Deus nunca
abandonou o homem à própria sorte e, em sua infinita misericórdia, quis sempre
salvá-lo. Em todo o fio que se desenrola pela Sagrada Escritura, vemos um Deus
sempre pronto a perdoar, que quer “a misericórdia e não o sacrifício”. A
aliança que Deus faz com o homem de Adão a Noé, de Abraão a Davi, de Amós a
João Batista se realizou de modo definitivo no mistério pascal de Cristo Jesus,
Nosso Senhor, que é o dom do Pai que, gratuitamente, oferta-se por nossa
Salvação. É este anúncio que Pedro faz no dia de Pentecostes a todos os
ouvintes que participavam da festa naquela ocasião: “A este Jesus (que
foi crucificado), Deus o ressuscitou, e disto nós somos testemunhas. Portanto,
exaltado pela direita de Deus, ele recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e
o derramou, e é isto o que vedes e ouvis... Saiba, portanto, com certeza, toda
a casa de Israel: Deus o constituiu Senhor e Cristo, este Jesus a quem vós
crucificastes” (At 2,32-33.36). A força do discurso do
grande apóstolo fez com que os ouvintes se perguntassem: “O que devemos fazer
irmãos?”, e Pedro prontamente responde: “arrependei-vos e batizai-vos, cada
qual invocando o nome de Jesus Cristo, para que sejam perdoados os vossos
pecados” (At 2, 38). O arrependimento nos coloca sentados à mesa no banquete do
perdão que é abundante, alimenta-nos da certeza da vida eterna e faz de nós
“novas criaturas” (2 Cor 5,17).
A parábola do
filho pródigo (Lc 15,11) ilustra bem o que queremos dizer. Essa é uma história
de perdão. O filho “pede a parte da herança que lhe cabe”, abandona a casa do
pai. Segue o seu caminho e amarga, ao longo dele, muita decepção. Ele (o filho)
colocou tudo a perder, e de repente veio a lembrança da casa do pai: “até os
empregados da casa do meu pai têm pão com fartura”. Maior do que a sua
tristeza, foi a decisão de voltar para casa do pai. Maior que a sua dúvida, foi
a alegria que invadiu o seu coração quando o pai pulou no seu pescoço,
abraçou-o e beijou-o. “Vamos fazer uma festa – disse o pai – pois esse meu
filho estava morto e voltou a viver, estava perdido e foi reencontrado”. Aqui
reluz a imensa bondade e misericórdia de Deus que, a exemplo do pai da
parábola, está sempre pronto a nos acolher, amparar, auxiliar e perdoar. É o
arrependimento e a firme decisão de voltar para a casa do Pai, que faz com que
a festa no céu comece!
A parábola
ilustra bem o que o pecado é capaz de fazer com uma pessoa. E isso é importante
que você compreenda: o pecado é uma desgraça. Conheci um jovem que morava
próximo a nossa comunidade e quis levá-lo para participar, conosco, do grupo de
oração. Ele riu, e disse que não tinha tempo para isso. Um dia saindo da missa,
esse mesmo jovem me abordou. Fiquei surpreso, pois ele lembrava o meu nome.
Pediu-me dinheiro. Sabia que era para usar droga. Sua face apresentava os
primeiros traços de desfiguração. Passado um tempo, um jovem aproximou-se do
carro que estava dirigindo e me pediu dinheiro. Custei a reconhecer: era aquele
jovem que riu do convite que lhe fiz para ir ao grupo de oração. Me deu uma
tristeza imensa. Ele já não me conhecia mais. O pecado mudou quem ele era,
transformando sua alegria em tristeza. Muitas vezes, o nosso corpo denuncia o
que o pecado faz; às vezes, não. Mas, quando abandonamos a casa do Pai, lugar
do amor e da misericórdia, nossa alma fica assim, atingida por um sono mortal,
perturbador.
Então o filho
cai em si “Pai, pequei contra o céu e contra ti”. Ele faz o seu exame de
consciência. Reconhece o mal que foi ter saído da casa do Pai. Esse
passo é muito importante em nosso processo de cura interior, pois examinamos o
que fazemos à luz dos preceitos divinos e percebemos a distância que se
estabeleceu entre nós e Deus. O que somos e o que devemos nos tornar depende do
encontro com o Deus misericordioso, revelado por Cristo, que sempre nos recebe
de braços abertos. Em meio ao nosso sono, somos despertados e, diante de nós,
aparece um espelho que, à luz do Espírito Santo, faz-nos ver quanto mal o
pecado nos faz e o quanto precisamos do perdão de Deus.
