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quarta-feira, 6 de maio de 2026

Vem Ruah com teu sopro!

Soprou sobre eles e disse-lhes: ‘Recebei o Espírito Santo’” (Jo 20,22)

Tem uma canção que diz assim: “o mar é Deus e o barco sou eu, e o vento forte, que me leva pra frente, é o amor de Deus”. Esse amor é o Espírito Santo! Ele é vento, é Ruah!

O mar assusta e encanta, atraí e afasta. Ele tem seus mistérios, esconde suas belezas, demonstra força através da sua profundidade. Podemos interpretar o mar como Deus, mas também como o mundo. 

O mundo causa medo. Somos um pequeno barco e existem tantos ventos que sopram nos agitando de um lado para outro. Nem sempre é a Ruah, o sopro do Espírito. Quando outros ventos sopram, podemos ser empurrados para longe do porto, do lugar seguro e corremos o risco de ficar à deriva. 

Todos nós buscamos certezas, algo para se apoiar. Quanto o vento do relativismo sopra, os portos seguros deixam de existir e tudo depende do momento, do sentimento e das opiniões. Não existe porto seguro, porque o chão das verdades não existe,  o que enfraquece a fé. Quem se deixa levar por esse vento não enxerga a vela içada com os dizeres de Jesus, “eu sou a verdade” (Cf. Jo 14,6). Em Cristo, descobrimos sua Palavra da verdade, o Evangelho que salva (Cf. Ef. 1,12-13). 

No vento do imediatismo queremos chegar logo, não prestamos atenção aos processos, e ficamos presos às facilidades. Navegamos sem nos atentar aos mapas, as coordenadas geográficas deixadas pelos antepassados (Cf. Hb 11) porque o que importa é o presente. Não damos valor aos processos, aos fios que ligam o presente, passado e futuro. Os ventos do imediatismo levam ao utilitarismo. Só tem valor o que for útil. Se deixarmos esse vento nos levar, esquecemos que “debaixo do céu há momento para tudo, e tempo certo para cada coisa” (Cf. Ecle 3,1). Não são poucas as vezes, que o que mais importa, é saber esperar “porque felizes são todos que esperam Nele” (Cf. Is 30,18). 

Os navegantes sempre contam histórias do “canto das sereias”, que encantam os mais iludidos e os arrasta para o fundo dos oceanos. Hoje, o “canto das Sereias” ecoa pela força dos ventos das redes sociais. Muitas horas do dia têm sido dedicadas às redes e elas estão literalmente nos envolvendo e arrastando para o fundo dos oceanos das desilusões. Corremos em busca de aprovação, de estabelecer o mínimo de relação com “amigos virtuais”. Os ruídos são imensos criando uma enorme confusão onde o silêncio aparente dos aparelhos conectados dão lugar aos gritos ensurdecedores em busca de aceitação. Esses ruídos nos impedem de ouvir a Deus. Não foram poucas as vezes que quiseram “glorificar” Jesus, o reconhecendo como Messias e proclamando-o rei. E o que Ele fazia? Se recolhia em lugares desertos para orar (Lc 5,16-17). Devemos nos desconectar para ouvir a Ruah, o ruído do Espírito. 

Existem diversos ventos contrários que nos levam para longe de Deus, mas, apenas um vento, a da Ruah, o vento do Espírito nos conduz na direção certa, nos faz atravessar tempestades e chegar no porto, de mar tão profundo. Como pequeno barco na imensidão do mar, devemos deixar que o vento do Espírito nos leve para onde Deus quer. E como sabemos que estamos sendo agitados pelos ventos do Espírito? Pela estabilidade das velas. Apesar dos ventos agitarem de um lado para o outro o barco, forçando a mudanças de direção, ele sempre volta para a sua posição vertical. Os ventos do Espírito sempre nos levam para nossa posição vertical, ou seja, com os olhos para o alto. Esses ventos, agitam, mas não destroem nem viram  o barco. 

