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domingo, 18 de janeiro de 2026

Eis o Cordeiro de Deus

 Leia o Evangelho de hoje: João 1, 29-34.


Naquele tempo, João viu Jesus aproximar-se dele e disse: 'Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Dele é que eu disse: Depois de mim vem um homem que passou à minha frente, porque existia antes de mim.Também eu não o conhecia, mas se eu vim batizar com água, foi para que ele fosse manifestado a Israel'. E João deu testemunho, dizendo: 'Eu vi o Espírito descer, como uma pomba do céu, e permanecer sobre ele.Também eu não o conhecia, mas aquele que me enviou a batizar com água me disse: `Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer, este é quem batiza com o Espírito Santo'. Eu vi e dou testemunho: Este é o Filho de Deus!'


- Palavra da Salvação

- Glória a Vós, Senhor


     João viu Jesus se aproximar e se apressou em dar seu testemunho: “Eis o CORDEIRO DE DEUS". O cordeiro possui um papel central na teologia judaica, principalmente nos sacrifícios rituais realizados no templo e na celebração da Páscoa.

     A Páscoa, ou Pessach, é a celebração que recorda a libertação do povo judeu da escravidão no Egito. Antes de sair do Egito, cada família deveria sacrificar um cordeiro sem defeito e marcar suas casas com o sangue do animal. Este ato serviria como um sinal para que o anjo passasse adiante e poupasse as famílias judaicas durante a última praga que caiu sobre o Egito. Além disso, no serviço ritual do templo, um cordeiro era imolado pela manhã e outro a tarde associado ao sacrifício pela expiação e purificação dos pecados do povo. 

    Portanto, o cordeiro tornou-se símbolo de salvação operada por Deus em favor do seu povo e da necessidade de expiação, sacrifício e purificação dos pecados. 

     Quando João diz que Jesus é o “Cordeiro de Deus” ele atesta que Nele, o Cristo, os nossos pecados são perdoados e por meio do seu sacrifício, nossa salvação se dá de uma vez por todas. O autor da Carta aos Hebreus, reflete sobre a força desse sacrifício, que sela para todo sempre uma nova aliança, pelo sangue do “Cordeiro de Deus”. 

       O testemunho de João é um convite para irmos ao encontro do “Cordeiro de Deus”. O nosso sacrifício consiste em ir até ele, segui-lo pelo caminho, não se desviar, permanecer junto dele. E como fazemos isso? principalmente através da oração. 

       Existem três lugares onde podemos facilmente achá-lo. Primeiro, dentro de si mesmo. Para esse primeiro encontro, é preciso percorrer o caminho que vai até o coração. Ouça o que o próprio Jesus diz: “Quando orardes, entra no teu quarto, fecha a porta…” Isso quer dizer, fique a sós com Ele. Esse é um diálogo que vai se dar no templo interior, lugar da necessária solidão. 

       O segundo lugar é a Igreja, lugar de encontros, onde chego a Deus por meio do sacrifício de outros que se oferecem através do seu serviço a liturgia, principalmente os sacerdotes, que na pessoa de Cristo (in persona Christi), imolam o sacrifício espiritual para nossa salvação. Esse é o lugar de santos e pecadores, da comunidade reunida em torno da mesma fé, que é sustentada pela pela ação do Espírito Santo que transforma esse edifício feito por mãos humanas em um edifício espiritual. 

      E por fim, por meio do serviço aos pobres. É o próprio Jesus que conta uma parábola (Mt 25,31ss) para ilustrar que devemos reconhecer o próprio Cristo na pessoa do pobre. O Papa Leão XIV, insiste em olhar para o mistério do próprio Salvador que “se fez pobre, nasceu segundo a carne como nós e reconhecemo-lo na pequenez de uma criança recostada numa manjedoura e na extrema humilhação da cruz, onde partilhou a nossa radical pobreza, que é a morte. Por isso, compreende-se bem por que se pode falar, também teologicamente, sobre uma opção preferencial de Deus pelos pobres”. 

domingo, 23 de novembro de 2025

Cristo é Rei!

     Hoje é a Festa de Cristo Rei. Cristo é Rei! Quem é rei, tem um reino. Que reino é esse? "O meu reino não é deste mundo, disse Jesus a Pilatos. Se não é deste mundo, de qual mundo é? Antes de responder a essa pergunta é importante lembrar que essa categoria de REI acompanhou a trajetória do povo de Israel. Davi, era a imagem do rei que o povo esperava que viesse estabelecer o "governo de Deus" na terra. Inúmeros Salmos chamados de "régios" foram usados para a entronização de reis e com a fim da monarquia passaram  ser rezados na expectativa do rei messiânico que iria reestabelecer o reino de Deus (Salmos 2, 20; 21; 45; 72; 110 e 132). Inclusive, esse anseio é demonstrado pelos discípulos quando interrogam o Ressuscitado: "É agora que irás restaurar o reino de Israel?" (Cf. At 1,6). 

