detestava, agora abraço como bem supremo. No encontro com Cristo, há sempre um antes e um depois, e é o Espírito Santo que nos foi dado, por Cristo Jesus, que vai derramando em nossos corações o amor de Deus (Cf. Rm 5,5) que tudo transforma. 


Podemos dizer que a oração é sempre um encontro com uma pessoa que é próprio Jesus, o Cristo, que morreu e ressuscitou, que vive e nos chama a caminhar com Ele. Nesse momento a oração deixa de ser objeto e passa a ser sujeito, não é mais um EU, mas passa a ser um TU, que inevitavelmente se transforma em um NÓS. Como diz São João Crisóstomo, Cristo não pergunta: "Por que persegues os meus discípulos?", mas "Por que me persegues?" salientado uma dimensão eclesial do encontro com Cristo que nos leva a crer que oração é comunhão, partilha. Cristo, se parte e reparte seu Espírito a todos que o buscam de coração reto, e é o mesmo Espírito que é dado a todos para que formemos um povo da luz.


Vamos aprender que Paulo não oferece um método de oração, ele não cria uma escola de oração. Sua vida é uma escola, seu testemunho, oração. Para o Apóstolo, oração é encontro, por isso, “Deus que nos ama primeiro”, toma a iniciativa de nos encontrar e o que Ele espera de nós, é deixar-se amar para sermos “transfigurados nessa mesma imagem, cada vez mais resplandecente pela ação do Senhor que é Espírito” (2 Cor 3,18).