“Na casa do
meu pai há pão com abundância... vou voltar e dizer: Pai, pequei contra o céu e
contra ti...". Ele admite o erro e toma a firme decisão de voltar à casa
do Pai. Esse passo é, sem dúvida, o mais doloroso, pois envolve a aceitação de
si mesmo e a dúvida sobre a aceitação por parte dos outros. Uma vez, fazendo um
trabalho assistencial com os moradores de rua da minha cidade, perguntei a um
deles se ele não tinha casa. Ele me respondeu que sim. Então perguntei porque
ele não voltava, e ele disse: “eles não me aceitariam depois do que fiz”. Esse
exemplo ilustra a dura decisão que precisamos tomar. Além de reconhecer o erro,
precisamos ter coragem de admiti-lo. Devemos estar certos da imensa
misericórdia de Deus, “que não leva em conta nossas faltas. Se o fizesse, o que
seria de nós? Nele se encontra o perdão” (Cf.Sl 129). Tudo pode ser perdoado
desde que haja arrependimento. Um bom exemplo disso é o caso do ladrão ao lado
da cruz. Ele admitiu o erro que o levou àquela condenação e reconheceu que Jesus
não merecia isso, pois era inocente do crime que lhe havia sido imputado. A sua
consciência o acusou diante do juiz que julga com amor, por isso, ouviu o que
não esperava: “hoje mesmo estarás comigo no paraíso”. O ladrão encontrou a
salvação, sendo recebido na eternidade por aquele que espera nosso
arrependimento.
“Pai, pequei
contra o céu e contra ti, já não sou digno de ser chamado seu filho”. Diante do
mal que o filho fez a si mesmo, ele decide-se voltar à casa do pai. Quer ser
recebido pelo menos como um empregado. A condição em que se encontrava gerou
uma mudança de consciência com relação a si mesmo e ao mundo que o cercava. As
bebedeiras, orgias, comilanças, orgulho e avareza passaram a causar nele uma
tristeza que produziu arrependimento (cf. 2 Cor 7,10). Às vezes, por não
querermos enfrentar a realidade, enganamo-nos considerando que tudo vai bem.
Criamos desculpas que amenizam nossa culpa e continuamos vivendo como se não
tivéssemos feito nada de errado. Mas, chega uma hora, que não suportamos mais
essa situação. Do fundo de nossa alma, gritamos: “pequei”.
O
arrependimento exige da pessoa uma relação de confiança na bondade e
misericórdia divina. Confessar os pecados é humilhar-se diante da mão poderosa
de Deus que não nos pune, mas perdoa. No aspecto jurídico, toda a acusação da
qual eu sou culpado, deve ser punida conforme a lei. A experiência com o Cristo
ressuscitado, coloca-nos diante de outra lei, imutável, que transcende nossa
compreensão, lei que não pune, mas salva, que não condena, mas perdoa, lei
do amor, a mesma que fez com que houvesse festa na casa do pai. O anel do
dedo, as sandálias e a veste nova são sinais da dignidade que foi restaurada. É
importante levar em conta, nesse itinerário, a força dessa palavra:
RESTAURAÇÃO. Esse é um ofício do artista que quer fazer com que a obra se
assemelhe ao que era antes. Com todo o cuidado, trabalha incansavelmente para
que a obra seja contemplada da forma como foi concebida pelo criador. O divino
artista trabalha assim, para fazer com que a deformidade causada pelo pecado dê
lugar ao “homem novo”, transformado pela força do perdão.
A boa nova que
a Igreja anuncia é essa: Deus vem perdoar os pecados! Aos seus apóstolos ele
diz “o que ligares na terra será ligado no céu, e o que desligares na terra
será desligado nos céus” (Mt 16,19; 18,18; Jo 20,22s). Esse poder é exercido em
nome de Cristo, e o sacerdote quando nos recebe no confessionário faz às vezes
do Pai da parábola que celebra com alegria nossa reconciliação. A sentença que
se repete constantemente é essa: “esse meu filho estava morto e voltou a viver,
estava perdido e foi reencontrado”. Nesse encontro, somos julgados pelo amor, e
essa dinâmica do encontro nos traz de volta para a comunhão da qual nos
afastamos por causa do pecado.