    Jesus ao longo de sua vida pública contou várias parábolas sobre o Reino de Deus. No Evangelho de Mateus encontramos sete parábolas que ilustram o que é o Reino e quais expectativas devemos alimentar em nossa vidas. Por exemplo, Ele chama a atenção para o verdadeiro tesouro que na verdade, é Ele mesmo, que nos "enriquece com sua pobreza" (Cf. 2 Cor, 8,9). Assim, ricos de sua graça, devemos ficar debaixo da árvore que cresce mais do que todas as outras, e chamar outros para ficar debaixo de sua sombra. 

    Ainda sobre o Reino é importante lembrar que em outra parábola o Rei vai separar uns a direita e outros a esquerda, e essa separação se dará de acordo com a forma que tratamos os com fome, sede, nus, encarcerados, peregrinos e enfermos (Cf. Mt 25,31). Na mesma direção, quando os Apóstolos discutiam relações de poder (Cf. Mt 20,20) Jesus encerra a discussão dizendo que as relações de poder entre nós, cristãos, deve se basear no serviço prestado aos outros. 

    São Paulo diz categoricamente em que consiste o Reino:  “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17); “Porque o reino de Deus consiste não em palavra, mas em poder” (1 Cor 4.20). Esse poder da qual fala Paulo é aquele que vem da cruz (Cf. 1 Cor 1-2) perfeita entrega em favor da salvação de toda a humanidade. 

     Voltando a pergunta inicial podemos dizer que o Reino na qual Jesus é Rei é espiritual e não material. Não está relacionada às categorias políticas e sociais que regem esse mundo mas sim ao processo de metanoia, onde vamos alcançando um novo coração (Cf. Mt 11, 28) capaz de amar. Assim, nossas relações vão se fundamentar em outra lógica onde o egoísmo, a ganância e a violência dão lugar a partilha, caridade e paz. 

       Jesus é Rei, e seu reino não terá fim. Ele, um dia, vai estabelecer seu reino glorioso onde não haverá mais choro nem lágrimas (Cf. Ap 22) e a paz e alegria serão eternas. Até lá, deixemos nosso coração ser o trono e o Rei dos reis, reinar soberano em nossos corações. 


quarta-feira, 22 de outubro de 2025

50 anos da RCC - um pouco de história

 

