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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O amor me ensina a interceder

A oração de Paulo vai do “Dou graças ao meu Deus por vós…” para “não cesso de pedir por vós”. Sua oração passa da contemplação à ação, da ação de graças à intercessão. O Apóstolo aprendeu na escola de Abraão e Moisés que interceder é uma ação que nasce da solidariedade para com o outro. 


Abraão protagoniza um momento muito significativo nesse sentido. Diante da iminente destruição de algumas cidades, ele “negocia” para salvar o máximo de habitantes, apelando para encontrar um justo que pudesse ser poupado, “Destruirás o justo com o injusto? Talvez haja cinquenta justos na cidade! Destruirás e não perdoarás a cidade pelos cinquenta justos que estão no meio dela?” (Gn 18,24-25). Moisés, chamado por Deus para libertar o povo da escravidão, inúmeras vezes precisou mediar, argumentar e suplicar junto de Deus pelo seu povo, porque sentia uma necessidade de intervir para salvar aqueles que lhe foram confiados, “ó Senhor, por que se acende a tua ira contra o teu povo, que tirastes da terra do Egito com grande poder e mão forte? (...) Lembra-te dos teus servos Abraão, Isaac e Israel” (Cf. Ex 32,11). 


Eles prefiguram Jesus, o Cristo, nosso grande mediador, que intercedeu por nós, tomando sobre si, os nossos pecados e abrindo para todos o caminho da salvação. Como diz o grande Apóstolo,Ele perdoou todas as nossas faltas, anulou o título de dívida que havia contra nós, deixando de lado as exigências legais; fez o título desaparecer, pregando-o na cruz” (Cf. Cl 2,14). Damos graças em todo o tempo porque Cristo nossa Páscoa foi imolado (Cf. 1 Cor 5,7), o verdadeiro cordeiro que tira o pecado do mundo. Tudo o que oferecemos ao Pai o fazemos por meio de Cristo Jesus, Nosso Senhor, ele que é o fundamento de toda intercessão. Paulo quando fala da linguagem da cruz, nos ensina que a cruz é a linguagem do amor que se entrega. Por isso, olhar para a cruz nos tira da indiferença e faz enxergar todos que caminham em nossa direção e que devem ser conduzidos ao madeiro para depois ir até a pedra removida, testemunhando o amor do Ressuscitado que passou pela cruz.  


Quando exercito o serviço da intercessão, desenvolvo uma percepção que me leva na direção do outro. Paulo, andou por diversos lugares, fundou comunidades, conversou com muitos, ouviu seus lamentos, conheceu suas dificuldades. Ele não ficou indiferente e descobriu que um dos primeiros gestos de caridade é a oração. É apresentar tudo aquilo que viu, ouviu, as realidades que tocou a quem tem o poder de mudar, Jesus nosso Redentor. Quem ora pelo outro sente a ação do Espírito Santo que o leva para fora de si, porque Ele nos faz ir do eu para o tu, que se transforma em um nós, porque no momento que intercedo, o caminho é percorrido por mim, o outro e Deus que me chama a “orar em todo lugar” (1 Tm 2,8) e “sem cessar” (1 Ts 5,17). 


Nas suas Cartas Paulo intercede em favor das suas comunidades. Quando escreve aos Romanos, chama Deus para ser sua testemunha de que constantemente ora pelos fiéis que estão em Roma, reafirmando o desejo de vê-los para compartilhar algum dom espiritual. Quando ficou sabendo que os cristãos de Éfeso cresciam na fé no Senhor e no amor aos “santos” passou a orar por eles “suplicando ao Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai glorioso, que vos desse o Espírito da sabedoria e da consolação” (Cf. Ef 1,15). Percebam que aquilo que o Apóstolo deseja não são bens materiais e sim espirituais, porque aqui o centro de suas orações não está na solução imediata de problemas, mas no crescimento dos seus irmãos em Cristo. Paulo não intercede apenas para que Deus resolva problemas, mas para que os fiéis cresçam enquanto lidam com eles. 


O Apóstolo continua na mesma direção quando escreve aos Filipenses. Ele ora para que o amor entre eles cresça cada vez mais e que caminhem buscando “conhecimento e discernimento” e assim fiquem “íntegros”. Já aos Colossenses ora continuamente para que cheguem a conhecer plenamente a vontade de Deus (Cf. Cl 1,9). O desejo que Paulo testemunha através da sua oração é de crescimento espiritual. Essas comunidades têm muitas necessidades, mas o que Ele considera mais importante é que não se desviem do caminho. Podemos dizer que ele ora pela perseverança dos seus irmãos em Cristo Jesus. 

Paulo não faz qualquer oração diante de Deus. Ele não simplesmente ora pela humanidade. Ele conhece suas comunidades, suas lutas, fé e fragilidades. Por um tempo esteve com eles, recebia notícias, sabia de suas aflições. Por isso, o exemplo de Paulo tem uma consequência pastoral: interceder é carregar histórias diante de Deus. É apresentar a Deus as necessidades individuais e comunitárias que chegam até nós. Não deixar de trazer para o altar do sacrifício que imolamos todas essas necessidades, principalmente dos que estão próximos. Temos em primeiro lugar, a responsabilidade de orar por aqueles com quem compartilhamos nossa vida, seja através de laços consanguíneos ou espirituais. Seus nomes, suas lutas, suas aflições, conquistas e fracassos, enfim, suas histórias devem ser contadas por nós àquele que tem o poder de reescrever novas histórias.

