“Então o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo”.
Prestem atenção, não foi o diabo que conduziu Jesus ao deserto e sim o Espírito Santo. Com isso podemos aprender duas coisas. A primeira: O Espírito Santo quer nos conduzir, guiar, direcionar. Se andamos com “Ele”, seguimos seus passos. Se nos afastamos dele, é porque estamos dando ouvidos ao diabo, “Não deis ocasião ao diabo" (Ef 4, 27).
O Papa Francisco em uma de suas catequeses diz “No deserto, Jesus livrou-se de satanás e agora pode libertar de satanás”. No deserto da vida ou no caminho para o monte, vamos cruzar com o diabo e ele vai nos tentar. E como podemos vencer? O Papa Francisco continua a nos ensinar: “Ou o expulsa, ou o condena, mas nunca dialoga. E, no deserto, não responde com a sua palavra, mas com a palavra de Deus. Irmãos e irmãs, nunca dialogueis com o diabo!”.
“Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, sentiu fome. Então, o tentador se aproximou e disse a Jesus: ‘Se tu és Filho de Deus, manda que essas pedras se tornem pães!’ Mas Jesus respondeu: ‘A Escritura diz: ‘Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus’”.
Sabemos que nesse tempo quaresmal (40 dias) vamos nos deparar com essa tentação. Pode parecer que seja por causa do jejum. Por vezes sim. Mas, veremos que isso pode ocorrer por outras ”fomes”. Pão é alimento. Alimento sacia. Isso é uma necessidade. Se não temos pão, sentimos fome. E para satisfazer nossas necessidades podemos ser tentados a agir de forma perversa, vil e desumana.
Podemos ser enganados a achar que vivemos só para comer. Acrescentaria ainda, para comer e beber. Vivemos em um país onde se adora uma festa. Os amigos se reúnem e rapidamente, a mesa fica cheia de aperitivos e bebidas. Quantos não acham que é isso que dá sentido a vida?! Em muitas dessas festas não há lugar para a Palavra de Deus. Logo, os que estão ali, dialogam com o diabo. E sabemos bem o que esse bate papo provoca: bebedeiras, traições, mentiras, brigas e mortes.
Jesus expulsa o diabo dizendo “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”. Então devemos ouvir a Deus e não o diabo. E como se ouve a Deus? Através da oração. A oração é diálogo. A oração é alimento. A oração alimenta a alma. Sacia. O diabo cria a ilusão de que não precisamos orar, de que não temos tempo para orar. Vamos ficando com fome e fracos e não resistimos. Caímos em tentação transformando “pedras em pães”. Isso ocorre porque vamos dando ouvidos ao diabo. É preciso dizer, basta, chega! Só que essa força não vem de nós, somos fracos, nossa força vem do Espírito Santo. Por isso, precisamos dizer primeiro, “Vem Espírito Santo”. E logo depois, comer pão de verdade. Não se esqueça que o “pão descido do céu”, é o nosso alimento. Jesus é o “pão da vida”.
“Então o diabo o levou à Cidade Santa, colocou-o na parte mais alta do Templo. E lhe disse: ‘Se tu és Filho de Deus, joga-te para baixo! Porque a Escritura diz: ‘Deus ordenará aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em nenhuma pedra.’ Jesus respondeu-lhe: A Escritura também diz: ‘Não tente o Senhor seu Deus’”.
O diabo leva Jesus ao lugar alto. Lá de cima ele vê tudo. Mais do que qualquer outro. E o diabo ainda diz mais: pode pular que nada vai te acontecer! Em outras palavras o diabo diz que nós podemos ser como “deuses”. Essa ilusão cria a ideia de que não precisamos de Deus, porque eu já sou um “deus”. Essa tem sido uma tentação que atinge principalmente relações de poder. Os que tem poder, acham que podem tudo e que nenhum mal vai atingi-los. Agem com força e criam uma relação violenta com aqueles que estão debaixo do seu poder querendo satisfazer seu prazeres. Deus e deus, precisamos escolher. Se Deus, de onde vem o verdadeiro poder, ou deus, que só exercem uma ilusão de poder.
Essa ilusão de deus pode me levar em duas direções. A primeira para dentro de mim mesmo. Neste caso, eu me acho um deus, quero ser adorado. Falsamente, acho que sou o centro, me faço o centro querendo egoisticamente ser adorado. Me transformo em um dominador. Na outra direção, adoro a criatura ao invés do Criador e passo a viver uma relação de submissão. Nessa direção, sou dominado. A consequência dessas relações de poder estabelecida por deus e deuses é a violência. Como Jesus responde a essa tentação? “Não tentarás o Senhor teu Deus”. Tentar é provocar. Provocamos a Deus quando o abandonamos, viramos as costas. Essa provocação gera distanciamento do Criador que quer que suas criaturas o sirvam com amor e para o amor. Logo para fugir do diabo, devemos servir, obedecendo ao novo mandamento que Jesus nos deixou, “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.
“O diabo tornou a levar Jesus, agora para um monte muito alto. Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e suas riquezas. E lhe disse: ‘Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar’. Jesus disse-lhe: ‘Vá embora, Satanás’, porque a Escritura diz: ‘Você adorará ao Senhor seu Deus e somente a ele servirá’”.
Só o verdadeiro Deus merece culto. Isso é a virtude da religião. E a primeira atitude dessa virtude é a adoração. De acordo com CIC adorar é “reconhecer a Deus como Deus, como Criador e Salvador, o Senhor e o Dono de tudo o que existe, o amor infinito e misericordioso”. Isso se dá oferecendo um sacrifício do tempo. Quando dedicamos tempo para Deus, nossa vida se torna uma liturgia, o ritmo passa a ser medido por uma relação de submissão libertadora. É submeter nossa existência a uma tensão constante em busca da graça santificante. O tempo passa a ser um tempo de graça. Se não escolher a graça, o que resta é a desgraça. E a maior desgraça de todas é viver longe de Deus. Como não queremos isso, devemos dedicar tempo para Deus renovando todos os dias nossos compromissos batismais.
Esse compromisso exige sacrifício. Um desses compromissos importante na luta contra o mal é o da Missa, memorial da paixão, morte e ressurreição do Senhor. O sacrifício que une o passado, presente e futuro, o finito e infinito, o efêmero e o eterno, o céu e a terra. Tem uma canção que diz assim, “comungar é tornar um perigo”. Creio que o sacrifício nos torna um perigo para os planos diabólicos que são planos de perdição, isso porque quem comunga, se salva.
Essa luta contra o mal vai nos acompanhar durante toda a vida, por isso "sejam submisso a Deus; resistis ao diabo e ele fugirá de vós" (Tg 4,7)