No período em que a Renovação Carismática chega a Fortaleza, a cidade está vivendo sob o “ciclo dos coronéis”. A ditadura militar conhece o seu apogeu através do ilusório milagre econômico brasileiro. Os governadores estaduais são indicados pelo Presidente da República. Através de atos institucionais decretados pelo poder executivo, muitas pessoas foram presas, inclusive aqui em Fortaleza: jornalistas, médicos operários, professores, estudantes, religiosos, oposicionistas permaneciam no 23BC até segunda ordem.
Diante desse cenário, a Renovação cresce “por fora”, com uma preocupação estritamente eclesial, pois o movimento carecia de legitimação por parte dos poderes eclesiásticos, que olhavam com certo desdém para as atividades realizadas nos grupos de oração. Essa atitude se reproduzi também em Fortaleza. 
Na década de 70 chega da África ao Brasil, um missionário chamado Pe. Philippe Prevost[1], que começou a realizar experiências de oração na cidade, com grande atuação no movimento dos cursilhos, preparando o terreno para a chegada da RCC em Fortaleza, tanto que muitos dos que fizeram a primeira experiência do ‘batismo no Espírito Santo’ eram cursilhistas. Essa relação entre esses dois movimentos se evidenciou em vários lugares onde a Renovação se desenvolveu.
A Renovação chega a Fortaleza em 1975. Em um final de semana estavam reunidos alguns religiosos e religiosas e pessoas que participavam dos cursilhos de Cristandade, de 23 a 25 de Junho, onde o Pe. Eduardo Dougherty pregou o primeiro Seminário de Vida no Espírito Santo. Foram três noites de palestras no Cenáculo. Estavam entre eles Horácio Dídimo, Eduardo Bezerra Neto, Irmã Ribeiro e Vânia Torres.
Em Julho de 1975, Horácio Dídimo e sua esposa, participam de uma noite de oração carismática na casa de retiro São Francisco, em Salvador, Bahia, com a presença da Irmã Sara e Frei José, que os entregam posteriormente, algumas instruções para a realização dos Seminários de Vida no Espírito Santo. Ao chegar a Fortaleza, eles entregam o material ao Pe. Philippe.
Em Agosto de 1975, tem início o primeiro Seminário de Vida coordenado pelo Pe. Philippe, no Colégio Santa Cecília. Era um seminário de sete semanas, que reduzia-se ao Querigma, momentos de silêncio interior e partilha dos dons, mesmo que o seu uso não fosse tão difundido.
O primeiro tema abordado, segundo a organização do próprio Pe. Philippe e registrados nos seus cadernos de anotação pessoal, era o amor de Deus, continuando com o tema da salvação realizada por Cristo Jesus, a vida nova que o Senhor quer nos comunicar, uma oração de cura interior, a imposição das mãos pedindo a efusão do Espírito Santo, o crescimento que se espera de cada pessoa e a transformação em Cristo que acontece a cada dia através de uma renovação permanente. Os que participavam do Seminário eram orientados a seguir durante a semana um manual para os participantes dos Seminários de Vida no Espírito Santo publicado pelas edições Loyola.
Ainda em outubro de 1975, vai se realizar vários outros Seminários, coordenados pelo Pe. Philippe, Irmã Ribeiro e Irmão Henrique.
O Pe. Philippe ainda organizava experiências de oração no Espírito Santo em três etapas: a 1o experiência consistia na “Vida no Espírito Santo”, a experiência seguinte “A figura de Cristo contemplada no Espírito Santo” e por último a “Espiritualidade de evangelização”. Após essas experiências de oração no Espírito Santo ele aconselhava que as pessoas procurassem freqüentar algum grupo de oração na cidade. Em 1979, já era 40 o número de grupos de oração que se encontravam semanalmente.
No Informativo da RCC, Emmir Nogueira[2] conta que quase ao mesmo tempo em que o Pe. Eduardo pregava, tinha chegado Zilah Maciel ao Pirambu, hoje Cristo Redentor, para ficar alguns meses.  Pe. Caetano, quando chega da Bélgica, encontra-se com Zilah Maciel, leiga paulistana, que já formava um grupo de carismáticos nessa região.
Pe. Batista[3] conta, que já depois de ter conhecido a RCC, foi convidado a participar de um retiro para sacerdotes ligados a Renovação em Salvador, mas como não podia, perguntou ao Pe. Caetano, em um encontro do clero, “você conhece a RCC? Respondeu o Pe. Caetano: não ouvi falar. Pois vai a um retiro no meu lugar, que lá você vai aprender. Pe. Caetano aceitou e quando voltou começou a desenvolver a grande obra do Espírito no Pirambu, que continua até hoje”. 
No norte de Fortaleza, Pe. Batista Poinelli, foi um grande incentivador da RCC. Ele, junto   com Pe. Philippe pregou vários Seminários de Vida em Fortaleza.
Conversando com Pe. Batista, ele me disse que em 1975, quando decorava a Igreja para o natal, levou uma queda da escada e fraturou o colo do fêmur, tendo que ser hospitalizado. No ano seguinte, ainda se recuperando e andando de muletas, foi convidado para participar de um encontro no Cenáculo. Ele aceitou o convite, “era um jovem Pe. Americano, chamado Eduardo, que começou a falar da Renovação Carismática, do ‘Batismo no Espírito Santo’ voltei para casa na primeira noite, sem entender nada. Toda noite iam me buscar em casa para participar desses encontros. Após essas três noites de encontro, começamos a Renovação Carismática na Igreja de Nazaré”.
No sul, chegaram alguns Irmãos Canadenses por intermédio do Pe. Philippe. Eram eles: Ir. Mauricio, Michel e Ivo. A essa altura o Ir. Mauricio Labonté, que era missionário canadense começou a evangelizar os jovens a partir da espiritualidade da RCC, fundando o Grupo de Oração João XXIII, na capela das Irmãs Missionárias, na Aldeota, anos depois ficando sob a coordenação de Lucia Nogueira de Medeiros.
A década de 70 foi um período difícil para a Renovação Carismática. Essa nova expressão eclesial começava a se desenvolver. Conversando com Iolanda Fialho[4], ela me disse que nesse período não existia ainda literatura a respeito da RCC, “se ouvia as palestras, líamos a Bíblia e usávamos o livro de cânticos louvemos ao Senhor”. Emmir Nogueira[5] conta que o acesso a Bíblia não era tão fácil “naquela época para conseguir uma bíblia tinha que vir do Rio de Janeiro. Era preciosíssima uma Bíblia, pois era difícil consegui-la. Nossa turma ainda hoje guarda a primeira Bíblia, pois ela teve para nós um valor inestimável”.