Nossa missão de interceder se dá debaixo da missão do grande mediador, que é Jesus Cristo, nosso Senhor. Ele nos chama a fazer “súplicas, orações, intercessões, ação de graças, por todas pessoas, pelos reis e pelas autoridades em geral para quem vivam uma vida calma e tranquila com toda a piedade e dignidade” (1 Tm 2,1-2). Nossa oração deve se estender ao lugar que vivemos para que não nos falte principalmente uma vida digna. Neste caso, as notícias passam a ser transformadas em preces, informações em ações espirituais como penitências e mortificações pela transformação da realidade que vivemos. Não podemos ficar indiferentes às necessidades dos outros, sejam os que estão próximos ou os que estão longe, porque Deus quer que através da oração o mundo seja transformado pelo poder do Espírito Santo. 


Somos seres de conexões e por isso rezamos uns pelos outros na certeza da comunhão dos santos. Somos auxiliados por uma “nuvem de testemunhas” (Cf. Hb 12,1) que nos precedem no Reino de Deus e que oram por nós. São nossos amigos espirituais! Apelamos aos santos e à Maria, Auxílio dos cristãos, porque quis Nosso Senhor, que através dos seus méritos pudéssemos recorrer a sua intercessão. Eles nos ajudam a seguirmos no caminho da salvação e pelo testemunho deles, permanecermos fiéis a Jesus. Enquanto andamos neste mundo, fortalecemos os passos nos alimentando do Pão da Palavra e da Eucaristia para não desanimarmos ao longo do caminho. Através desses alimentos espirituais são dispensadas as graças necessárias para continuarmos firmes. 

Se queres crescer na tua vida espiritual lembra-te que existem muitos que precisam do teu sacrifício de oração. Talvez hoje exista alguém cuja história Deus quer que você guarde no coração para transformá-la em oração. Não é preciso dizer muito, basta ter a coragem para levar seu nome diante de Deus. Leve sua dor, sua esperança, suas lutas. Interceder é isso: permitir que o amor nos tire de nós mesmos e nos faça carregar alguém. Quem aprende a interceder descobre que a oração não é apenas estar sozinho diante de Deus; às vezes precisamos levar tantos outros para o lugar em que me encontro sozinho com Deus porque o amor recebido de Cristo me faz assumir o “nós” na oração. 

Paulo não aparece apenas como “aquele que intercede”. Ele também diz: “Irmãos, rezai por nós.” Isso é muito valioso para a espiritualidade da intercessão porque o Apóstolo que ora em favor de suas comunidades, que apresenta suas necessidades diante de Deus também reconhece que precisa ser carregado pelas orações dos outros. Paulo não se apresenta como super-herói espiritual. Ao contrário, ele reconhece suas fraquezas, seus medos e fragilidades e pede que rezem por ele. Sua oração leva a  humildade e é nisto que consiste sua força. Isso cria uma reciprocidade: Eu rezo por você. Você reza por mim. Nós carregamos um ao outro diante de Deus. 



quarta-feira, 5 de agosto de 2026

A ação de graças: a primeiro linguagem da oração

 Muitas vezes quando começamos a orar, costumamos fazer diversos pedidos. Apresentamos inúmeras necessidade a Deus. Mas Paulo quase sempre começa a sua oração com uma ação de graças, o que revela uma espiritualidade, uma marca do Apóstolo, uma pedagogia de quem reconhece que foi “salvo pela graça” (Cf. Ef 2,5), por isso deve agradecer. 

Paulo aprendeu na Escola de Israel, a fazer memória dos grandes feitos do Senhor. Através de cantos, como o de Moisés, o povo exaltava a ação poderosa de Deus que os libertou da escravidão (Ex 15). A experiência do Êxodo é fundamental para o povo de Israel, por isso diversos Salmos recontam essa história (78. 105 e 136), e essa memória fez nascer a gratidão, “Celebrem a Javé, invoquem o seu nome, anunciem entre os povos as suas façanhas!” (Sl 105,1). 

Na memória do passado muitos judeus encontravam motivos para agradecer a Deus pois reconheciam sua ação na história. A história não podia ser esquecida, porque ela não era compreendida como um manual, uma enciclopédia, por isso muitos salmos ajudam a manter viva a história, lugar onde Deus realiza prodígios. Ela deve ser contada e cantada, lembrada e celebrada. 

A oração de ação graças nasce desse reconhecimento de que Deus age, que Ele caminha ao lado do seu povo, “em ti confiam os que conhecem teu nome, pois não abandonas o que te procuram, Javé (...) contem entre os povos suas façanhas” (Sl 9,10). Esse Deus que libertou seu povo com seu braço poderoso demonstrou ao longo da caminhada seu cuidado e isso se transformou em uma liturgia de ação de graças: “Cantem para Javé um cântico novo! Terra inteira, cante para Javé! Cantem para Javé, bendigam o seu nome! Proclamem sua vitória dia após dia, anunciem sua glória por entre as nações,suas maravilhas a todos os povos!” (Sl 96,1). 