A Ruah não vem para nos fazer naufragar, mas sim nos levar por mares revoltosos a calmaria. Esses ventos sempre nos transmitem paz, alegria e principalmente, consolação: “Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das miseri­córdias, Deus de toda a consolação, que nos conforta em todas as nossas tribulações, para que, pela consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus, possamos consolar os que estão em qualquer angústia! Com efeito, à medida que em nós crescem os sofrimentos de Cristo, crescem também por Cristo as nossas consolações” (2 Cor 1,3-6).

Ore e clame ao Ruah para que o sopro do Espírito traga paz aos nossos corações! 


segunda-feira, 4 de maio de 2026

O Espírito Santo foi derramado em nossos corações

 “E a esperança não decepciona porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). 

Desde o princípio, Deus dialoga com seu povo e faz alianças. Essas alianças se dão através de promessas que se realizam em favor do povo. Com Noé, Deus salva seu povo fazendo com que os seus entrassem na arca (Cf. Gn 9). Logo após o dilúvio, o arco-íris aparece no céu como sinal da aliança. Um dos significado do arco-íris é a esperança, pois logo depois da tempestade vem a calmaria, e Deus nos lembra de sua fidelidade. “A aliança é fidelidade, é ser fiel. Fomos escolhidos, o Senhor fez-nos uma promessa, agora Ele pede-nos uma aliança. Uma aliança de fidelidade” (Papa Francisco).

Muitas outras alianças se estabeleceram, como a que Deus fez com Abraão, Moisés, Davi e os profetas. Não foram poucas às vezes em que essas alianças foram rompidas, mas Deus não abandonou o povo à própria sorte, e continuou a chamá-los a seguir o caminho com uma fidelidade renovada, sempre recordando: “Farei com eles uma aliança eterna e nunca deixarei de fazer-lhes o bem. Colocarei no coração deles o meu temor, para que não se afastem de mim. O meu prazer será fazer que eles sejam felizes” (Cf. Jr 32,40-41).

Mesmo no exílio quando o povo precisou reler com muita dor sua história, eles aprenderam que a única coisa que podiam fazer é esperar com confiança, porque quem crer em Deus não se ilude, “quero trazer à memória o que me pode dar esperança: as misericórdias do Senhor não se esgotam” (Cf. Lm 3,21-22).

Essa esperança já é ação de Deus no silêncio da história, pois quando parece que sua voz emudeceu, sem menos esperar, seu grito ecoa no meio das vicissitudes humanas chamando a todos para um tempo novo, “eis que estou fazendo uma coisa nova: ela está brotando agora, e vocês não percebem?” (Cf. Is 43,19). 

Na plenitude dos tempos (Cf. Gl 4,4) essa esperança ganha rosto. É o filho da Virgem de Sião, o “Emanuel” (Cf. Is 9), que anuncia o Reino de Deus e chama todos à conversão. Na ceia com seus discípulos, ele faz uma promessa a eles: “Eu não vos deixarei órfãos” (Jo 14,18). É o Espírito, o amor do Pai e do Filho que vem para gravar em cada um de nós, seus discípulos, “os mesmos sentimentos de Cristo” (Cf. Fl 2,5), Ele que é “nossa esperança” (Cf. 1 Tm 1,1).

É o Espírito Santo que derrama em nossos corações o amor de Deus. É esse amor que torna nossa esperança viva, na certeza “de céus novos e nova terra, onde habitará a justiça” (Cf. 2 Pe 3,13). É Ele quem renova as forças dos cansados, porque “até os jovens se fadigam e cansam, os moços também tropeçam e caem, mas os que esperam no Senhor renovam suas forças, criam asas como águias, correm e não se fadigam, podem andar e não se cansam” (Cf. Is 40,27-31).

“Deus é amor” (1 Jo 4,8). E o que o Espírito Santo faz? Derrama amor! Jesus nos deixou o seu novo mandamento, “amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13,34). E o que o Espírito Santo faz? Derrama amor de Deus em nossos corações! Por isso que nossa esperança não decepciona, porque ela não é uma ideia, um conceito ou sentimento, ela é uma pessoa, é o próprio Deus, que age em nós e através de nós para que o amor se derrame até transbordar renovando a face da terra (Cf. Sl 103).