Grupos de 1º fase de crescimento, com no máximo 50 pessoas, onde o objetivo principal era a prática dos carismas (1 Cor 12,1-12); grupos de 2º fase de crescimento com o objetivo de uma instrução na doutrina católica; grupos de 3º fase de crescimento onde as pessoas são incentivadas a viver o discipulado, fazendo um caminho de santidade. Essas fases de crescimento tinham pelo menos quatro aspectos fundamentais: Estudo bíblico, oração pessoal, partilha de vida e ministérios (como se chama ainda hoje os serviços realizados dentro e fora do grupo de oração).
Era o período do desenvolvimento da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais de Base, que na América Latina teve grande repercussão no meio do clero. Havia dificuldades de convivência entre essas duas expressões eclesiais. Emmir testemunha uma vez que foi expulsa da Igreja de São Benedito, onde o sacerdote dizia “sai porque você não é Igreja e a RCC não está no plano de pastoral orgânico paroquial. Retire-se daqui com seu povo! Eu sai com todos os coordenadores de grupo de oração atrás de mim. Lá fora faixas do PT. Cruzei com Maria Luiza a três dedos de mim de distância e, Deus foi muito bom, porque eu sorri para ela e disse: Deus te abençoe”[6]
Nesse período o Pe. Caetano escreve o livro A teologia da Libertação a luz da Renovação Carismática. O texto é resultado de um encontro de líderes da RCC de todo o Brasil em Campinas entre 04 e 11 de Janeiro de 1978. Nesse encontro foram feitas apreciações e criticas a respeito de um estudo feito a pedido da CNBB e com base em uma pesquisa do CERIS, realizada em 1975 e publicado em 1978 pela Editora Vozes. Mesmo nascendo no mesmo período, após o Concilio Vaticano II, Teologia da Libertação e Renovação Carismática, sempre tiveram dificuldades de entendimento. Era comum nessa época encontrar pessoas ligadas as Cebs que diziam que os carismáticos eram um bando de “alienados”, “só querem saber de rezar”, “eles constituem um grande perigo para a Igreja”, “não se engajam na luta dos pobres”, etc. O Pe. Caetano, em contrapartida, no livro citado acima, diz “Só existe libertação total, real e concreta, na medida em que o homem, assumido pelo Senhor Jesus, se liberta do seu egoísmo, de suas tensões, medos e angústias, das opressões do demônio, para se lançar na gratuidade e na disponibilidade do serviço libertador do próximo” [7]. São duas realidades eclesiais que se distanciavam cada vez mais.
Nos anos 70, vai surgir a primeira equipe de serviço da RCC, formada por Ir. Cardoso, Ir. Ribeiro e Horácio Didimo. Esse último[8] participa ainda hoje ativamente da Comunidade Face de Cristo, onde coordena um grupo de oração. Nesse período a preocupação da equipe era dupla: difundir a riqueza dessa espiritualidade e conquistar legitimação por parte do clero, já que nesse período se contava nos dedos os sacerdotes que apoiavam o movimento.
Em 1978, a primeira edição do jornal Ágape, traz a informação da primeira reunião do conselho de representantes dos grupos de oração da região no dia 1 de março, no cenáculo, com representantes dos seguintes grupos de Fortaleza: Cristo Redentor, Santo Afonso, Sagrada Família, N. S. Medianeira, Cenáculo, Santo Tomás de Aquino, João XXIII, N. S. Fátima, Espírito Santo, Noite de Oração, N. S. Piedade, N. S. do Santíssimo Sacramento, N. S. dos Remédios.
Em vários lugares começam a acontecer Seminários de Vida no Espírito Santo, e as lideranças da RCC vão sendo formadas. Em Março de 1978, o Pe. Eduardo dirigiu um retiro para cerca de 50 lideres, no cenáculo, casa de retiro que ficava em Fortaleza..



[1] Sacerdote jesuíta, que colaborou imensamente no desenvolvimento da RCC em Fortaleza.
[2] Informativo da Renovação Carismática Católica da Arquidiocese de Fortaleza - ANO XXII - Jul/Agos/2000 - no 205
[3] Pe. Batista é sacerdote Piamartino que se encontra no Brasil a vários anos.
[4] Iolanda Fialho é Assistente Social e coordenou a RCC Arquidiocesana de 2000-2006.
[5] Emmir Nogueira é Co-fundadora da Comunidade Católica Shalom que no ano de 2007 recebeu o reconhecimento pontifício, coordenando por dois mandatos de três anos a RCC arquidiocesana.
[6] Informativo da Renovação Carismática Católica da Arquidiocese de Fortaleza - ANO XXII - Jul/Agos/2000 - no 205.
[7] Tillesse, Caetano Minette. A Teologia da libertação a luz da Renovação Carismática, São Paulo, Edições Loyola, 1978, pg. 44.
[8] Horácio Dídimo foi professor do departamento de literatura da Universidade Federal de Fortaleza. É autor de vários livros entre eles: tempo de chuva, tijolo de barro, A palavra e a Palavra (amor – palavra que muda de cor), etc. Faleceu em 2018.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Nos passos de PAULO - O valor do conhecimento