Por causa da experiência com Cristo, no caminho de Damasco, tudo mudou na vida de Paulo. A ação de graças continua sendo uma de suas formas de orar, mas agora ela passa por Cristo, “Antes de tudo, dou graças ao meu Deus por meio de Jesus Cristo” (Rm 1,8). Paulo não deixou de rezar como judeu; aprendeu a rezar como judeu que encontrou o Messias: “Por meio do sangue de Cristo é que fomos libertos e nele nossas faltas foram perdoadas,conforme a riqueza da sua graça” (Ef. 1,8).

Grande parte das suas cartas começa com uma ação de graças. Na Carta aos Romanos, ele começa agradecendo pela fama que os romanos têm de ser uma comunidade de fé: “Antes de tudo, dou graças ao meu Deus por meio de Jesus Cristo por causa de vocês, pois a fama da fé que vocês têm se espalhou pelo mundo inteiro” (Rm 1,8). Quando ele escreve aos cristãos que estão em Corinto, ele reconhece os diversos dons da graça que foram distribuídos a essa comunidade, “Pois em Jesus é que vocês receberam todas as riquezas, tanto da palavra quanto do conhecimento” (1 Cor 1,5).

A ação de graças é uma forma de orar. Ele nasce da contemplação. Paulo aprendeu isso desde cedo. Suas comunidades enfrentaram diversos problemas e ele sabia que precisava corrigi-las, mas antes ele agradece. Vejam que a pedagogia paulina nos leva a agradecer antes de corrigir. Isso faz alguma diferença? Com certeza! O agradecimento cria uma chance maior de acolhimento do que de rejeição da correção que precisa ser feita, isso porque só agradece quem reconhece algo de bom. Quando deixamos esse ritmo ditar nossas ações, deixamos o bem falar mais alto que o mal. Não fechamos os olhos ao mal, mas com a ação de graças diminuímos a força do mal e dessa forma o enfrentamos com mais força.  

Quem agradece aprende a perceber que Deus não para de agir, e se manifesta nos pequenos gestos. Isso exige uma reeducação do olhar para enxergar que Ele quer que tenhamos “vida e vida em abundância” (Jo 10,10). Nossa oração, nesse sentido, deve ser uma constante releitura da própria história à luz da economia divina que reconhece a ação de Deus que tudo faz para nos salvar.

Aprendemos a agradecer, pela própria vida que é um dom do Criador, que tudo dispõe para o nosso bem. Ele faz questão de reconhecer nossa dignidade dizendo fomos criados um pouco abaixo de Deus “coroado de glória e esplendor” (Cf. Sl 8). O próprio Deus se abaixa para nos elevar, fazendo de nós sua casa. Paulo disse aos cristãos da cidade de Corinto que somos “casa do Espírito Santo”. Ele usa essa analogia e desenvolve uma teologia que nos leva a olhar a vida com algo sagrado. Com os olhos na criação e nas criaturas, vamos subindo os degraus do conhecimento de Deus, e a primeira linguagem da oração que usamos é o da gratidão. Isso porque reconhecemos Deus como “Senhor” e cremos que Ele nos chamou “para o louvor da sua glória e da graça que derramou abundantemente sobre nós por meio de seu Filho querido” (Cf. Ef 1,6). 

Paulo agradece por suas comunidades e reconhece que o Espírito Santo tem agido nelas. Como dissemos, ele não esconde os problemas, apenas procura uma forma diferente de resolvê-los, de modo que ninguém se perca. Às vezes, enfrentamos os problemas e acabamos criando mais problemas, pondo em risco a vida de toda uma comunidade, esquecendo que Jesus quer salvar a todos. Como a gratidão nos liga, faremos tudo para que essa ligação não seja rompida e permaneçamos firmes como discípulos. Podemos dizer que a gratidão salva.   

Jesus nos conta inúmeras histórias para dizer que Deus não para, e age, mesmo sem percebermos. Ele age em nós e através de nós e tem realizado grandes obras ao nosso redor. Nem sempre enxergamos isso, porque não colocamos os óculos de Jesus. Temos que olhar pelas lentes Dele. Dessa forma, vão sair de nossos lábios mais facilmente tantos “obrigado”. Deus quer que nossa linguagem seja em primeiro lugar de “ação de graças”, mas para isso precisamos ser “cheios de graça”. E como isso acontece? Simples, “Como crianças recém-nascidas, desejem o leite puro da Palavra, a fim de que vocês, com esse leite, cresçam para a salvação, pois já provaram que o Senhor é bom” (1 Pe. 2,2). 

O Espírito Santo faz com que o sacrifício de Cristo ganhe um novo sentido, o litúrgico. A Eucaristia passa a ser nossa grande oração, “No Espírito, pelo Filho, ao Pai”. Somos chamados diariamente a celebrar essa ação de graças “do nascer ao pôr do sol” porque “é nosso dever e salvação dar-vos graças”. Inspirado na grande tradição de Israel, esse rito cria uma espiritualidade eucarística que nos leva a atitudes de gratuidade e solidariedade para com tudo que nos cercam. 