Clamemos ao Espírito Santo, “Vinde Espírito Santo e renova a face da terra”.

domingo, 5 de abril de 2026

Maria Madalena, a primeira discípula

Madalena foi ao lugar onde haviam colocado o corpo de Jesus ainda de madrugada. Ela foi testemunha da dolorosa condenação do Mestre e desde aquele momento tinha muitas perguntas ainda sem respostas. Ela tinha ouvido o Mestre dizer que tudo aquilo iria acontecer, seria necessário, mas, assim como os outros discípulos, foi tomada por uma profunda dor que a ensurdeceu. Os gritos de “crucifica-o”, deviam ecoar em seus pensamentos. Até uns dias atrás, todos aclamavam Jesus como o Cristo e o som do canto, “Hosana ao Filho de Davi” se repetia fazendo ela sentir uma grande alegria. Madalena devia se perguntar como, em tão pouco tempo, um grito exultante de “Hosana” deu lugar ao grito enfurecido de “crucifica-o”. 

Mesmo com toda a dor que transpassou sua alma, Madalena foi ao sepulcro, ainda de madrugada. Ela venceu o medo. Pedro havia negado Jesus. Quase todos os discípulos tinham abandonado o Mestre na sua última hora. Todos estavam escondidos com medo do que os judeus podiam fazer com os seguidores do crucificado. Mesmo com medo, Madalena vai ao sepulcro. O que ela esperava encontrar? A dor tinha calado por um momento sua esperança, e a escuridão daquele primeiro dia da semana era um sinal de como se encontrava sua alma. O dia deu lugar a uma longa noite depois que o corpo do Mestre foi descido da cruz. A luz se apagou no madeiro. O que ela esperava encontrar? 

Acredito que Maria Madalena esperava encontrar um alento para a dor que sentia. Em sua alma já pesava a saudade. A saudade é a presença escondida na ausência sentida. Só sente saudade quem amou. É como uma refeição deliciosa. Provoca a memória afetiva: recorda tempos, momentos, risos e abraços. Sabores com gosto de eternidade. No amargor da morte, lembranças temperam a alma, suavizando mesmo que momentaneamente a dor da partida.

Madalena quando vai ao sepulcro, inconscientemente diz a si mesma, “ele não morreu, ele vive”. As lembranças tornam vivo o que já passou, fazem com que histórias sejam recontadas na memória. Nessa hora, a morte é a grande mestra. Ela traz lições aprendidas entre lágrimas que com o passar do tempo podem dar lugar a sorrisos. Isso porque significados vão sendo descobertos ao longo dessa penosa experiência. Geralmente, diante do mistério da morte nos perguntamos, “por que isso aconteceu?”. É se fazendo essa pergunta que Madalena vê chegar um desconhecido que imagina ser o jardineiro. A morte deixou seus sentidos empedernidos e a discípula não reconheceu o Mestre. 

Jesus chama Maria pelo nome e logo, os sentidos dessa discípula se abrem e ela reconhece o Mestre. “Raboni”, exclama Madalena que quer dizer “Mestre”. Sua dor deu lugar ao temor e irresistivelmente se deixou mais uma vez amar. Os seus olhos puderam contemplar uma beleza já testemunhada por Pedro, Tiago e João no Monte Tabor. Seu corpo tremeu cheio de uma alegria indescritível e ela bem que poderia repetir a mesma coisa que Pedro disse no monte: “Mestre, que bom estar aqui”. 

 A discípula se torna uma testemunha do amor que venceu o ódio, do perdão que vence toda a violência, da morte vencida pela vida. Ela provou um amor sem igual, uma força desigual que a transformou em mestra. 

Ela é mestra dos saberes que transformam. Aqueles que nascem dos encontros que acontecem no descompasso do silêncio onde nos damos a conhecer. Nesse encontro sentamos à mesa e ouvimos o Mestre mais uma vez repetir: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Maria Madalena quem sabe inspirou Paulo a dizer a seus discípulos que o que mais importa é o conhecimento de Cristo Jesus (Cf. Fl 3,8-10). 

Com Maria Madalena vamos testemunhando a espera de um novo dia quando a vida escondida se torna conhecida. Onde os olhos dos cegos se abrem, assim como o ouvido dos surdos e a boca dos mudos (Is 35,5-6; Mc 7,37). Com mãos fortalecidas e joelhos revigorados (Cf. Hb 12,12) soltamos de cima dos telhados o grito de vitória porque aquele que morreu, vive, Ele é a nossa Páscoa!



