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terça-feira, 21 de julho de 2026

O Espírito Santo nos ensina a rezar

Depois do encontro com Cristo na estrada de Damasco, Paulo não recebeu apenas uma nova missão, ele recebeu uma nova vida, onde tudo passou a ser lido a partir do mistério pascal de Cristo. Essa vida nova vai crescendo a partir de uma nova experiência de oração onde o Espírito Santo passa a orar nele e com ele, fazendo com que o Apóstolo se reconheça como “templo do Espírito Santo”. 


Vimos que algo de extraordinário aconteceu fazendo com que Saulo passasse a ser Paulo. Isso se deve ao encontro com o Cristo ressuscitado no caminho de Damasco. Esse encontro abriu caminho para outro, que foi o encontro com o Espírito Santo, que passou a ser para o Apóstolo, mestre da oração. Antes de Damasco, Saulo conhecia muitas orações, ele rezava diariamente, por exemplo, o Shemá. Depois de Damasco, ele descobriu que o Espírito Santo desperta no discípulo o desejo de orar, fazendo com que aquilo que sai lábios, tenha sido antes conhecido no coração. 


Chegada a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher (Cf. Gl 4,4)  para realizar nossa salvação. Com isso, passamos a ser filhos no Filho, “herdeiros e co-herdeiros” e podemos clamar “Abba, Pai” (Cf. Gl 4,6). E Jesus cumpre o que Ele havia dito, enviando o Espírito Santo. Paulo compreendeu que Deus habita no homem, que somos sua “morada”, lugar sagrado e que assim, podemos dialogar como “amigos” com aquele que habita em nós. Esse diálogo se transforma em uma amizade que cresce a cada dia, quando oramos. A oração  nos faz “amigos do Espírito Santo” e é a sua marca que recebemos para “garantia da nossa herança até o resgate completo e definitivo, para louvor da sua glória” (Cf. Ef 1,13-14), porque como nos disse Jesus, é Ele “que nos ensinará tudo” (Jo 14,26). 


Paulo diz que uma nova vida, segundo o Espírito, vai criar uma nova lei (Cf. Rm 8). Essa nova lei se opõe à antiga lei, onde uma leva a vida e a outra, a morte. Uma dessas leis vai crescer dentro de nós, influenciando como vamos agir. Se a lei da carne se impor,  falar mais alto, nossas ações vão ser egoístas o que irá causar inúmeros males a sociedade. Por exemplo, se formos guiados pelo ódio, o que podemos esperar? e se as intrigas, contendas e divisões prevalecerem? Pelo contrário, se a lei do Espírito nos dirigir, nossas ações serão marcadas pelo “amor, alegria, paz, paciência, bondade, benevolência, fé,mansidão e temperança” (Cf. Gl 5,22). Que lei queremos que nos guie?  

Se o Espírito Santo habita em nós devemos viver segundo o Espírito, ser guiados por Ele. E como vivemos segundo o Espírito? Paulo nos responde dizendo que devemos nos “inclinar para aquilo que é próprio do Espírito” para não sermos dominados pelos instintos egoístas. O Apóstolo nos leva a compreender a filiação divina, nossa condição de filhos, o que faz toda diferença em nosso aprendizado sobre oração. Como um filho deve se relacionar com o pai? com confiança. Por isso que através do Espírito, devemos clamar em nossa oração “Abba, Pai”, o que demonstra que temos plena confiança em Deus, queremos fazer sua vontade. Por isso nos aproximamos dele, sem medo, porque sabemos que todas as coisas concorrem para o bem dos que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o projeto dele”. 

Paulo diz que “todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus”. Ele insiste nisso porque é assim que devemos nos relacionar com Deus. Como Deus é nosso Pai, ele cuida de nós, não deixa que falte o necessário, garante o essencial para uma vida digna. E esse Espírito “que ora em nós com gemidos inefáveis” sabe do que precisamos. Diante de Deus, o que podemos fazer é se dar a conhecer, deixar que ele mesmo nos ajude neste caminho de autoconhecimento para que assim, se revele quem somos de verdade e reconheçamos nossa verdadeira condição de filhos. Nossa oração nesse sentido, passa a ser filial e nossa missão é a de manifestar ao mundo o “Pai das misericórdias” (2 Cor 1,10). 

Nossa oração ganha um outro sentido quando damos ouvidos ao que Paulo diz: “O Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis”. O que significa interceder? entre muitos significados, tomar partido. Quem intercede, discute, justifica, apresenta os motivos para a defesa daquele por quem intercede. Só se intercede porque quem se acredita. Se eu não acredito, se não dou valor aquela pessoa, não assumo essa causa, não tomo partido em favor dela. O Espírito Santo toma partido porque acredita em nós e quer nos fazer participantes na comunhão do Filho com o Pai. O Apóstolo em outra Carta diz que “alguém pagou um alto preço pelo nosso resgate” (1 Cor 6,20), reconhecendo nosso valor. Desse modo, quando oramos, sabemos que Deus age em nosso favor, porque quer nos santificar, “essa é a vontade de Deus, a vossa santificação” (1 Ts 4,3). A santidade só se alcança através da oração e isso é obra do Espírito Santo que ora em nós. 

São Paulo reconhece que o Espírito Santo é mestre da oração, por isso mesmo ele diz que devemos “orar incessantemente no Espírito”. Quando lemos a Parábola do Fariseu e do Publicano (Lc 18,9) aprendemos que nem toda oração é no Espírito. Por que a oração do Fariseu não agradou a Deus? porque não foi no Espírito e sim na carne, ao contrário do Publicano, que de coração reto dizia “Senhor, tende piedade de mim”. Jesus exortou duramente os seus dizendo que “nem todo aquele que me diz, Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus” (Mt 7,21). Paulo diz a uma de suas comunidades que só através do Espírito podemos dizer “Jesus é o Senhor”. 

Portanto, orar no Espírito depende de uma vida no Espírito e essa vida só se alcança buscando as coisas do alto em vez das coisas da terra (Cf. Cl 3,1). Quando buscamos as coisas do alto, vamos nos despojando do “homem velho e de suas ações, e se revestindo do homem novo que, através do conhecimento, vai se renovando à imagem do seu Criador” (Cf. Cl 3,9). Toda oração no Espírito nos conforma cada vez mais a Cristo e nos introduz em sua relação filial com o Pai fazendo com que cresça esse conhecimento e nossa vida se transforme em oração para ser uma expressão da vida no Espírito que procuramos constantemente. 