Em primeiro lugar com a criação porque reconhecemos que toda ela é um grande altar onde podemos contemplar a presença do Criador. Por isso mesmo, nossa atitude fundamental é de reverência diante das obras criadas. A contemplação do altar da criação nos conduz a adoração no altar onde “Cristo, nossa Páscoa” faz crescer a vida na graça. Quem adora impõe um novo ritmo a própria vida onde o tempo passa a ser medido por uma submissão libertadora onde a existência encontra a essência. Isso nos leva ao reconhecimento da dignidade humana porque quis o Espírito Santo, fazer de nós, seu altar, “tudo o que fizestes a um dos meus pequeninos e a mim mesmo que o fizestes” (Cf. Mt 25,40). 

Vimos que agradecer é aprender uma nova linguagem. A contemplação vem antes da ação, a adoração antes da agitação, os pedidos só depois dos agradecimentos. A Escola de Paulo nos leva a transformar a vida em uma grande oração de ação de graças porque só assim veremos “céus novos e terras novas”. 

 

terça-feira, 21 de julho de 2026

O Espírito Santo nos ensina a rezar

Depois do encontro com Cristo na estrada de Damasco, Paulo não recebeu apenas uma nova missão, ele recebeu uma nova vida, onde tudo passou a ser lido a partir do mistério pascal de Cristo. Essa vida nova vai crescendo a partir de uma nova experiência de oração onde o Espírito Santo passa a orar nele e com ele, fazendo com que o Apóstolo se reconheça como “templo do Espírito Santo”. 


Vimos que algo de extraordinário aconteceu fazendo com que Saulo passasse a ser Paulo. Isso se deve ao encontro com o Cristo ressuscitado no caminho de Damasco. Esse encontro abriu caminho para outro, que foi o encontro com o Espírito Santo, que passou a ser para o Apóstolo, mestre da oração. Antes de Damasco, Saulo conhecia muitas orações, ele rezava diariamente, por exemplo, o Shemá. Depois de Damasco, ele descobriu que o Espírito Santo desperta no discípulo o desejo de orar, fazendo com que aquilo que sai lábios, tenha sido antes conhecido no coração. 


Chegada a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher (Cf. Gl 4,4)  para realizar nossa salvação. Com isso, passamos a ser filhos no Filho, “herdeiros e co-herdeiros” e podemos clamar “Abba, Pai” (Cf. Gl 4,6). E Jesus cumpre o que Ele havia dito, enviando o Espírito Santo. Paulo compreendeu que Deus habita no homem, que somos sua “morada”, lugar sagrado e que assim, podemos dialogar como “amigos” com aquele que habita em nós. Esse diálogo se transforma em uma amizade que cresce a cada dia, quando oramos. A oração  nos faz “amigos do Espírito Santo” e é a sua marca que recebemos para “garantia da nossa herança até o resgate completo e definitivo, para louvor da sua glória” (Cf. Ef 1,13-14), porque como nos disse Jesus, é Ele “que nos ensinará tudo” (Jo 14,26). 


Paulo diz que uma nova vida, segundo o Espírito, vai criar uma nova lei (Cf. Rm 8). Essa nova lei se opõe à antiga lei, onde uma leva a vida e a outra, a morte. Uma dessas leis vai crescer dentro de nós, influenciando como vamos agir. Se a lei da carne se impor,  falar mais alto, nossas ações vão ser egoístas o que irá causar inúmeros males a sociedade. Por exemplo, se formos guiados pelo ódio, o que podemos esperar? e se as intrigas, contendas e divisões prevalecerem? Pelo contrário, se a lei do Espírito nos dirigir, nossas ações serão marcadas pelo “amor, alegria, paz, paciência, bondade, benevolência, fé,mansidão e temperança” (Cf. Gl 5,22). Que lei queremos que nos guie?  

Se o Espírito Santo habita em nós devemos viver segundo o Espírito, ser guiados por Ele. E como vivemos segundo o Espírito? Paulo nos responde dizendo que devemos nos “inclinar para aquilo que é próprio do Espírito” para não sermos dominados pelos instintos egoístas. O Apóstolo nos leva a compreender a filiação divina, nossa condição de filhos, o que faz toda diferença em nosso aprendizado sobre oração. Como um filho deve se relacionar com o pai? com confiança. Por isso que através do Espírito, devemos clamar em nossa oração “Abba, Pai”, o que demonstra que temos plena confiança em Deus, queremos fazer sua vontade. Por isso nos aproximamos dele, sem medo, porque sabemos que todas as coisas concorrem para o bem dos que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o projeto dele”. 

Paulo diz que “todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus”. Ele insiste nisso porque é assim que devemos nos relacionar com Deus. Como Deus é nosso Pai, ele cuida de nós, não deixa que falte o necessário, garante o essencial para uma vida digna. E esse Espírito “que ora em nós com gemidos inefáveis” sabe do que precisamos. Diante de Deus, o que podemos fazer é se dar a conhecer, deixar que ele mesmo nos ajude neste caminho de autoconhecimento para que assim, se revele quem somos de verdade e reconheçamos nossa verdadeira condição de filhos. Nossa oração nesse sentido, passa a ser filial e nossa missão é a de manifestar ao mundo o “Pai das misericórdias” (2 Cor 1,10). 

