Deus chamou Davi, fez dele um rei. Um artista que virou rei. Parte da arte de Davi pode ser sentida nos inúmeros salmos que ele compôs. Eles são um grito de uma alma que vive em um estado de enamoramento. Um desses salmos, atribuído ao grande Rei, conta como ele ficou depois de ofender gravemente a Deus. O amor por um momento virou horror, e o que restava a Ele era reconhecer “toda a sua iniquidade” e admitir que “praticou o que é mal aos olhos de Deus”.
Davi havia se afeiçoado a uma mulher de um dos seus generais. Tomado pela cobiça e usando de sua força, ele tomou essa mulher e a possuiu. Depois de um tempo, essa mulher chega até ele e disse que estava grávida. Davi tomou uma decisão que pôs fim a vida de Urias, seu General. Com isso, ele achava que poderia esconder seu pecado. Um pecado se somou a outro pecado para esconder um pecado. Que tragédia para uma alma nesse estado!
Já ouviu o ditado que diz que o que é ruim pode ficar ainda pior? Essa história prova isso! Davi já fez mal tomando essa mulher, e piorou ainda mais a situação, tramando a morte do seu general. Isso mostra para nós uma verdade espiritual, dolorosa e assustadora: se não reconhecemos nosso pecado e buscamos o perdão, o ruim fica pior é isso traz consequências desastrosas para toda a sociedade. E não importa quem seja, se um grande líder ou um operário de fábrica, o pecado não faz distinção de pessoas, ele simplesmente bate na alma até destruí-la completamente. Só quem para essa violência é o arrependimento, “tende piedade de mim, pois pequei”.
Podemos cair no erro de achar que os grandes não podem se fazer pequenos por seus pecado. Se a quanto muito é dado, muito será cobrado, podemos dizer que aos que são muito exigidos, esses serão mais tentados. Jesus nos dar dicas valiosas, e algumas delas devem ser ouvidas principalmente pelos que são muito exigidos. Quanto mais trabalho Jesus tinha, mais tempo para a oração ele dedicava. Se ao longo do dia ficava difícil devido as exigências da missão, ele acordava mais cedo ou dormia mais tarde para orar. É a oração que nos leva a verdadeira contrição, ao arrependimento e a conversão. Não podemos deixar de orar por mais boas intenções que tenhamos. Já diz um outro ditado, que de boas intenções o inferno está cheio!
Uma outra verdade que deve ser propagada é que Deus é perdão. Se voltarmos para Ele de coração contrito, ele nos perdoa: “meu sacrifício é minha alma penitente, não desprezeis um coração arrependido” (Sl 51,19). Nessa parte sombria da história de Davi, aparece Natã, o profeta, que sabendo de todo o ocorrido, vai até o Rei e conta uma história. Davi não entendeu que a história era sobre ele. Quando Natã diz que a história é sobre ele, sobre os pecados que ele tentou esconder, Davi chora.
Deus em sua pedagogia, nos constrange muitas vezes, envergonha. Isso é necessário. Precisamos cair em si, só assim voltamos para Deus. As vezes tentamos esconder, fingimos e até queremos nos justificar. Mas nada disso adianta. Temos que reconhecer nosso pecado e buscar a conversão. Por mais que doa, envergonhe ou seja humilhante, essa é a única forma para a vida verdadeira. Digo vida verdadeira, porque o contrário disso é mentira, e se andamos na mentira, cada vez mais nos afastamos de Deus a “verdade que liberta”.
Assim como Davi, devemos chorar nossa própria humilhação. Isso só acontece quando temos a coragem de examinar nossa própria conduta diante da cruz de Cristo. Não podemos fazer isso em nenhum outro lugar, porque só diante do crucificado somos transformados. É diante dele que a dor se transforma em louvor, “abri meus lábios o Senhor para cantar e minha boca anunciará vosso louvor” (Sl 51,17). Diante da cruz a humilhação vira exaltação e a conversão passa a ser nossa decisão.