A grande descoberta de Paulo não foi apenas que o homem pode falar com Deus, mas que Deus fala no homem porque somos seu “templo”. O Espírito Santo faz com que a oração deixe de ser apenas uma obrigação religiosa e passe a ser uma uma relação filial porque só se aprende a orar, quando se aprende a viver como filho. Orar passa a ser uma ação do Espírito que nos transforma para que tenhamos os “mesmos sentimentos de Cristo” (Cf. Fl 2). Dessa forma, a vida do discípulo passa a ser uma oração permanente. 



sábado, 11 de julho de 2026

O encontro que se tornou oração

          Saulo era da tribo de Benjamim, fariseu (Cf. Fl 3,1ss). Logo, ele aprendeu a oração dos pais. Rezava como de costume, o Shemá: "Ouve, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração" (Dt 6,4-5). Esse era o Credo de Israel que devia ser proclamado no amanhecer e ao anoitecer. Essa oração era muitas vezes recitada entre as bênçãos, antes das preces. A vida do judeu seguia um ritmo marcado pela oração, toda vida deveria ser uma expressão do chamado que Adonai lhe fez: “vocês serão o meu povo,  e eu serei o vosso Deus”. Portanto, quando olhamos para Saulo, devemos reconhecer um judeu que redescobriu uma nova forma de orar, onde a experiência do mistério pascal de Cristo passou a ocupar um lugar decisivo em sua vida. 

Antes de seguir o caminho para Damasco, Saulo provavelmente recitou a oração da manhã, rogou sobre si as bênçãos do Criador que é Deus e formou o homem com sabedoria: bendito és tu Adonai, nosso Deus, Rei do universo, que liberta os amarrados e ergue os curvados”. Ele seguiu com a convicção de que fazia a vontade Deus. Como fariseu, interpretou o que ocorreu com Jesus, como uma ameaça a sua religião, por isso mesmo, se tornou um “perseguidor da Igreja” como ele mesmo declara, por causa da “observância da lei” que julgava ser cumpridor irrepreensível. 


No caminho, aconteceu o encontro que mudou completamente a sua vida. Saulo não esperava por isso, mas quis o Cristo ressuscitado aparecer a ele: “Saulo, Saulo, porque me persegues?” (Cf. At 9,1ss). Saulo responde com uma outra pergunta: “Quem és tu Senhor?”. Jesus não tardou em responder: “Eu sou aquele a quem tu persegues”. Na tradição de Israel alguns “encontros” revelam progressivamente a face de Deus, o Adonai. 


Por exemplo, nosso patriarca Jacó, nas suas idas e vindas, entre a saída e a volta para sua casa, “luta com Deus”. Depois desse encontro, Deus muda o seu nome, e ele passa a se chamar Israel. Moisés, enquanto pastoreava o rebanho, viu uma sarça em chamas, que não se consumia e do meio delas escuta o Senhor lhe chamando pelo nome. Moisés se apressa em responder: “aqui estou”. O “Deus de Abraão, Isaac e Jacó” chama Moisés para libertar o povo da escravidão. Esse Deus dialogava com Moisés como um amigo e falava com ele “face a face” (Cf. Ex 34). Assim como Jacó, Saulo depois da experiência com o Ressuscitado, passa a ser chamado Paulo, e começa a ler sua história a partir daquele que leva “a história a sua plenitude, reunindo o universo inteiro” (Cf. 1,10). Jesus, o novo Moisés, fez de Paulo uma testemunha do seu mistério de amor, “ministro de uma aliança nova, não aliança da letra, mas do Espírito” (Cf. 2 Cor 3,6).


O que fez com que Paulo tenha passado a considerar tudo “perda, diante do conhecimento de Cristo Jesus”? (Cf. Fl 3,8) O que fez com que ele suportasse prisões, fadigas, açoites, vigílias, cansaços, inúmeros perigos, violências de diversas formas por causa de Cristo? (Cf. 2 Cor 11,16-30) O encontro com o mais forte, isso transformou a vida dele de modo que ele bem podia orar como o profeta Jeremias: “Tu me seduziste, Javé, e eu me deixei seduzir. Foste mais forte do que eu e venceste” (Jr 20,7). A partir desse encontro toda a sua experiência passou a ser lida pelos olhos daquele que venceu  a morte. Sua oração tinha na pessoa de Cristo sua nova marca, sua identidade, como ele mesmo declara, “é Cristo que vive em mim” (Cf. Gl 2,20), porque ele estava convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderes, nem as forças das alturas ou das profundidades, nem qualquer outra criatura, nada nos poderá separar do amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo, nosso Senhor” (Cf. Rm 8,38-39).


Até aquele dia, no caminho de Damasco, Saulo conduzia sua vida de acordo com sua tradição espiritual, suas orações se dirigiam ao Deus de seus pais, esperando servi-lo mediante a observância da Lei. Depois do encontro com o “Senhor”, compreendeu que o mesmo Deus lhe falava através do “Filho do Deus vivo” (Cf. Mt 16,16), o Cristo ressuscitado. Sua oração não abandonou Israel; encontrou em Cristo o seu pleno cumprimento. 


Quando colocamos os olhos nessa cena da Conversão de São Paulo, vamos inevitavelmente perceber que Deus nos encontra no caminho da vida. Ele faz isso não para nos destruir, mas sim reconstruir. Quando damos ouvidos ao próprio conselho do Apóstolo, de “orar sem cessar” (Cf. 1 Ts 5,17), O Espírito Santo vai transformando nossa vida para que resplandeça aquilo que Deus quer. Dessa forma a violência vai dando lugar a paz, o ódio ao perdão. Aquilo que antes eu detestava, agora abraço como bem supremo. No encontro com Cristo, há sempre um antes e um depois, e é o Espírito Santo que nos foi dado, por Cristo Jesus, que vai derramando em nossos corações o amor de Deus (Cf. Rm 5,5) que tudo transforma. 


Podemos dizer que a oração é sempre um encontro com uma pessoa que é próprio Jesus, o Cristo, que morreu e ressuscitou, que vive e nos chama a caminhar com Ele. Nesse momento a oração deixa de ser objeto e passa a ser sujeito, não é mais um EU, mas passa a ser um TU, que inevitavelmente se transforma em um NÓS. Como diz São João Crisóstomo, Cristo não pergunta: "Por que persegues os meus discípulos?", mas "Por que me persegues?" salientado uma dimensão eclesial do encontro com Cristo que nos leva a crer que oração é comunhão, partilha. Cristo, se parte e reparte seu Espírito a todos que o buscam de coração reto, e é o mesmo Espírito que é dado a todos para que formemos um povo da luz.