 

Paulo como qualquer criança de sua época frequentou a sinagoga, lugar central do judaísmo que era local de oração, encontro da comunidade, administração comunitária e escola. Obrigatoriamente as crianças frequentavam a escola na sinagoga e ali aprendiam a Lei que era repetida para que fosse “inculcada e gravada no coração” (Cf. Dt 6,6-7). A pedagogia do século I d. C compreendia três etapas que ia da iniciação onde se memorizava trechos da Torá, depois passava pelo aprofundamento da lei, ética, costumes e história do judaísmo, e, por fim, discussão e interpretação dos ensinamentos da tradição judaica. 

        Na primeira infância se aprendia a ler e escrever e principalmente a memorizar trechos da Torá. Atráves da repetição as crianças iam aprendendo desde a cedo a “ser um bom judeu” que consistia de certa forma em observar os preceitos da Lei. Em seguida, de forma dialógica, se ia aprendendo a interpretar os textos. Não são pouca ás vezes que o Apóstolo demonstra ter sido bem instruído nessas  lições. Ora ele menciona textualmente textos do Antigo Testamento, ora ele interpreta os textos à luz da experiência do mistério Pascal de Cristo. Por exemplo, em Gl 3,8 ele cita Gn 12,3 e 18,18: “Em ti serão benditas todas as nações”. Já em Rm 4,3 e Gl 3,6 vemos ele aludir à fé de Abraão: “Abraão creu em Deus e isso lhe foi imputado como justiça” (Gn 15,6). Em 1 Cor 10,7 Paulo menciona Ex 32,6 para falar da idolatria de Israel. Em Rm 13,9 e Gl 5,14 ele repete Lv 19,18: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. 

O ainda Saulo foi levado de Tarso para Jerusalém para estudar com Gamaliel e assim aprofundar o conhecimento das tradições judaicas. A transmissão do conhecimento consistia em vivênciar sua fé através da oração, shabat, celebração de festas e rituais, e leituras da Torá, Talmud e tradições rabínicas. O jovem Saulo se preparou aos pés do sábio Gamaliel alcançando um grande status como ele mesmo descreve: Quanto à Lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto a justiça legal, declaradamente irrepreensível” (Fl 3,6). Na mesma carta, o apóstolo diz que um novo conhecimento, o de Cristo Jesus, se tornou bem supremo, o que fez ele passar de Saulo para Paulo, graças ao encontro com o Cristo ressuscitado (Ler At 9; 22; 26)

Nos passos de Paulo, devemos aprender o valor do conhecimento. De acordo com as Escrituras o conhecimento não é mero esforço intelectual e sim vivência. É saborear, degustar o saber, mais sentir do que medir, interiorizar do que divagar. E não estamos falando de qualquer conhecimento,e sim do conhecimento de Deus que pode ser adquirido por meio das obras criadas, mas principalmente por meio da revelação onde o “autor da vida”, se dar a conhecer para sermos capazes de lhes responder do jeito que Ele mais gosta, através do amor. 

Esse conhecimento é adquirido por meio da prática da oração. É Paulo mesmo quem diz, “orai sem cessar”, caminho esse que transforma, que muda o rumo, cria uma nova rota na direção do encontro com o Ressuscitado que aparece no caminho da vida. Os santos, através de sua ciência, nos apontam também a importância da leitura. Por exemplo, Santa Teresa de Lisieux, Santo Inácio e São Francisco Xavier liam a Imitação de Cristo. Existem inúmeros livros que podem lhe ajudar a alcançar o conhecimento de Deus, mas um que não pode deixar de ser lido é a Bíblia, porque como diz São Jerônimo, “Quando rezamos, falamos com Deus, quando lemos a Bíblia, é Deus que nos fala”. Não podemos nos cansar de ouvir sua voz! 