Nossa oração ganha um outro sentido quando damos ouvidos ao que Paulo diz: “O Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis”. O que significa interceder? entre muitos significados, tomar partido. Quem intercede, discute, justifica, apresenta os motivos para a defesa daquele por quem intercede. Só se intercede porque quem se acredita. Se eu não acredito, se não dou valor aquela pessoa, não assumo essa causa, não tomo partido em favor dela. O Espírito Santo toma partido porque acredita em nós e quer nos fazer participantes na comunhão do Filho com o Pai. O Apóstolo em outra Carta diz que “alguém pagou um alto preço pelo nosso resgate” (1 Cor 6,20), reconhecendo nosso valor. Desse modo, quando oramos, sabemos que Deus age em nosso favor, porque quer nos santificar, “essa é a vontade de Deus, a vossa santificação” (1 Ts 4,3). A santidade só se alcança através da oração e isso é obra do Espírito Santo que ora em nós. 

São Paulo reconhece que o Espírito Santo é mestre da oração, por isso mesmo ele diz que devemos “orar incessantemente no Espírito”. Quando lemos a Parábola do Fariseu e do Publicano (Lc 18,9) aprendemos que nem toda oração é no Espírito. Por que a oração do Fariseu não agradou a Deus? porque não foi no Espírito e sim na carne, ao contrário do Publicano, que de coração reto dizia “Senhor, tende piedade de mim”. Jesus exortou duramente os seus dizendo que “nem todo aquele que me diz, Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus” (Mt 7,21). Paulo diz a uma de suas comunidades que só através do Espírito podemos dizer “Jesus é o Senhor”. 

Portanto, orar no Espírito depende de uma vida no Espírito e essa vida só se alcança buscando as coisas do alto em vez das coisas da terra (Cf. Cl 3,1). Quando buscamos as coisas do alto, vamos nos despojando do “homem velho e de suas ações, e se revestindo do homem novo que, através do conhecimento, vai se renovando à imagem do seu Criador” (Cf. Cl 3,9). Toda oração no Espírito nos conforma cada vez mais a Cristo e nos introduz em sua relação filial com o Pai fazendo com que cresça esse conhecimento e nossa vida se transforme em oração para ser uma expressão da vida no Espírito que procuramos constantemente. 

A grande descoberta de Paulo não foi apenas que o homem pode falar com Deus, mas que Deus fala no homem porque somos seu “templo”. O Espírito Santo faz com que a oração deixe de ser apenas uma obrigação religiosa e passe a ser uma uma relação filial porque só se aprende a orar, quando se aprende a viver como filho. Orar passa a ser uma ação do Espírito que nos transforma para que tenhamos os “mesmos sentimentos de Cristo” (Cf. Fl 2). Dessa forma, a vida do discípulo passa a ser uma oração permanente. 



sábado, 11 de julho de 2026

O encontro que se tornou oração

          Saulo era da tribo de Benjamim, fariseu (Cf. Fl 3,1ss). Logo, ele aprendeu a oração dos pais. Rezava como de costume, o Shemá: "Ouve, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração" (Dt 6,4-5). Esse era o Credo de Israel que devia ser proclamado no amanhecer e ao anoitecer. Essa oração era muitas vezes recitada entre as bênçãos, antes das preces. A vida do judeu seguia um ritmo marcado pela oração, toda vida deveria ser uma expressão do chamado que Adonai lhe fez: “vocês serão o meu povo,  e eu serei o vosso Deus”. Portanto, quando olhamos para Saulo, devemos reconhecer um judeu que redescobriu uma nova forma de orar, onde a experiência do mistério pascal de Cristo passou a ocupar um lugar decisivo em sua vida. 

Antes de seguir o caminho para Damasco, Saulo provavelmente recitou a oração da manhã, rogou sobre si as bênçãos do Criador que é Deus e formou o homem com sabedoria: bendito és tu Adonai, nosso Deus, Rei do universo, que liberta os amarrados e ergue os curvados”. Ele seguiu com a convicção de que fazia a vontade Deus. Como fariseu, interpretou o que ocorreu com Jesus, como uma ameaça a sua religião, por isso mesmo, se tornou um “perseguidor da Igreja” como ele mesmo declara, por causa da “observância da lei” que julgava ser cumpridor irrepreensível. 


No caminho, aconteceu o encontro que mudou completamente a sua vida. Saulo não esperava por isso, mas quis o Cristo ressuscitado aparecer a ele: “Saulo, Saulo, porque me persegues?” (Cf. At 9,1ss). Saulo responde com uma outra pergunta: “Quem és tu Senhor?”. Jesus não tardou em responder: “Eu sou aquele a quem tu persegues”. Na tradição de Israel alguns “encontros” revelam progressivamente a face de Deus, o Adonai. 


Por exemplo, nosso patriarca Jacó, nas suas idas e vindas, entre a saída e a volta para sua casa, “luta com Deus”. Depois desse encontro, Deus muda o seu nome, e ele passa a se chamar Israel. Moisés, enquanto pastoreava o rebanho, viu uma sarça em chamas, que não se consumia e do meio delas escuta o Senhor lhe chamando pelo nome. Moisés se apressa em responder: “aqui estou”. O “Deus de Abraão, Isaac e Jacó” chama Moisés para libertar o povo da escravidão. Esse Deus dialogava com Moisés como um amigo e falava com ele “face a face” (Cf. Ex 34). Assim como Jacó, Saulo depois da experiência com o Ressuscitado, passa a ser chamado Paulo, e começa a ler sua história a partir daquele que leva “a história a sua plenitude, reunindo o universo inteiro” (Cf. 1,10). Jesus, o novo Moisés, fez de Paulo uma testemunha do seu mistério de amor, “ministro de uma aliança nova, não aliança da letra, mas do Espírito” (Cf. 2 Cor 3,6).