 






 

sexta-feira, 6 de março de 2026

Aceite

 Aceite que nem sempre vou acertar. 

Aceite meu desejo de estar perto de quem me faz acreditar. 

Aceite minhas lembranças das brincadeiras de criança, do sol, do mar e das travessias, da mesa farta e da alegrias das boas companhias. 

 Aceite meu jeito de acreditar. 

Sim, eu creio que um dia, a paz vai correr como um rio, o perdão se derramar como chuva e a justiça crescer como semente a brotar. 

Aceite minha indignação diante da miséria e da fome, da dor e da morte, que querem por fim a esperança que insiste em perdurar. 

 Aceite minha insistência em trilhar pelas veredas de quem deixou rastros luminosos, e me negar a querer ficar na escuridão. 

Aceite minha fé no mistério do absoluto, a quem chamo de amor, a quem ouço me chamar pelo nome. 

Aceite meu amor por quem transformou vida em morte. 

Aceite que eu queira o abraço da cruz e a companhia do Ressuscitado. 

Ele me diz: "vem e segue-me". E eu respondo: "eis-me aqui".

quarta-feira, 4 de março de 2026

Na trilha da santidade

 “Felizes os que temem o Senhor, os que andam em seus caminhos. Poderás viver, então, do trabalho de tuas mãos, serás feliz e terás bem-estar.

Tua mulher será em teu lar como uma vinha fecunda. Teus filhos em torno à tua mesa serão como brotos de oliveira.

Assim será abençoado aquele que teme o Senhor.

De Sião te abençoe o Senhor para que em todos os dias de tua vida gozes da prosperidade de Jerusalém, e para que possas ver os filhos dos teus filhos. Reine a paz em Israel!” Sl 127 (128).

Andar nos caminhos do senhor é permanecer na trilha. Todo monte possui uma trilha, é um caminho que foi feito e refeito pelos pés de quem muito passou por ali. Jesus abriu essa trilha para nós porque Ele é o “caminho”, e foi seguindo os seus passos que muitos conseguiram chegar até o cume do monte. Quantos foram aqueles que pondo os olhos no Mestre, seguindo seus passos, acabaram abrindo novas trilhas. São os santos e santas, testemunhas de que é possível subir, viver a santidade neste mundo. Podemos segui-los porque através de seus exemplos vamos até Jesus.

A santidade faz parte da vida de quem quer subir. Na verdade, nossa vocação é a santidade. Deus nos chamou para a santidade. (Cf. 1 Ts 4,7). O Papa Francisco disse certa vez, que a santidade é um caminho que só pode ser percorrido sustentado por quatro elementos imprescindíveis: coragem, esperança, graça e conversão. 

Se queremos chegar, a coragem deve nos acompanhar. É uma força interior, um exercício dos sentidos espirituais que desenvolvemos para não desistir. Coragem para começar. E só adquire essa coragem quem se converte. Conversão é encontro, desses encontros que mudam a vida de uma pessoa. O encontro com Jesus faz isso, muda completamente a nossa vida, dá outra direção. Uma nova amizade nasce desse encontro, Jesus passa a ser o nosso grande Amigo. E Ele fica repetindo o tempo todo ao longo do caminho, “no mundo tereis aflições, coragem, eu venci o mundo!”. 

É preciso dar um passo de cada vez sempre com os olhos para o alto, com essa melodia nos lábios, “buscai as coisas do alto” (Cl 3,1). Ao longo do percurso vamos precisar de coragem para não desistir. São muitos os obstáculos que surgem como por exemplo, tribulações e perseguições, preocupações e ilusões (Cf. Mt 13,18) e somente os “fortes” vão conseguir vencer esses obstáculos. Essa força vem da esperança “que não decepciona” (Cf. Rm 5,5) e nos faz crer em um “novo céu e uma nova terra” (Cf. Ap 21).