Nos passos de Paulo vamos descobrindo que é importante repetir, repetir e repetir. Isso significa exercitar. Por isso, se deve criar uma rotina, ter um roteiro, desenvolver uma disciplina para crescer no conhecimento do Senhor. O profeta Oséias já alertava sobre o perigo da falta de conhecimento (Cf. Os 4,6). Sendo assim, devemos nos esforçar para alcançar o “supremo conhecimento”, condição para uma vida feliz. Como já dito, não é o saber para ser “doutor” mas sim para adquirir a sabedoria do bem viver, que os santos tão bem souberam aprender. Término inclusive dizendo, que a ciência dos santos é receita certa para o verdadeiro conhecimento, aquele que nos leva a alçancar a 'medida de Cristo" (Ef 4,13-15). Com certeza, olhando para a vida deste homens e mulheres, podemos exclamar como Paulo: 

“Ó abismo de riqueza, de sabedoria e de ciência em Deus! Quão impenetráveis são os seus juízos e inexploráveis os seus caminhos! Quem pode compreender o pensamento do Se­nhor? Quem jamais foi o seu conselheiro? Quem lhe deu primeiro, para que lhe seja retribuído? Dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele a glória por toda a eternidade! Amém” (Rm 11,33-36).


  



domingo, 28 de setembro de 2025

O Rico e o Lázaro

Lucas é o evangelista que mais insiste no “perigo das riquezas”. Ao longo da sua obra aparece algumas vezes a dicotomia pobreza x riqueza, como por exemplo no Magnificat “cumulou de bens os famintos e despediu sem nada os ricos”. Em suas bem aventuranças ele diz que felizes são os “pobres “ e acrescenta através dos “ais”  a tristeza dos ricos que já “tiveram a sua consolação”. É bem o que o Evangelho do rico opulento e do pobre Lázaro (Lc 16,19-31) quer nos alertar. O rico fazia festas, se banqueteava. E o pobre? Desprezado na porta do rico! Hoje a lição de Jesus se relaciona com sua própria missão anunciada no início de sua vida pública: “eu vim evangelizar os pobres”. Isso porque sua insistência é para enxergamos como cada personagem se comporta na cena e qual seu destino. 

O rico, que nem nome tem, se contrapõe ao pobre que tem nome, Lázaro, que significa “Deus, ajuda-o”. Ao nominar o pobre, o Evangelho nos ensina que Deus não esquece os “esquecidos”, nem abandona, os abandonados. Não podemos viver e fechar os olhos para os pobres, essa é uma grande de lição aprendida com essa história. Não podemos viver nossa vida sem se importar com os outros, principalmente com os quem mais sofrem. No mundo em que vivemos, às pessoas são medidas pelos bens, pela riqueza que possuem, já na lógica do Reino de Deus, às pessoas são medidas pela pobreza. Como somos medidos pela pobreza? Caminhando de mãos vazias para sermos enriquecidos ao longo do caminho pelo dono do “tesouro”.

Nas andanças de Jesus fica evidente sua atenção aos pobres e marginalizados da sua época: cegos, paralíticos, leprosos, viúvas, etc. isso para demonstrar uma inversão de valores onde devemos reconhecer a verdadeira riqueza que é o próprio Cristo, Ele que nos "enriquece com sua pobreza" (2 Cor 8,9). Se sou pobre fico rico, se sou rico, fico pobre! Esse trocadilho é simples, se enxergo quem mais precisa, se me compadeco, se sou misericordioso, me enriqueço. Se sou egoísta, me fecho, busco meus próprios interesses, empobreco. Quero ser rico ou pobre? Amar como Jesus amou me faz fico, e esse é o segredo da verdadeira felicidade. 


sábado, 2 de agosto de 2025

Entre muros e jardins

 Nossa comunidade deve destruir muros e construir jardins. Nós construímos muros para proteger nossas casas e acabamos por nos afastar. O profeta Zacarias em uma de suas visões ouve o Anjo lhe dizer: “Corra, vá dizer àquele moço que Jerusalém deve ficar sem muros, por causa da multidão de homens e animais que ela deverá acolher” (Zc 2,8).

Deus prefere plantar jardins. Os cheiros das flores atraí pessoas, seu perfume traz inúmeras sensações. São Paulo diz que devemos ser “perfumes de Deus” (2 Cor 2,15). Desta forma, se nossas comunidades plantam jardins, elas vão inevitavelmente atrair para que assim aja um desejo comum de desde cedo sentir o amor de Deus e a Ele elevar a alma (Cf. Sl 143,8). 