Vamos aprender que Paulo não oferece um método de oração, ele não cria uma escola de oração. Sua vida é uma escola, seu testemunho, oração. Para o Apóstolo, oração é encontro, por isso, “Deus que nos ama primeiro”, toma a iniciativa de nos encontrar e o que Ele espera de nós, é deixar-se amar para sermos “transfigurados nessa mesma imagem, cada vez mais resplandecente pela ação do Senhor que é Espírito” (2 Cor 3,18). 



terça-feira, 12 de maio de 2026

O Espírito Santo, nosso Advogado

"Quando vier o Defensor que eu vos mandarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que procede do Pai, ele dará testemunho de mim" (Jo 15,26)

Muitas vezes nos vemos em uma situação de aflição e apelamos para quem possa nos socorrer, defender nossa causa. Em algumas ocasiões o tempo que temos é pouco e precisamos agir urgentemente. Em certos casos precisamos de um advogado. No Evangelho de João, Jesus diz que enviará o Paráclito (advogado) que vem para nos defender. Ele continuará a obra redentora do Filho e com seus “gemidos inefáveis” clamará continuamente por nós. Como Ele sabe que o Demônio tem “pouco tempo” e quer perder as almas, desempenha esse papel nos defendendo contra suas investidas.

Existe uma luta contínua contra “o mundo das trevas, contra os espíritos do mal que habitam as regiões celestes” (Ef. 6,12). É uma luta em primeiro lugar espiritual e não material, não começa na esfera visível mas na invisível, onde agem forças para condenar. Nem sempre nos damos conta dessa luta, por isso mesmo, não nos preparamos adequadamente para ela. Se não sabemos o que enfrentamos, somos vencidos facilmente. 

Por isso o Espírito Santo vem em nosso socorro, Ele que é “o Espírito da verdade” (Jo 14,17) vem para “desmascarar o mundo” (Jo 16,8). E isso é muito importante pois devemos abrir nossos olhos para reconhecer o pecado. Quando isso acontece, é o começo do fim porque esse mesmo Espírito cria em nós um “coração contrito e humilhado” que conduz a um verdadeiro arrependimento. Com o arrependimento, o reino do pecado vai desmoronando em nossa vida e um novo Reino passa a ser erguido, de “paz, justiça e alegria no Espírito Santo” (Rm 14,17). 

Na luta contra o mal, devemos ficar atentos porque estamos lidando contra o acusador. E o que ele faz? Acusa! Em primeiro lugar nos acusa de pecadores, quer nos fazer crer que não somos merecedores da salvação. Se dermos ouvidos a essas suas acusações, vamos nos afastar, ir para longe de Deus. Passamos a questionar o perdão, achando que não somos dignos. Mesmo como filhos, herdeiros do Reino, passamos a agir como se não tivéssemos direito algum. O “Espírito da verdade” desmascara os planos diabólicos para que vivamos como verdadeiros filhos de Deus.

Podemos nos tornar “funcionários do acusador” quando nos apressamos em condenar nossos semelhantes, julgamos sem misericórdia, agimos para destruir espalhando “verdades” ou “mentiras” para prejudicar o outro. Não me importo nem um pouco com o mal que isso possa causar, simplesmente lanço palavras com o peso do inferno para que o fogo da acusação cresça ainda mais. O nosso Advogado, o Paráclito vem para nós defender contra todas essas acusações e estabelecer novamente a paz. 

No mundo de tantas acusações, precisamos do Advogado, o Espírito Santo. “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou” (Cf. Gl 5) e é essa condição que o Espírito Santo quer criar, para que sejamos livres do pecado. Uma vida sem grades é isso que o Advogado quer nos dar, por isso mesmo Ele defende nossa causa, não deixando que a condenação pese sobre nós. Jesus nos libertou da prisão do pecado, e o Espírito Santo trabalha para que reconheçamos definitivamente essa nossa situação. 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Vem Ruah com teu sopro!

Soprou sobre eles e disse-lhes: ‘Recebei o Espírito Santo’” (Jo 20,22)

Tem uma canção que diz assim: “o mar é Deus e o barco sou eu, e o vento forte, que me leva pra frente, é o amor de Deus”. Esse amor é o Espírito Santo! Ele é vento, é Ruah!

O mar assusta e encanta, atraí e afasta. Ele tem seus mistérios, esconde suas belezas, demonstra força através da sua profundidade. Podemos interpretar o mar como Deus, mas também como o mundo. 

O mundo causa medo. Somos um pequeno barco e existem tantos ventos que sopram nos agitando de um lado para outro. Nem sempre é a Ruah, o sopro do Espírito. Quando outros ventos sopram, podemos ser empurrados para longe do porto, do lugar seguro e corremos o risco de ficar à deriva. 

Todos nós buscamos certezas, algo para se apoiar. Quanto o vento do relativismo sopra, os portos seguros deixam de existir e tudo depende do momento, do sentimento e das opiniões. Não existe porto seguro, porque o chão das verdades não existe,  o que enfraquece a fé. Quem se deixa levar por esse vento não enxerga a vela içada com os dizeres de Jesus, “eu sou a verdade” (Cf. Jo 14,6). Em Cristo, descobrimos sua Palavra da verdade, o Evangelho que salva (Cf. Ef. 1,12-13). 

No vento do imediatismo queremos chegar logo, não prestamos atenção aos processos, e ficamos presos às facilidades. Navegamos sem nos atentar aos mapas, as coordenadas geográficas deixadas pelos antepassados (Cf. Hb 11) porque o que importa é o presente. Não damos valor aos processos, aos fios que ligam o presente, passado e futuro. Os ventos do imediatismo levam ao utilitarismo. Só tem valor o que for útil. Se deixarmos esse vento nos levar, esquecemos que “debaixo do céu há momento para tudo, e tempo certo para cada coisa” (Cf. Ecle 3,1). Não são poucas as vezes, que o que mais importa, é saber esperar “porque felizes são todos que esperam Nele” (Cf. Is 30,18). 