Não podemos deixar de dizer que a santidade não se alcança apenas pelo esforço, é dom, é graça. Quanto mais nos tornamos amigos de Jesus, mais Ele nos concede sua graça. Paulo deseja isso aos seus amigos, “que a graça do Senhor Jesus esteja com vocês” (2 Cor 13,13). A graça nos abraça quando nos aproximamos cada vez mais de Jesus, o seguimos pelo caminho e ouvimos sua voz. Foi isso que fizeram os santos, eles se tornaram amigos de Jesus e isso transformou suas vidas.

Um exemplo para ilustrar o que estou dizendo é o do jovem Francisco. Ele era um jovem com muitas ambições, entre elas a de ser um cavaleiro. Isso era um ideal do seu tempo. Com seus amigos, ele se dedicava a festas, sendo chamado muitas vezes de “Rei dos Banquetes”. Entre fracassos e desilusões, outro ideal passou a ocupar sua vida, graças ao encontro com Jesus. Abraçou o ideal da pobreza como vocação e se transformou no grande São Francisco de Assis.

A trilha ajuda a chegar sem maiores dificuldades ao nosso destino. Não podemos esquecer da exortação do Apóstolo: “qualquer que seja o ponto a que chegamos, conservemos o rumo” (Fl 3,16).

domingo, 1 de março de 2026

Este é o meu Filho muito amado, escutai-o!

 “Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João e sobe o monte”. 

     Ele chama algumas testemunhas para subir. Ele não quis ir sozinho. Por que não? Ele quis de uma vez por todas mostrar quem era. No Batismo, o Pai declara: “tu és o meu Filho”. Já nessa cena, o Pai proclama: “este é o meu Filho amado”. Diante dessas testemunhas escolhidas ele se dá a conhecer. No Batismo o diálogo é entre o Pai e o Filho, já nessa revelação é entre o Pai e os filhos. Portanto, existe duas identidades que são conhecidas. Uma é a do Filho, que mostra sua glória, luz que se torna acessível. A outra identidade é a nossa, a de filhos, chamados a comunhão com o Pai que nos transforma pelo poder do Filho e nos faz participar antecipadamente da luz divina, pela ação do Espírito Santo até um dia vivermos essa glória definitiva no Reino de Deus.

     A luz do Cristo se manifesta diante de suas testemunhas, “em tua luz contemplamos a luz” (Sl 35,10). Ele é a “luz do mundo” (Jo 8,12) e como participantes dessa luz, somos chamados a dar testemunho dessa luz, “que brilhe vossa luz diante dos homens para que vejam vossas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos Céus” (Cf. Mt 5,16). 

      No caminho de Damasco, Saulo é envolvido por uma luz e o Cristo ressuscitado aparece a ele. Do meio dessa luz, ele ouve a voz de Cristo. Esse encontro o transforma. Depois dessa experiência, Saulo passa a ser Paulo e ele testemunha em uma de suas cartas que graças a esse encontro com Cristo “somos transfigurados nessa mesma imagem, cada vez mais resplandecente pela ação do Senhor, que é Espírito” (2 Cor 3,18). Como transfigurados, devemos andar como em pleno dia (Cf. Rm 13,13) e não de noite, na luz e não na escuridão. Nós que somos do dia devemos ser “sóbrios, revestidos com a couraça da fé e do amor e com o capacete da esperança da salvação” (Cf. 1 Ts 5,18).

      Na dinâmica do Tabor somos chamados, assim como Pedro, Tiago e João a contemplação da luz. A mesma experiência que fez Paulo no caminho de Damasco e que tantos santos fizeram em diversos momentos da história. Como nos diz o Cardeal Raniero, somos transformados naquilo que contemplamos. Irresistivelmente, proclamamos o que contemplamos porque não podemos deixar de testemunhar o que “ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos e nossas mãos apalparam” (Cf. 1 Jo 1,1). 

      Pedro não queria ir, mas o Divino Mestre disse que era preciso partir. Séculos depois Santo Agostinho refletindo sobre essa cena do Evangelho afirma que “Pedro ainda não tinha compreendido isso ao desejar viver com Cristo no monte. Ele reservou-te isto, Pedro, para depois da morte. Mas agora, ele mesmo diz: Desce para sofrer na terra, para servir na terra, para ser desprezado, crucificado na terra. Por que a vida também desceu para ser morta; o Pão desceu para ter fome; o Caminho desceu, para cansar-se da caminhada; a Fonte desceu, para ter sede, e tu recusas sofrer? Não busques tuas conveniências. Sê caridoso, prega a verdade e assim chegarás à eternidade, onde encontrarás segurança” (Sermão 78,6).

