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sexta-feira, 6 de março de 2026

Aceite

 Aceite que nem sempre vou acertar. 

Aceite meu desejo de estar perto de quem me faz acreditar. 

Aceite minhas lembranças das brincadeiras de criança, do sol, do mar e das travessias, da mesa farta e da alegrias das boas companhias. 

 Aceite meu jeito de acreditar. 

Sim, eu creio que um dia, a paz vai correr como um rio, o perdão se derramar como chuva e a justiça crescer como semente a brotar. 

Aceite minha indignação diante da miséria e da fome, da dor e da morte, que querem por fim a esperança que insiste em perdurar. 

 Aceite minha insistência em trilhar pelas veredas de quem deixou rastros luminosos, e me negar a querer ficar na escuridão. 

Aceite minha fé no mistério do absoluto, a quem chamo de amor, a quem ouço me chamar pelo nome. 

Aceite meu amor por quem transformou vida em morte. 

Aceite que eu queira o abraço da cruz e a companhia do Ressuscitado. 

Ele me diz: "vem e segue-me". E eu respondo: "eis-me aqui".

quarta-feira, 4 de março de 2026

Na trilha da santidade

 “Felizes os que temem o Senhor, os que andam em seus caminhos. Poderás viver, então, do trabalho de tuas mãos, serás feliz e terás bem-estar.

Tua mulher será em teu lar como uma vinha fecunda. Teus filhos em torno à tua mesa serão como brotos de oliveira.

Assim será abençoado aquele que teme o Senhor.

De Sião te abençoe o Senhor para que em todos os dias de tua vida gozes da prosperidade de Jerusalém, e para que possas ver os filhos dos teus filhos. Reine a paz em Israel!” Sl 127 (128).

Andar nos caminhos do senhor é permanecer na trilha. Todo monte possui uma trilha, é um caminho que foi feito e refeito pelos pés de quem muito passou por ali. Jesus abriu essa trilha para nós porque Ele é o “caminho”, e foi seguindo os seus passos que muitos conseguiram chegar até o cume do monte. Quantos foram aqueles que pondo os olhos no Mestre, seguindo seus passos, acabaram abrindo novas trilhas. São os santos e santas, testemunhas de que é possível subir, viver a santidade neste mundo. Podemos segui-los porque através de seus exemplos vamos até Jesus.

A santidade faz parte da vida de quem quer subir. Na verdade, nossa vocação é a santidade. Deus nos chamou para a santidade. (Cf. 1 Ts 4,7). O Papa Francisco disse certa vez, que a santidade é um caminho que só pode ser percorrido sustentado por quatro elementos imprescindíveis: coragem, esperança, graça e conversão. 

Se queremos chegar, a coragem deve nos acompanhar. É uma força interior, um exercício dos sentidos espirituais que desenvolvemos para não desistir. Coragem para começar. E só adquire essa coragem quem se converte. Conversão é encontro, desses encontros que mudam a vida de uma pessoa. O encontro com Jesus faz isso, muda completamente a nossa vida, dá outra direção. Uma nova amizade nasce desse encontro, Jesus passa a ser o nosso grande Amigo. E Ele fica repetindo o tempo todo ao longo do caminho, “no mundo tereis aflições, coragem, eu venci o mundo!”. 

É preciso dar um passo de cada vez sempre com os olhos para o alto, com essa melodia nos lábios, “buscai as coisas do alto” (Cl 3,1). Ao longo do percurso vamos precisar de coragem para não desistir. São muitos os obstáculos que surgem como por exemplo, tribulações e perseguições, preocupações e ilusões (Cf. Mt 13,18) e somente os “fortes” vão conseguir vencer esses obstáculos. Essa força vem da esperança “que não decepciona” (Cf. Rm 5,5) e nos faz crer em um “novo céu e uma nova terra” (Cf. Ap 21).

Não podemos deixar de dizer que a santidade não se alcança apenas pelo esforço, é dom, é graça. Quanto mais nos tornamos amigos de Jesus, mais Ele nos concede sua graça. Paulo deseja isso aos seus amigos, “que a graça do Senhor Jesus esteja com vocês” (2 Cor 13,13). A graça nos abraça quando nos aproximamos cada vez mais de Jesus, o seguimos pelo caminho e ouvimos sua voz. Foi isso que fizeram os santos, eles se tornaram amigos de Jesus e isso transformou suas vidas.