O jardim é imagem de enamoramento do Amado no Cântico dos cânticos, tanto que a Amada canta dizendo, “soprem no meu jardim para espalhar seus perfumes. Entre o meu amado em seu jardim e coma de seus frutos saborosos!” (Cf. Ct 4,16). É no jardim que devemos lançar a semente, porque o Espírito quer fazer crescer (Cf. Lc 13,19) para saborearmos frutos de verdadeira conversão (Cf. Mt 3,12). É justamente de um jardim que o cheiro da salvação se espalhou pelo mundo (Cf. Jo 19,41). Foi pisando em rosas, lírios e jasmins que o Cristo ressuscitado apareceu a Maria Madalena. Dessa forma, somos chamados a ser o cheiro daquele que venceu a morte! 

O profeta Isaías nos exorta a cuidar do jardim. Cuidado, cuidem do jardim para que não morra o que Deus plantou! Para isso, é necessário cultivar a vida no Espírito para que sua comunidade não se transforme em um “jardim sem água “ (Is 1,29). 





domingo, 30 de março de 2025

Uma história de perdão

 

Deus nunca abandonou o homem à própria sorte e, em sua infinita misericórdia, quis sempre salvá-lo. Em todo o fio que se desenrola pela Sagrada Escritura, vemos um Deus sempre pronto a perdoar, que quer “a misericórdia e não o sacrifício”. A aliança que Deus faz com o homem de Adão a Noé, de Abraão a Davi, de Amós a João Batista se realizou de modo definitivo no mistério pascal de Cristo Jesus, Nosso Senhor, que é o dom do Pai que, gratuitamente, oferta-se por nossa Salvação. É este anúncio que Pedro faz no dia de Pentecostes a todos os ouvintes que participavam da festa naquela ocasião: “A este Jesus (que foi crucificado), Deus o ressuscitou, e disto nós somos testemunhas. Portanto, exaltado pela direita de Deus, ele recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e o derramou, e é isto o que vedes e ouvis... Saiba, portanto, com certeza, toda a casa de Israel: Deus o constituiu Senhor e Cristo, este Jesus a quem vós crucificastes” (At 2,32-33.36). A força do discurso do grande apóstolo fez com que os ouvintes se perguntassem: “O que devemos fazer irmãos?”, e Pedro prontamente responde: “arrependei-vos e batizai-vos, cada qual invocando o nome de Jesus Cristo, para que sejam perdoados os vossos pecados” (At 2, 38). O arrependimento nos coloca sentados à mesa no banquete do perdão que é abundante, alimenta-nos da certeza da vida eterna e faz de nós “novas criaturas” (2 Cor 5,17).

A parábola do filho pródigo (Lc 15,11) ilustra bem o que queremos dizer. Essa é uma história de perdão. O filho “pede a parte da herança que lhe cabe”, abandona a casa do pai. Segue o seu caminho e amarga, ao longo dele, muita decepção. Ele (o filho) colocou tudo a perder, e de repente veio a lembrança da casa do pai: “até os empregados da casa do meu pai têm pão com fartura”. Maior do que a sua tristeza, foi a decisão de voltar para casa do pai. Maior que a sua dúvida, foi a alegria que invadiu o seu coração quando o pai pulou no seu pescoço, abraçou-o e beijou-o. “Vamos fazer uma festa – disse o pai – pois esse meu filho estava morto e voltou a viver, estava perdido e foi reencontrado”. Aqui reluz a imensa bondade e misericórdia de Deus que, a exemplo do pai da parábola, está sempre pronto a nos acolher, amparar, auxiliar e perdoar. É o arrependimento e a firme decisão de voltar para a casa do Pai, que faz com que a festa no céu comece!

A parábola ilustra bem o que o pecado é capaz de fazer com uma pessoa. E isso é importante que você compreenda: o pecado é uma desgraça. Conheci um jovem que morava próximo a nossa comunidade e quis levá-lo para participar, conosco, do grupo de oração. Ele riu, e disse que não tinha tempo para isso. Um dia saindo da missa, esse mesmo jovem me abordou. Fiquei surpreso, pois ele lembrava o meu nome. Pediu-me dinheiro. Sabia que era para usar droga. Sua face apresentava os primeiros traços de desfiguração. Passado um tempo, um jovem aproximou-se do carro que estava dirigindo e me pediu dinheiro. Custei a reconhecer: era aquele jovem que riu do convite que lhe fiz para ir ao grupo de oração. Me deu uma tristeza imensa. Ele já não me conhecia mais. O pecado mudou quem ele era, transformando sua alegria em tristeza. Muitas vezes, o nosso corpo denuncia o que o pecado faz; às vezes, não. Mas, quando abandonamos a casa do Pai, lugar do amor e da misericórdia, nossa alma fica assim, atingida por um sono mortal, perturbador.