Os navegantes sempre contam histórias do “canto das sereias”, que encantam os mais iludidos e os arrasta para o fundo dos oceanos. Hoje, o “canto das Sereias” ecoa pela força dos ventos das redes sociais. Muitas horas do dia têm sido dedicadas às redes e elas estão literalmente nos envolvendo e arrastando para o fundo dos oceanos das desilusões. Corremos em busca de aprovação, de estabelecer o mínimo de relação com “amigos virtuais”. Os ruídos são imensos criando uma enorme confusão onde o silêncio aparente dos aparelhos conectados dão lugar aos gritos ensurdecedores em busca de aceitação. Esses ruídos nos impedem de ouvir a Deus. Não foram poucas as vezes que quiseram “glorificar” Jesus, o reconhecendo como Messias e proclamando-o rei. E o que Ele fazia? Se recolhia em lugares desertos para orar (Lc 5,16-17). Devemos nos desconectar para ouvir a Ruah, o ruído do Espírito. 

Existem diversos ventos contrários que nos levam para longe de Deus, mas, apenas um vento, a da Ruah, o vento do Espírito nos conduz na direção certa, nos faz atravessar tempestades e chegar no porto, de mar tão profundo. Como pequeno barco na imensidão do mar, devemos deixar que o vento do Espírito nos leve para onde Deus quer. E como sabemos que estamos sendo agitados pelos ventos do Espírito? Pela estabilidade das velas. Apesar dos ventos agitarem de um lado para o outro o barco, forçando a mudanças de direção, ele sempre volta para a sua posição vertical. Os ventos do Espírito sempre nos levam para nossa posição vertical, ou seja, com os olhos para o alto. Esses ventos, agitam, mas não destroem nem viram  o barco. 

A Ruah não vem para nos fazer naufragar, mas sim nos levar por mares revoltosos a calmaria. Esses ventos sempre nos transmitem paz, alegria e principalmente, consolação: “Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das miseri­córdias, Deus de toda a consolação, que nos conforta em todas as nossas tribulações, para que, pela consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus, possamos consolar os que estão em qualquer angústia! Com efeito, à medida que em nós crescem os sofrimentos de Cristo, crescem também por Cristo as nossas consolações” (2 Cor 1,3-6).

Ore e clame ao Ruah para que o sopro do Espírito traga paz aos nossos corações! 


segunda-feira, 4 de maio de 2026

O Espírito Santo foi derramado em nossos corações

 “E a esperança não decepciona porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). 

Desde o princípio, Deus dialoga com seu povo e faz alianças. Essas alianças se dão através de promessas que se realizam em favor do povo. Com Noé, Deus salva seu povo fazendo com que os seus entrassem na arca (Cf. Gn 9). Logo após o dilúvio, o arco-íris aparece no céu como sinal da aliança. Um dos significado do arco-íris é a esperança, pois logo depois da tempestade vem a calmaria, e Deus nos lembra de sua fidelidade. “A aliança é fidelidade, é ser fiel. Fomos escolhidos, o Senhor fez-nos uma promessa, agora Ele pede-nos uma aliança. Uma aliança de fidelidade” (Papa Francisco).

Muitas outras alianças se estabeleceram, como a que Deus fez com Abraão, Moisés, Davi e os profetas. Não foram poucas às vezes em que essas alianças foram rompidas, mas Deus não abandonou o povo à própria sorte, e continuou a chamá-los a seguir o caminho com uma fidelidade renovada, sempre recordando: “Farei com eles uma aliança eterna e nunca deixarei de fazer-lhes o bem. Colocarei no coração deles o meu temor, para que não se afastem de mim. O meu prazer será fazer que eles sejam felizes” (Cf. Jr 32,40-41).

Mesmo no exílio quando o povo precisou reler com muita dor sua história, eles aprenderam que a única coisa que podiam fazer é esperar com confiança, porque quem crer em Deus não se ilude, “quero trazer à memória o que me pode dar esperança: as misericórdias do Senhor não se esgotam” (Cf. Lm 3,21-22).

Essa esperança já é ação de Deus no silêncio da história, pois quando parece que sua voz emudeceu, sem menos esperar, seu grito ecoa no meio das vicissitudes humanas chamando a todos para um tempo novo, “eis que estou fazendo uma coisa nova: ela está brotando agora, e vocês não percebem?” (Cf. Is 43,19). 

Na plenitude dos tempos (Cf. Gl 4,4) essa esperança ganha rosto. É o filho da Virgem de Sião, o “Emanuel” (Cf. Is 9), que anuncia o Reino de Deus e chama todos à conversão. Na ceia com seus discípulos, ele faz uma promessa a eles: “Eu não vos deixarei órfãos” (Jo 14,18). É o Espírito, o amor do Pai e do Filho que vem para gravar em cada um de nós, seus discípulos, “os mesmos sentimentos de Cristo” (Cf. Fl 2,5), Ele que é “nossa esperança” (Cf. 1 Tm 1,1).

É o Espírito Santo que derrama em nossos corações o amor de Deus. É esse amor que torna nossa esperança viva, na certeza “de céus novos e nova terra, onde habitará a justiça” (Cf. 2 Pe 3,13). É Ele quem renova as forças dos cansados, porque “até os jovens se fadigam e cansam, os moços também tropeçam e caem, mas os que esperam no Senhor renovam suas forças, criam asas como águias, correm e não se fadigam, podem andar e não se cansam” (Cf. Is 40,27-31).

“Deus é amor” (1 Jo 4,8). E o que o Espírito Santo faz? Derrama amor! Jesus nos deixou o seu novo mandamento, “amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13,34). E o que o Espírito Santo faz? Derrama amor de Deus em nossos corações! Por isso que nossa esperança não decepciona, porque ela não é uma ideia, um conceito ou sentimento, ela é uma pessoa, é o próprio Deus, que age em nós e através de nós para que o amor se derrame até transbordar renovando a face da terra (Cf. Sl 103).

Clamemos ao Espírito Santo, “Vinde Espírito Santo e renova a face da terra”.

domingo, 5 de abril de 2026

Maria Madalena, a primeira discípula

Madalena foi testemunha da dolorosa condenação do Mestre e desde aquele momento tinha muitas perguntas ainda sem respostas. Ela tinha ouvido o Mestre dizer que tudo aquilo iria acontecer, seria necessário, mas, assim como os outros discípulos, foi tomada por uma profunda dor que a ensurdeceu. Os gritos de “crucifica-o”, deviam ecoar em seus pensamentos. Até uns dias atrás, todos aclamavam Jesus como o Cristo e o som do canto, “Hosana ao Filho de Davi” se repetia fazendo ela sentir uma grande alegria. Madalena devia se perguntar como, em tão pouco tempo, um grito exultante de “Hosana” deu lugar ao grito enfurecido de “crucifica-o”. 