O que fez com que Paulo tenha passado a considerar tudo “perda, diante do conhecimento de Cristo Jesus”? (Cf. Fl 3,8) O que fez com que ele suportasse prisões, fadigas, açoites, vigílias, cansaços, inúmeros perigos, violências de diversas formas por causa de Cristo? (Cf. 2 Cor 11,16-30) O encontro com o mais forte, isso transformou a vida dele de modo que ele bem podia orar como o profeta Jeremias: “Tu me seduziste, Javé, e eu me deixei seduzir. Foste mais forte do que eu e venceste” (Jr 20,7). A partir desse encontro toda a sua experiência passou a ser lida pelos olhos daquele que venceu  a morte. Sua oração tinha na pessoa de Cristo sua nova marca, sua identidade, como ele mesmo declara, “é Cristo que vive em mim” (Cf. Gl 2,20), porque ele estava convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderes, nem as forças das alturas ou das profundidades, nem qualquer outra criatura, nada nos poderá separar do amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo, nosso Senhor” (Cf. Rm 8,38-39).


Até aquele dia, no caminho de Damasco, Saulo conduzia sua vida de acordo com sua tradição espiritual, suas orações se dirigiam ao Deus de seus pais, esperando servi-lo mediante a observância da Lei. Depois do encontro com o “Senhor”, compreendeu que o mesmo Deus lhe falava através do “Filho do Deus vivo” (Cf. Mt 16,16), o Cristo ressuscitado. Sua oração não abandonou Israel; encontrou em Cristo o seu pleno cumprimento. 


Quando colocamos os olhos nessa cena da Conversão de São Paulo, vamos inevitavelmente perceber que Deus nos encontra no caminho da vida. Ele faz isso não para nos destruir, mas sim reconstruir. Quando damos ouvidos ao próprio conselho do Apóstolo, de “orar sem cessar” (Cf. 1 Ts 5,17), O Espírito Santo vai transformando nossa vida para que resplandeça aquilo que Deus quer. Dessa forma a violência vai dando lugar a paz, o ódio ao perdão. Aquilo que antes eu detestava, agora abraço como bem supremo. No encontro com Cristo, há sempre um antes e um depois, e é o Espírito Santo que nos foi dado, por Cristo Jesus, que vai derramando em nossos corações o amor de Deus (Cf. Rm 5,5) que tudo transforma. 


Podemos dizer que a oração é sempre um encontro com uma pessoa que é próprio Jesus, o Cristo, que morreu e ressuscitou, que vive e nos chama a caminhar com Ele. Nesse momento a oração deixa de ser objeto e passa a ser sujeito, não é mais um EU, mas passa a ser um TU, que inevitavelmente se transforma em um NÓS. Como diz São João Crisóstomo, Cristo não pergunta: "Por que persegues os meus discípulos?", mas "Por que me persegues?" salientado uma dimensão eclesial do encontro com Cristo que nos leva a crer que oração é comunhão, partilha. Cristo, se parte e reparte seu Espírito a todos que o buscam de coração reto, e é o mesmo Espírito que é dado a todos para que formemos um povo da luz.


Vamos aprender que Paulo não oferece um método de oração, ele não cria uma escola de oração. Sua vida é uma escola, seu testemunho, oração. Para o Apóstolo, oração é encontro, por isso, “Deus que nos ama primeiro”, toma a iniciativa de nos encontrar e o que Ele espera de nós, é deixar-se amar para sermos “transfigurados nessa mesma imagem, cada vez mais resplandecente pela ação do Senhor que é Espírito” (2 Cor 3,18). 



terça-feira, 12 de maio de 2026

O Espírito Santo, nosso Advogado

"Quando vier o Defensor que eu vos mandarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que procede do Pai, ele dará testemunho de mim" (Jo 15,26)

Muitas vezes nos vemos em uma situação de aflição e apelamos para quem possa nos socorrer, defender nossa causa. Em algumas ocasiões o tempo que temos é pouco e precisamos agir urgentemente. Em certos casos precisamos de um advogado. No Evangelho de João, Jesus diz que enviará o Paráclito (advogado) que vem para nos defender. Ele continuará a obra redentora do Filho e com seus “gemidos inefáveis” clamará continuamente por nós. Como Ele sabe que o Demônio tem “pouco tempo” e quer perder as almas, desempenha esse papel nos defendendo contra suas investidas.

Existe uma luta contínua contra “o mundo das trevas, contra os espíritos do mal que habitam as regiões celestes” (Ef. 6,12). É uma luta em primeiro lugar espiritual e não material, não começa na esfera visível mas na invisível, onde agem forças para condenar. Nem sempre nos damos conta dessa luta, por isso mesmo, não nos preparamos adequadamente para ela. Se não sabemos o que enfrentamos, somos vencidos facilmente. 