     Contemplação e ação, fé é vida, oração e trabalho devem andar juntas. Por isso, quem sobe, desce, quem vai, deve voltar em um movimento contínuo que nos leve para o alto e para baixo, na direção de Deus e do próximo.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Venham a mim e bebam!

 “No último dia, que é o principal dia de festa, estava Jesus de pé e clamava: “Se alguém tiver sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura: ‘Do seu interior manarão rios de água viva’” (Jo 7,37-38). 

Essa festa da qual fala o autor sagrado é Sucot, a Festa dos Tabernáculos, também conhecida como festa das Cabanas ou das Colheitas. Essa festa junto com o Pessach e Shavuot, (Lv 23,33-43, Nm 29,12-38 e Dt 16,13-15) eram as principais celebrações que reuniam milhares de peregrinos em Jerusalém. Elas contavam através da sua liturgia a história de Israel. 

Inicialmente essa festa tinha um caráter agrícola e depois passou a ser um memorial pois contava um período do êxodo em que o povo vivia em tendas. No período do Segundo Templo, a festa adquiriu uma dimensão escatológica como podemos observar em Zacarias onde o profeta fala de “uma romaria de todos os povos” para Jerusalém durante a Festa dos Tabernáculos para “adorar o REI” (Cf. Zc 14,16).

Entre as muitas tradições da Festa dos Tabernáculos podemos falar do derramamento da água. O sumo sacerdote retirava água da piscina de Siloé e a derramava sobre o altar. Esse gesto era realizado durante todos os dias da festa. No último dia, Jesus grita: “Se alguém tiver sede, venha a mim e beba”. Já bem antes, o povo ouvia os profetas falarem dessa água que nos tempos messiânicos faria até mesmo o deserto se transformar em um jardim  cheio de flores e frutas. Por exemplo, o profeta Isaías diz que todos poderiam “beber nas fontes da salvação” (Cf; Is 12,3). Já o Salmista canta a história do Êxodo, quando o próprio Deus “fendeu as rochas do deserto, e deu-lhe de beber com grande manancial” (Sl 78,13). Ainda encontramos o profeta Ezequiel descrevendo uma água viva que jorra do lado do templo (Ez 47) e faz a vida crescer por onde passa. É do lado aberto de Jesus na cruz que jorra essa água da qual todos nós devemos beber e que é fonte da salvação. Olhamos para cruz e tomamos emprestado mais uma vez a oração que expressa um profundo desejo do Salmista, “minha alma tem sede de Deus” (Sl 42,3). Jesus é a água que sacia nossa sede e Ele mesmo diz, “venham a mim”.  

Se vamos até o Cristo do nosso interior “ manarão rios de água viva”. Tanto o profeta Ezequiel como Joel, descrevem essa imagem da água como fonte da vida. Isaías diz que “jorarrão águas no deserto e rios na terra seca (...) o  chão seco se encherá de fontes” (Is 35,6). Jesus diz que o Espírito Santo é essa água viva. Então é ele que jorra como um rio que cruza o deserto do nosso coração para fazer crescer um jardim onde frutos de conversão possam ser colhidos. A terra do nosso coração costuma ser árida, inóspita e mal cuidada. Se nos abrimos ao Espírito Santo, flores e frutos poderão nascer e a seu tempo a vida vai desabrochar. 

Quando flores e frutos começam a aparecer eles embelezam a paisagem. Essa água que jorra como um rio quer mudar a paisagem do lugar em que vivemos para que “a justiça e a paz se abracem” (Cf. Sl 85),  “nenhuma nação se arme mais contra a outra” (Cf. Is 2), o pão seja partido e repartido ( Cf. Mt 14,13-21; Jo 6) e o “amor, alegria, paciência, bondade, fé e temperança” (Cf. Gl, 5,22) seja nosso alimento diário.