Mesmo com toda a dor que transpassou sua alma, Madalena foi ao sepulcro, ainda de madrugada. Ela venceu o medo. Pedro havia negado Jesus. Quase todos os discípulos tinham abandonado o Mestre na sua última hora. Todos estavam escondidos com medo do que os judeus podiam fazer com os seguidores do crucificado. Mesmo com medo, Madalena vai ao sepulcro. O que ela esperava encontrar? A dor tinha calado por um momento sua esperança, e a escuridão daquele primeiro dia da semana era um sinal de como se encontrava sua alma. O dia deu lugar a uma longa noite depois que o corpo do Mestre foi descido da cruz. A luz se apagou no madeiro. O que ela esperava encontrar? 

Acredito que Maria Madalena esperava encontrar um alento para a dor que sentia. Em sua alma já pesava a saudade. A saudade é a presença escondida na ausência sentida. Só sente saudade quem amou. É como uma refeição deliciosa. Provoca a memória afetiva: recorda tempos, momentos, risos e abraços. Sabores com gosto de eternidade. No amargor da morte, lembranças temperam a alma, suavizando mesmo que momentaneamente a dor da partida.

Madalena quando vai ao sepulcro, inconscientemente diz a si mesma, “ele não morreu, ele vive”. As lembranças tornam vivo o que já passou, fazem com que histórias sejam recontadas na memória. Nessa hora, a morte é a grande mestra. Ela traz lições aprendidas entre lágrimas que com o passar do tempo podem dar lugar a sorrisos. Isso porque significados vão sendo descobertos ao longo dessa penosa experiência. Geralmente, diante do mistério da morte nos perguntamos, “por que isso aconteceu?”. É se fazendo essa pergunta que Madalena vê chegar um desconhecido que imagina ser o jardineiro. A morte deixou seus sentidos empedernidos e a discípula não reconheceu o Mestre. 

Jesus chama Maria pelo nome e logo, os sentidos dessa discípula se abrem e ela reconhece o Mestre. “Raboni”, exclama Madalena que quer dizer “Mestre”. Sua dor deu lugar ao temor e irresistivelmente se deixou mais uma vez amar. Os seus olhos puderam contemplar uma beleza já testemunhada por Pedro, Tiago e João no Monte Tabor. Seu corpo tremeu cheio de uma alegria indescritível e ela bem que poderia repetir a mesma coisa que Pedro disse no monte: “Mestre, que bom estar aqui”. 

 A discípula se torna uma testemunha do amor que venceu o ódio, do perdão que vence toda a violência, da morte vencida pela vida. Ela provou um amor sem igual, uma força desigual que a transformou em mestra. 

Ela é mestra dos saberes que transformam. Aqueles que nascem dos encontros que acontecem no descompasso do silêncio onde nos damos a conhecer. Nesse encontro sentamos à mesa e ouvimos o Mestre mais uma vez repetir: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Maria Madalena quem sabe inspirou Paulo a dizer a seus discípulos que o que mais importa é o conhecimento de Cristo Jesus (Cf. Fl 3,8-10). 

Com Maria Madalena vamos testemunhando a espera de um novo dia quando a vida escondida se torna conhecida. Onde os olhos dos cegos se abrem, assim como o ouvido dos surdos e a boca dos mudos (Is 35,5-6; Mc 7,37). Com mãos fortalecidas e joelhos revigorados (Cf. Hb 12,12) soltamos de cima dos telhados o grito de vitória porque aquele que morreu, vive, Ele é a nossa Páscoa!



 






 

sexta-feira, 6 de março de 2026

Aceite

 Aceite que nem sempre vou acertar. 

Aceite meu desejo de estar perto de quem me faz acreditar. 

Aceite minhas lembranças das brincadeiras de criança, do sol, do mar e das travessias, da mesa farta e da alegrias das boas companhias. 

 Aceite meu jeito de acreditar. 

Sim, eu creio que um dia, a paz vai correr como um rio, o perdão se derramar como chuva e a justiça crescer como semente a brotar. 

Aceite minha indignação diante da miséria e da fome, da dor e da morte, que querem por fim a esperança que insiste em perdurar. 

 Aceite minha insistência em trilhar pelas veredas de quem deixou rastros luminosos, e me negar a querer ficar na escuridão. 

Aceite minha fé no mistério do absoluto, a quem chamo de amor, a quem ouço me chamar pelo nome. 

Aceite meu amor por quem transformou vida em morte. 

Aceite que eu queira o abraço da cruz e a companhia do Ressuscitado. 

Ele me diz: "vem e segue-me". E eu respondo: "eis-me aqui".

quarta-feira, 4 de março de 2026

Na trilha da santidade

 “Felizes os que temem o Senhor, os que andam em seus caminhos. Poderás viver, então, do trabalho de tuas mãos, serás feliz e terás bem-estar.

Tua mulher será em teu lar como uma vinha fecunda. Teus filhos em torno à tua mesa serão como brotos de oliveira.

Assim será abençoado aquele que teme o Senhor.

De Sião te abençoe o Senhor para que em todos os dias de tua vida gozes da prosperidade de Jerusalém, e para que possas ver os filhos dos teus filhos. Reine a paz em Israel!” Sl 127 (128).

Andar nos caminhos do senhor é permanecer na trilha. Todo monte possui uma trilha, é um caminho que foi feito e refeito pelos pés de quem muito passou por ali. Jesus abriu essa trilha para nós porque Ele é o “caminho”, e foi seguindo os seus passos que muitos conseguiram chegar até o cume do monte. Quantos foram aqueles que pondo os olhos no Mestre, seguindo seus passos, acabaram abrindo novas trilhas. São os santos e santas, testemunhas de que é possível subir, viver a santidade neste mundo. Podemos segui-los porque através de seus exemplos vamos até Jesus.

A santidade faz parte da vida de quem quer subir. Na verdade, nossa vocação é a santidade. Deus nos chamou para a santidade. (Cf. 1 Ts 4,7). O Papa Francisco disse certa vez, que a santidade é um caminho que só pode ser percorrido sustentado por quatro elementos imprescindíveis: coragem, esperança, graça e conversão. 

Se queremos chegar, a coragem deve nos acompanhar. É uma força interior, um exercício dos sentidos espirituais que desenvolvemos para não desistir. Coragem para começar. E só adquire essa coragem quem se converte. Conversão é encontro, desses encontros que mudam a vida de uma pessoa. O encontro com Jesus faz isso, muda completamente a nossa vida, dá outra direção. Uma nova amizade nasce desse encontro, Jesus passa a ser o nosso grande Amigo. E Ele fica repetindo o tempo todo ao longo do caminho, “no mundo tereis aflições, coragem, eu venci o mundo!”. 