Um exemplo para ilustrar o que estou dizendo é o do jovem Francisco. Ele era um jovem com muitas ambições, entre elas a de ser um cavaleiro. Isso era um ideal do seu tempo. Com seus amigos, ele se dedicava a festas, sendo chamado muitas vezes de “Rei dos Banquetes”. Entre fracassos e desilusões, outro ideal passou a ocupar sua vida, graças ao encontro com Jesus. Abraçou o ideal da pobreza como vocação e se transformou no grande São Francisco de Assis.

A trilha ajuda a chegar sem maiores dificuldades ao nosso destino. Não podemos esquecer da exortação do Apóstolo: “qualquer que seja o ponto a que chegamos, conservemos o rumo” (Fl 3,16).

domingo, 1 de março de 2026

Este é o meu Filho muito amado, escutai-o!

 “Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João e sobe o monte”. 

     Ele chama algumas testemunhas para subir. Ele não quis ir sozinho. Por que não? Ele quis de uma vez por todas mostrar quem era. No Batismo, o Pai declara: “tu és o meu Filho”. Já nessa cena, o Pai proclama: “este é o meu Filho amado”. Diante dessas testemunhas escolhidas ele se dá a conhecer. No Batismo o diálogo é entre o Pai e o Filho, já nessa revelação é entre o Pai e os filhos. Portanto, existe duas identidades que são conhecidas. Uma é a do Filho, que mostra sua glória, luz que se torna acessível. A outra identidade é a nossa, a de filhos, chamados a comunhão com o Pai que nos transforma pelo poder do Filho e nos faz participar antecipadamente da luz divina, pela ação do Espírito Santo até um dia vivermos essa glória definitiva no Reino de Deus.

     A luz do Cristo se manifesta diante de suas testemunhas, “em tua luz contemplamos a luz” (Sl 35,10). Ele é a “luz do mundo” (Jo 8,12) e como participantes dessa luz, somos chamados a dar testemunho dessa luz, “que brilhe vossa luz diante dos homens para que vejam vossas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos Céus” (Cf. Mt 5,16). 

      No caminho de Damasco, Saulo é envolvido por uma luz e o Cristo ressuscitado aparece a ele. Do meio dessa luz, ele ouve a voz de Cristo. Esse encontro o transforma. Depois dessa experiência, Saulo passa a ser Paulo e ele testemunha em uma de suas cartas que graças a esse encontro com Cristo “somos transfigurados nessa mesma imagem, cada vez mais resplandecente pela ação do Senhor, que é Espírito” (2 Cor 3,18). Como transfigurados, devemos andar como em pleno dia (Cf. Rm 13,13) e não de noite, na luz e não na escuridão. Nós que somos do dia devemos ser “sóbrios, revestidos com a couraça da fé e do amor e com o capacete da esperança da salvação” (Cf. 1 Ts 5,18).

      Na dinâmica do Tabor somos chamados, assim como Pedro, Tiago e João a contemplação da luz. A mesma experiência que fez Paulo no caminho de Damasco e que tantos santos fizeram em diversos momentos da história. Como nos diz o Cardeal Raniero, somos transformados naquilo que contemplamos. Irresistivelmente, proclamamos o que contemplamos porque não podemos deixar de testemunhar o que “ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos e nossas mãos apalparam” (Cf. 1 Jo 1,1). 

      Pedro não queria ir, mas o Divino Mestre disse que era preciso partir. Séculos depois Santo Agostinho refletindo sobre essa cena do Evangelho afirma que “Pedro ainda não tinha compreendido isso ao desejar viver com Cristo no monte. Ele reservou-te isto, Pedro, para depois da morte. Mas agora, ele mesmo diz: Desce para sofrer na terra, para servir na terra, para ser desprezado, crucificado na terra. Por que a vida também desceu para ser morta; o Pão desceu para ter fome; o Caminho desceu, para cansar-se da caminhada; a Fonte desceu, para ter sede, e tu recusas sofrer? Não busques tuas conveniências. Sê caridoso, prega a verdade e assim chegarás à eternidade, onde encontrarás segurança” (Sermão 78,6).

     Contemplação e ação, fé é vida, oração e trabalho devem andar juntas. Por isso, quem sobe, desce, quem vai, deve voltar em um movimento contínuo que nos leve para o alto e para baixo, na direção de Deus e do próximo.