Por isso o Espírito Santo vem em nosso socorro, Ele que é “o Espírito da verdade” (Jo 14,17) vem para “desmascarar o mundo” (Jo 16,8). E isso é muito importante pois devemos abrir nossos olhos para reconhecer o pecado. Quando isso acontece, é o começo do fim porque esse mesmo Espírito cria em nós um “coração contrito e humilhado” que conduz a um verdadeiro arrependimento. Com o arrependimento, o reino do pecado vai desmoronando em nossa vida e um novo Reino passa a ser erguido, de “paz, justiça e alegria no Espírito Santo” (Rm 14,17). 

Na luta contra o mal, devemos ficar atentos porque estamos lidando contra o acusador. E o que ele faz? Acusa! Em primeiro lugar nos acusa de pecadores, quer nos fazer crer que não somos merecedores da salvação. Se dermos ouvidos a essas suas acusações, vamos nos afastar, ir para longe de Deus. Passamos a questionar o perdão, achando que não somos dignos. Mesmo como filhos, herdeiros do Reino, passamos a agir como se não tivéssemos direito algum. O “Espírito da verdade” desmascara os planos diabólicos para que vivamos como verdadeiros filhos de Deus.

Podemos nos tornar “funcionários do acusador” quando nos apressamos em condenar nossos semelhantes, julgamos sem misericórdia, agimos para destruir espalhando “verdades” ou “mentiras” para prejudicar o outro. Não me importo nem um pouco com o mal que isso possa causar, simplesmente lanço palavras com o peso do inferno para que o fogo da acusação cresça ainda mais. O nosso Advogado, o Paráclito vem para nós defender contra todas essas acusações e estabelecer novamente a paz. 

No mundo de tantas acusações, precisamos do Advogado, o Espírito Santo. “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou” (Cf. Gl 5) e é essa condição que o Espírito Santo quer criar, para que sejamos livres do pecado. Uma vida sem grades é isso que o Advogado quer nos dar, por isso mesmo Ele defende nossa causa, não deixando que a condenação pese sobre nós. Jesus nos libertou da prisão do pecado, e o Espírito Santo trabalha para que reconheçamos definitivamente essa nossa situação. 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Vem Ruah com teu sopro!

Soprou sobre eles e disse-lhes: ‘Recebei o Espírito Santo’” (Jo 20,22)

Tem uma canção que diz assim: “o mar é Deus e o barco sou eu, e o vento forte, que me leva pra frente, é o amor de Deus”. Esse amor é o Espírito Santo! Ele é vento, é Ruah!

O mar assusta e encanta, atraí e afasta. Ele tem seus mistérios, esconde suas belezas, demonstra força através da sua profundidade. Podemos interpretar o mar como Deus, mas também como o mundo. 

O mundo causa medo. Somos um pequeno barco e existem tantos ventos que sopram nos agitando de um lado para outro. Nem sempre é a Ruah, o sopro do Espírito. Quando outros ventos sopram, podemos ser empurrados para longe do porto, do lugar seguro e corremos o risco de ficar à deriva. 

Todos nós buscamos certezas, algo para se apoiar. Quanto o vento do relativismo sopra, os portos seguros deixam de existir e tudo depende do momento, do sentimento e das opiniões. Não existe porto seguro, porque o chão das verdades não existe,  o que enfraquece a fé. Quem se deixa levar por esse vento não enxerga a vela içada com os dizeres de Jesus, “eu sou a verdade” (Cf. Jo 14,6). Em Cristo, descobrimos sua Palavra da verdade, o Evangelho que salva (Cf. Ef. 1,12-13). 

No vento do imediatismo queremos chegar logo, não prestamos atenção aos processos, e ficamos presos às facilidades. Navegamos sem nos atentar aos mapas, as coordenadas geográficas deixadas pelos antepassados (Cf. Hb 11) porque o que importa é o presente. Não damos valor aos processos, aos fios que ligam o presente, passado e futuro. Os ventos do imediatismo levam ao utilitarismo. Só tem valor o que for útil. Se deixarmos esse vento nos levar, esquecemos que “debaixo do céu há momento para tudo, e tempo certo para cada coisa” (Cf. Ecle 3,1). Não são poucas as vezes, que o que mais importa, é saber esperar “porque felizes são todos que esperam Nele” (Cf. Is 30,18). 

Os navegantes sempre contam histórias do “canto das sereias”, que encantam os mais iludidos e os arrasta para o fundo dos oceanos. Hoje, o “canto das Sereias” ecoa pela força dos ventos das redes sociais. Muitas horas do dia têm sido dedicadas às redes e elas estão literalmente nos envolvendo e arrastando para o fundo dos oceanos das desilusões. Corremos em busca de aprovação, de estabelecer o mínimo de relação com “amigos virtuais”. Os ruídos são imensos criando uma enorme confusão onde o silêncio aparente dos aparelhos conectados dão lugar aos gritos ensurdecedores em busca de aceitação. Esses ruídos nos impedem de ouvir a Deus. Não foram poucas as vezes que quiseram “glorificar” Jesus, o reconhecendo como Messias e proclamando-o rei. E o que Ele fazia? Se recolhia em lugares desertos para orar (Lc 5,16-17). Devemos nos desconectar para ouvir a Ruah, o ruído do Espírito. 