É preciso dar um passo de cada vez sempre com os olhos para o alto, com essa melodia nos lábios, “buscai as coisas do alto” (Cl 3,1). Ao longo do percurso vamos precisar de coragem para não desistir. São muitos os obstáculos que surgem como por exemplo, tribulações e perseguições, preocupações e ilusões (Cf. Mt 13,18) e somente os “fortes” vão conseguir vencer esses obstáculos. Essa força vem da esperança “que não decepciona” (Cf. Rm 5,5) e nos faz crer em um “novo céu e uma nova terra” (Cf. Ap 21).

Não podemos deixar de dizer que a santidade não se alcança apenas pelo esforço, é dom, é graça. Quanto mais nos tornamos amigos de Jesus, mais Ele nos concede sua graça. Paulo deseja isso aos seus amigos, “que a graça do Senhor Jesus esteja com vocês” (2 Cor 13,13). A graça nos abraça quando nos aproximamos cada vez mais de Jesus, o seguimos pelo caminho e ouvimos sua voz. Foi isso que fizeram os santos, eles se tornaram amigos de Jesus e isso transformou suas vidas.

Um exemplo para ilustrar o que estou dizendo é o do jovem Francisco. Ele era um jovem com muitas ambições, entre elas a de ser um cavaleiro. Isso era um ideal do seu tempo. Com seus amigos, ele se dedicava a festas, sendo chamado muitas vezes de “Rei dos Banquetes”. Entre fracassos e desilusões, outro ideal passou a ocupar sua vida, graças ao encontro com Jesus. Abraçou o ideal da pobreza como vocação e se transformou no grande São Francisco de Assis.

A trilha ajuda a chegar sem maiores dificuldades ao nosso destino. Não podemos esquecer da exortação do Apóstolo: “qualquer que seja o ponto a que chegamos, conservemos o rumo” (Fl 3,16).

domingo, 1 de março de 2026

Este é o meu Filho muito amado, escutai-o!

 “Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João e sobe o monte”. 

     Ele chama algumas testemunhas para subir. Ele não quis ir sozinho. Por que não? Ele quis de uma vez por todas mostrar quem era. No Batismo, o Pai declara: “tu és o meu Filho”. Já nessa cena, o Pai proclama: “este é o meu Filho amado”. Diante dessas testemunhas escolhidas ele se dá a conhecer. No Batismo o diálogo é entre o Pai e o Filho, já nessa revelação é entre o Pai e os filhos. Portanto, existe duas identidades que são conhecidas. Uma é a do Filho, que mostra sua glória, luz que se torna acessível. A outra identidade é a nossa, a de filhos, chamados a comunhão com o Pai que nos transforma pelo poder do Filho e nos faz participar antecipadamente da luz divina, pela ação do Espírito Santo até um dia vivermos essa glória definitiva no Reino de Deus.

     A luz do Cristo se manifesta diante de suas testemunhas, “em tua luz contemplamos a luz” (Sl 35,10). Ele é a “luz do mundo” (Jo 8,12) e como participantes dessa luz, somos chamados a dar testemunho dessa luz, “que brilhe vossa luz diante dos homens para que vejam vossas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos Céus” (Cf. Mt 5,16). 

      No caminho de Damasco, Saulo é envolvido por uma luz e o Cristo ressuscitado aparece a ele. Do meio dessa luz, ele ouve a voz de Cristo. Esse encontro o transforma. Depois dessa experiência, Saulo passa a ser Paulo e ele testemunha em uma de suas cartas que graças a esse encontro com Cristo “somos transfigurados nessa mesma imagem, cada vez mais resplandecente pela ação do Senhor, que é Espírito” (2 Cor 3,18). Como transfigurados, devemos andar como em pleno dia (Cf. Rm 13,13) e não de noite, na luz e não na escuridão. Nós que somos do dia devemos ser “sóbrios, revestidos com a couraça da fé e do amor e com o capacete da esperança da salvação” (Cf. 1 Ts 5,18).

      Na dinâmica do Tabor somos chamados, assim como Pedro, Tiago e João a contemplação da luz. A mesma experiência que fez Paulo no caminho de Damasco e que tantos santos fizeram em diversos momentos da história. Como nos diz o Cardeal Raniero, somos transformados naquilo que contemplamos. Irresistivelmente, proclamamos o que contemplamos porque não podemos deixar de testemunhar o que “ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos e nossas mãos apalparam” (Cf. 1 Jo 1,1). 

      Pedro não queria ir, mas o Divino Mestre disse que era preciso partir. Séculos depois Santo Agostinho refletindo sobre essa cena do Evangelho afirma que “Pedro ainda não tinha compreendido isso ao desejar viver com Cristo no monte. Ele reservou-te isto, Pedro, para depois da morte. Mas agora, ele mesmo diz: Desce para sofrer na terra, para servir na terra, para ser desprezado, crucificado na terra. Por que a vida também desceu para ser morta; o Pão desceu para ter fome; o Caminho desceu, para cansar-se da caminhada; a Fonte desceu, para ter sede, e tu recusas sofrer? Não busques tuas conveniências. Sê caridoso, prega a verdade e assim chegarás à eternidade, onde encontrarás segurança” (Sermão 78,6).

     Contemplação e ação, fé é vida, oração e trabalho devem andar juntas. Por isso, quem sobe, desce, quem vai, deve voltar em um movimento contínuo que nos leve para o alto e para baixo, na direção de Deus e do próximo.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Venham a mim e bebam!

 “No último dia, que é o principal dia de festa, estava Jesus de pé e clamava: “Se alguém tiver sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura: ‘Do seu interior manarão rios de água viva’” (Jo 7,37-38). 

Essa festa da qual fala o autor sagrado é Sucot, a Festa dos Tabernáculos, também conhecida como festa das Cabanas ou das Colheitas. Essa festa junto com o Pessach e Shavuot, (Lv 23,33-43, Nm 29,12-38 e Dt 16,13-15) eram as principais celebrações que reuniam milhares de peregrinos em Jerusalém. Elas contavam através da sua liturgia a história de Israel. 

Inicialmente essa festa tinha um caráter agrícola e depois passou a ser um memorial pois contava um período do êxodo em que o povo vivia em tendas. No período do Segundo Templo, a festa adquiriu uma dimensão escatológica como podemos observar em Zacarias onde o profeta fala de “uma romaria de todos os povos” para Jerusalém durante a Festa dos Tabernáculos para “adorar o REI” (Cf. Zc 14,16).