Então o filho cai em si “Pai, pequei contra o céu e contra ti”. Ele faz o seu exame de consciência.  Reconhece o mal que foi ter saído da casa do Pai. Esse passo é muito importante em nosso processo de cura interior, pois examinamos o que fazemos à luz dos preceitos divinos e percebemos a distância que se estabeleceu entre nós e Deus. O que somos e o que devemos nos tornar depende do encontro com o Deus misericordioso, revelado por Cristo, que sempre nos recebe de braços abertos. Em meio ao nosso sono, somos despertados e, diante de nós, aparece um espelho que, à luz do Espírito Santo, faz-nos ver quanto mal o pecado nos faz e o quanto precisamos do perdão de Deus.

“Na casa do meu pai há pão com abundância... vou voltar e dizer: Pai, pequei contra o céu e contra ti...". Ele admite o erro e toma a firme decisão de voltar à casa do Pai. Esse passo é, sem dúvida, o mais doloroso, pois envolve a aceitação de si mesmo e a dúvida sobre a aceitação por parte dos outros. Uma vez, fazendo um trabalho assistencial com os moradores de rua da minha cidade, perguntei a um deles se ele não tinha casa. Ele me respondeu que sim. Então perguntei porque ele não voltava, e ele disse: “eles não me aceitariam depois do que fiz”. Esse exemplo ilustra a dura decisão que precisamos tomar. Além de reconhecer o erro, precisamos ter coragem de admiti-lo. Devemos estar certos da imensa misericórdia de Deus, “que não leva em conta nossas faltas. Se o fizesse, o que seria de nós? Nele se encontra o perdão” (Cf.Sl 129). Tudo pode ser perdoado desde que haja arrependimento. Um bom exemplo disso é o caso do ladrão ao lado da cruz. Ele admitiu o erro que o levou àquela condenação e reconheceu que Jesus não merecia isso, pois era inocente do crime que lhe havia sido imputado. A sua consciência o acusou diante do juiz que julga com amor, por isso, ouviu o que não esperava: “hoje mesmo estarás comigo no paraíso”. O ladrão encontrou a salvação, sendo recebido na eternidade por aquele que espera nosso arrependimento.

“Pai, pequei contra o céu e contra ti, já não sou digno de ser chamado seu filho”. Diante do mal que o filho fez a si mesmo, ele decide-se voltar à casa do pai. Quer ser recebido pelo menos como um empregado. A condição em que se encontrava gerou uma mudança de consciência com relação a si mesmo e ao mundo que o cercava. As bebedeiras, orgias, comilanças, orgulho e avareza passaram a causar nele uma tristeza que produziu arrependimento (cf. 2 Cor 7,10). Às vezes, por não querermos enfrentar a realidade, enganamo-nos considerando que tudo vai bem. Criamos desculpas que amenizam nossa culpa e continuamos vivendo como se não tivéssemos feito nada de errado. Mas, chega uma hora, que não suportamos mais essa situação. Do fundo de nossa alma, gritamos: “pequei”.

O arrependimento exige da pessoa uma relação de confiança na bondade e misericórdia divina. Confessar os pecados é humilhar-se diante da mão poderosa de Deus que não nos pune, mas perdoa. No aspecto jurídico, toda a acusação da qual eu sou culpado, deve ser punida conforme a lei. A experiência com o Cristo ressuscitado, coloca-nos diante de outra lei, imutável, que transcende nossa compreensão, lei que não pune, mas salva, que não condena, mas perdoa, lei do amor, a mesma que fez com que houvesse festa na casa do pai. O anel do dedo, as sandálias e a veste nova são sinais da dignidade que foi restaurada. É importante levar em conta, nesse itinerário, a força dessa palavra: RESTAURAÇÃO. Esse é um ofício do artista que quer fazer com que a obra se assemelhe ao que era antes. Com todo o cuidado, trabalha incansavelmente para que a obra seja contemplada da forma como foi concebida pelo criador. O divino artista trabalha assim, para fazer com que a deformidade causada pelo pecado dê lugar ao “homem novo”, transformado pela força do perdão.

A boa nova que a Igreja anuncia é essa: Deus vem perdoar os pecados! Aos seus apóstolos ele diz “o que ligares na terra será ligado no céu, e o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,19; 18,18; Jo 20,22s). Esse poder é exercido em nome de Cristo, e o sacerdote quando nos recebe no confessionário faz às vezes do Pai da parábola que celebra com alegria nossa reconciliação. A sentença que se repete constantemente é essa: “esse meu filho estava morto e voltou a viver, estava perdido e foi reencontrado”. Nesse encontro, somos julgados pelo amor, e essa dinâmica do encontro nos traz de volta para a comunhão da qual nos afastamos por causa do pecado.