Existem diversos ventos contrários que nos levam para longe de Deus, mas, apenas um vento, a da Ruah, o vento do Espírito nos conduz na direção certa, nos faz atravessar tempestades e chegar no porto, de mar tão profundo. Como pequeno barco na imensidão do mar, devemos deixar que o vento do Espírito nos leve para onde Deus quer. E como sabemos que estamos sendo agitados pelos ventos do Espírito? Pela estabilidade das velas. Apesar dos ventos agitarem de um lado para o outro o barco, forçando a mudanças de direção, ele sempre volta para a sua posição vertical. Os ventos do Espírito sempre nos levam para nossa posição vertical, ou seja, com os olhos para o alto. Esses ventos, agitam, mas não destroem nem viram  o barco. 

A Ruah não vem para nos fazer naufragar, mas sim nos levar por mares revoltosos a calmaria. Esses ventos sempre nos transmitem paz, alegria e principalmente, consolação: “Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das miseri­córdias, Deus de toda a consolação, que nos conforta em todas as nossas tribulações, para que, pela consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus, possamos consolar os que estão em qualquer angústia! Com efeito, à medida que em nós crescem os sofrimentos de Cristo, crescem também por Cristo as nossas consolações” (2 Cor 1,3-6).

Ore e clame ao Ruah para que o sopro do Espírito traga paz aos nossos corações! 


segunda-feira, 4 de maio de 2026

O Espírito Santo foi derramado em nossos corações

 “E a esperança não decepciona porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). 

Desde o princípio, Deus dialoga com seu povo e faz alianças. Essas alianças se dão através de promessas que se realizam em favor do povo. Com Noé, Deus salva seu povo fazendo com que os seus entrassem na arca (Cf. Gn 9). Logo após o dilúvio, o arco-íris aparece no céu como sinal da aliança. Um dos significado do arco-íris é a esperança, pois logo depois da tempestade vem a calmaria, e Deus nos lembra de sua fidelidade. “A aliança é fidelidade, é ser fiel. Fomos escolhidos, o Senhor fez-nos uma promessa, agora Ele pede-nos uma aliança. Uma aliança de fidelidade” (Papa Francisco).

Muitas outras alianças se estabeleceram, como a que Deus fez com Abraão, Moisés, Davi e os profetas. Não foram poucas às vezes em que essas alianças foram rompidas, mas Deus não abandonou o povo à própria sorte, e continuou a chamá-los a seguir o caminho com uma fidelidade renovada, sempre recordando: “Farei com eles uma aliança eterna e nunca deixarei de fazer-lhes o bem. Colocarei no coração deles o meu temor, para que não se afastem de mim. O meu prazer será fazer que eles sejam felizes” (Cf. Jr 32,40-41).

Mesmo no exílio quando o povo precisou reler com muita dor sua história, eles aprenderam que a única coisa que podiam fazer é esperar com confiança, porque quem crer em Deus não se ilude, “quero trazer à memória o que me pode dar esperança: as misericórdias do Senhor não se esgotam” (Cf. Lm 3,21-22).

Essa esperança já é ação de Deus no silêncio da história, pois quando parece que sua voz emudeceu, sem menos esperar, seu grito ecoa no meio das vicissitudes humanas chamando a todos para um tempo novo, “eis que estou fazendo uma coisa nova: ela está brotando agora, e vocês não percebem?” (Cf. Is 43,19). 

Na plenitude dos tempos (Cf. Gl 4,4) essa esperança ganha rosto. É o filho da Virgem de Sião, o “Emanuel” (Cf. Is 9), que anuncia o Reino de Deus e chama todos à conversão. Na ceia com seus discípulos, ele faz uma promessa a eles: “Eu não vos deixarei órfãos” (Jo 14,18). É o Espírito, o amor do Pai e do Filho que vem para gravar em cada um de nós, seus discípulos, “os mesmos sentimentos de Cristo” (Cf. Fl 2,5), Ele que é “nossa esperança” (Cf. 1 Tm 1,1).

É o Espírito Santo que derrama em nossos corações o amor de Deus. É esse amor que torna nossa esperança viva, na certeza “de céus novos e nova terra, onde habitará a justiça” (Cf. 2 Pe 3,13). É Ele quem renova as forças dos cansados, porque “até os jovens se fadigam e cansam, os moços também tropeçam e caem, mas os que esperam no Senhor renovam suas forças, criam asas como águias, correm e não se fadigam, podem andar e não se cansam” (Cf. Is 40,27-31).

“Deus é amor” (1 Jo 4,8). E o que o Espírito Santo faz? Derrama amor! Jesus nos deixou o seu novo mandamento, “amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13,34). E o que o Espírito Santo faz? Derrama amor de Deus em nossos corações! Por isso que nossa esperança não decepciona, porque ela não é uma ideia, um conceito ou sentimento, ela é uma pessoa, é o próprio Deus, que age em nós e através de nós para que o amor se derrame até transbordar renovando a face da terra (Cf. Sl 103).

Clamemos ao Espírito Santo, “Vinde Espírito Santo e renova a face da terra”.