Entre as muitas tradições da Festa dos Tabernáculos podemos falar do derramamento da água. O sumo sacerdote retirava água da piscina de Siloé e a derramava sobre o altar. Esse gesto era realizado durante todos os dias da festa. No último dia, Jesus grita: “Se alguém tiver sede, venha a mim e beba”. Já bem antes, o povo ouvia os profetas falarem dessa água que nos tempos messiânicos faria até mesmo o deserto se transformar em um jardim  cheio de flores e frutas. Por exemplo, o profeta Isaías diz que todos poderiam “beber nas fontes da salvação” (Cf; Is 12,3). Já o Salmista canta a história do Êxodo, quando o próprio Deus “fendeu as rochas do deserto, e deu-lhe de beber com grande manancial” (Sl 78,13). Ainda encontramos o profeta Ezequiel descrevendo uma água viva que jorra do lado do templo (Ez 47) e faz a vida crescer por onde passa. É do lado aberto de Jesus na cruz que jorra essa água da qual todos nós devemos beber e que é fonte da salvação. Olhamos para cruz e tomamos emprestado mais uma vez a oração que expressa um profundo desejo do Salmista, “minha alma tem sede de Deus” (Sl 42,3). Jesus é a água que sacia nossa sede e Ele mesmo diz, “venham a mim”.  

Se vamos até o Cristo do nosso interior “ manarão rios de água viva”. Tanto o profeta Ezequiel como Joel, descrevem essa imagem da água como fonte da vida. Isaías diz que “jorarrão águas no deserto e rios na terra seca (...) o  chão seco se encherá de fontes” (Is 35,6). Jesus diz que o Espírito Santo é essa água viva. Então é ele que jorra como um rio que cruza o deserto do nosso coração para fazer crescer um jardim onde frutos de conversão possam ser colhidos. A terra do nosso coração costuma ser árida, inóspita e mal cuidada. Se nos abrimos ao Espírito Santo, flores e frutos poderão nascer e a seu tempo a vida vai desabrochar. 

Quando flores e frutos começam a aparecer eles embelezam a paisagem. Essa água que jorra como um rio quer mudar a paisagem do lugar em que vivemos para que “a justiça e a paz se abracem” (Cf. Sl 85),  “nenhuma nação se arme mais contra a outra” (Cf. Is 2), o pão seja partido e repartido ( Cf. Mt 14,13-21; Jo 6) e o “amor, alegria, paciência, bondade, fé e temperança” (Cf. Gl, 5,22) seja nosso alimento diário. 


sábado, 21 de fevereiro de 2026

Sejamos fortes diante das tentações

 “Então o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo”.

Prestem atenção, não foi o diabo que conduziu Jesus ao deserto e sim o Espírito Santo. Com isso podemos aprender duas coisas. A primeira: O Espírito Santo quer nos conduzir, guiar, direcionar. Se andamos com “Ele”, seguimos seus passos. Se nos afastamos dele, é porque estamos dando ouvidos ao diabo, “Não deis ocasião ao diabo" (Ef 4, 27).

O Papa Francisco em uma de suas catequeses diz “No deserto, Jesus livrou-se de satanás e agora pode libertar de satanás”. No deserto da vida ou no caminho para o monte, vamos cruzar com o diabo e ele vai nos tentar. E como podemos vencer? O Papa Francisco continua a nos ensinar: “Ou o expulsa, ou o condena, mas nunca dialoga. E, no deserto, não responde com a sua palavra, mas com a palavra de Deus. Irmãos e irmãs, nunca dialogueis com o diabo!”. 

“Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, sentiu fome. Então, o tentador se aproximou e disse a Jesus: ‘Se tu és Filho de Deus, manda que essas pedras se tornem pães!’ Mas Jesus respondeu: ‘A Escritura diz: ‘Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus’”.

Sabemos que nesse tempo quaresmal (40 dias) vamos nos deparar com essa tentação. Pode parecer que seja por causa do jejum. Por vezes sim. Mas, veremos que isso pode ocorrer por outras ”fomes”. Pão é alimento. Alimento sacia. Isso é uma necessidade. Se não temos pão, sentimos fome. E para satisfazer nossas necessidades podemos ser tentados a agir de forma perversa, vil e desumana.

Podemos ser enganados a achar que vivemos só para comer. Acrescentaria ainda, para comer e beber. Vivemos em um país onde se adora uma festa. Os amigos se reúnem e rapidamente, a mesa fica cheia de aperitivos e bebidas. Quantos não acham que é isso que dá sentido a vida?! Em muitas dessas festas não há lugar para a Palavra de Deus. Logo, os que estão ali, dialogam com o diabo. E sabemos bem o que esse bate papo provoca: bebedeiras, traições, mentiras, brigas e mortes.

Jesus expulsa o diabo dizendo “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”. Então devemos ouvir a Deus e não o diabo. E como se ouve a Deus? Através da oração. A oração é diálogo. A oração é alimento. A oração alimenta a alma. Sacia. O diabo cria a ilusão de que não precisamos orar, de que não temos tempo para orar. Vamos ficando com fome e fracos e não resistimos. Caímos em tentação transformando “pedras em pães”. Isso ocorre porque vamos dando ouvidos ao diabo. É preciso dizer, basta, chega! Só que essa força não vem de nós, somos fracos, nossa força vem do Espírito Santo. Por isso, precisamos dizer primeiro, “Vem Espírito Santo”. E logo depois, comer pão de verdade. Não se esqueça que o “pão descido do céu”, é o nosso alimento. Jesus é o “pão da vida”. 

Então o diabo o levou à Cidade Santa, colocou-o na parte mais alta do Templo. E lhe disse: ‘Se tu és Filho de Deus, joga-te para baixo! Porque a Escritura diz: ‘Deus ordenará aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em nenhuma pedra.’ Jesus respondeu-lhe: A Escritura também diz: ‘Não tente o Senhor seu Deus’”. 

O diabo leva Jesus ao lugar alto. Lá de cima ele vê tudo. Mais do que qualquer outro. E o diabo ainda diz mais: pode pular que nada vai te acontecer! Em outras palavras o diabo diz que nós podemos ser como “deuses”. Essa ilusão cria a ideia de que não precisamos de Deus, porque eu já sou um “deus”. Essa tem sido uma tentação que atinge principalmente relações de poder. Os que tem poder, acham que podem tudo e que nenhum mal vai atingi-los. Agem com força e criam uma relação violenta com aqueles que estão debaixo do seu poder querendo satisfazer seu prazeres. Deus e deus, precisamos escolher. Se Deus, de onde vem o verdadeiro poder, ou deus, que só exercem uma ilusão de poder. 

Essa ilusão de deus pode me levar em duas direções. A primeira para dentro de mim mesmo. Neste caso, eu me acho um deus, quero ser adorado. Falsamente, acho que sou o centro, me faço o centro querendo egoisticamente ser adorado. Me transformo em um dominador. Na outra direção, adoro a criatura ao invés do Criador e passo a viver uma relação de submissão. Nessa direção, sou dominado. A consequência dessas relações de poder estabelecida por deus e deuses é a violência. Como Jesus responde a essa tentação? “Não tentarás o Senhor teu Deus”. Tentar é provocar. Provocamos a Deus quando o abandonamos, viramos as costas. Essa provocação gera distanciamento do Criador que quer que suas criaturas o sirvam com amor e para o amor. Logo para fugir do diabo, devemos servir, obedecendo ao novo mandamento que Jesus nos deixou, “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. 

“O diabo tornou a levar Jesus, agora para um monte muito alto. Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e suas riquezas. E lhe disse: ‘Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar’. Jesus disse-lhe: ‘Vá embora, Satanás’, porque a Escritura diz: ‘Você adorará ao Senhor seu Deus e somente a ele servirá’”. 

Só o verdadeiro Deus merece culto. Isso é a virtude da religião. E a primeira atitude dessa virtude é a adoração. De acordo com CIC adorar é “reconhecer a Deus como Deus, como Criador e Salvador, o Senhor e o Dono de tudo o que existe, o amor infinito e misericordioso”. Isso se dá oferecendo um sacrifício do tempo. Quando dedicamos tempo para Deus, nossa vida se torna uma liturgia, o ritmo passa a ser medido por uma relação de submissão libertadora. É submeter nossa existência a uma tensão constante em busca da graça santificante. O tempo passa a ser um tempo de graça. Se não escolher a graça, o que resta é a desgraça. E a maior desgraça de todas é viver longe de Deus. Como não queremos isso, devemos dedicar tempo para Deus renovando todos os dias nossos compromissos batismais. 

Esse compromisso exige sacrifício. Um desses compromissos importante na luta contra o mal é o da Missa, memorial da paixão, morte e ressurreição do Senhor. O sacrifício que une o passado, presente e futuro, o finito e infinito, o efêmero e o eterno, o céu e a terra. Tem uma canção que diz assim, “comungar é tornar um perigo”. Creio que o sacrifício nos torna um perigo para os planos diabólicos que são planos de perdição, isso porque quem comunga, se salva. 

Essa luta contra o mal vai nos acompanhar durante toda a vida, por isso "sejam submisso a Deus; resistis ao diabo e ele fugirá de vós" (Tg 4,7)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O pecado de Davi

     Deus chamou Davi, fez dele um rei. Um artista que virou rei. Parte da arte de Davi pode ser sentida nos inúmeros salmos que ele compôs. Eles são um grito de uma alma que vive em um estado de enamoramento. Um desses salmos, atribuído ao grande Rei, conta como ele ficou depois de ofender gravemente a Deus. O amor por um momento virou horror, e o que restava a Ele era reconhecer “toda a sua iniquidade” e admitir que “praticou o que é mal aos olhos de Deus”.

     Davi havia se afeiçoado a uma mulher de um dos seus generais. Tomado pela cobiça e usando de sua força, ele tomou essa mulher e a possuiu. Depois de um tempo, essa mulher chega até ele e disse que estava grávida. Davi tomou uma decisão que pôs fim a vida de Urias, seu General. Com isso, ele achava que poderia esconder seu pecado. Um pecado se somou a outro pecado para esconder um pecado. Que tragédia para uma alma nesse estado! 

     Já ouviu o ditado que diz que o que é ruim pode ficar ainda pior? Essa história prova isso! Davi já fez mal tomando essa mulher, e piorou ainda mais a situação, tramando a morte do seu general. Isso mostra para nós uma verdade espiritual, dolorosa e assustadora: se não reconhecemos nosso pecado e buscamos o perdão, o ruim fica pior é isso traz consequências desastrosas para toda a sociedade. E não importa quem seja, se um grande líder ou um operário de fábrica, o pecado não faz distinção de pessoas, ele simplesmente bate na alma até destruí-la completamente. Só quem para essa violência é o arrependimento, “tende piedade de mim, pois pequei”. 

     Podemos cair no erro de achar que os grandes não podem se fazer pequenos por seus pecado. Se a quanto muito é dado, muito será cobrado, podemos dizer que aos que são muito exigidos, esses serão mais tentados. Jesus nos dar dicas valiosas, e algumas delas devem ser ouvidas principalmente pelos que são muito exigidos. Quanto mais trabalho Jesus tinha, mais tempo para a oração ele dedicava. Se ao longo do dia ficava difícil devido as exigências da missão, ele acordava mais cedo ou dormia mais tarde para orar. É a oração que nos leva a verdadeira contrição, ao arrependimento e a conversão. Não podemos deixar de orar por mais boas intenções que tenhamos. Já diz um outro ditado, que de boas intenções o inferno está cheio! 

     Uma outra verdade que deve ser propagada é que Deus é perdão. Se voltarmos para Ele de coração contrito, ele nos perdoa: “meu sacrifício é minha alma penitente, não desprezeis um coração arrependido” (Sl 51,19). Nessa parte sombria da história de Davi, aparece Natã, o profeta, que sabendo de todo o ocorrido, vai até o Rei e conta uma história. Davi não entendeu que a história era sobre ele. Quando Natã diz que a história é sobre ele, sobre os pecados que ele tentou esconder, Davi chora. 

     Deus em sua pedagogia, nos constrange muitas vezes, envergonha. Isso é necessário. Precisamos cair em si, só assim voltamos para Deus. As vezes tentamos esconder, fingimos e até queremos nos justificar. Mas nada disso adianta. Temos que reconhecer nosso pecado e buscar a conversão. Por mais que doa, envergonhe ou seja humilhante, essa é a única forma para a vida verdadeira. Digo vida verdadeira, porque o contrário disso é mentira, e se andamos na mentira, cada vez mais nos afastamos de Deus a “verdade que liberta”. 

     Assim como Davi, devemos chorar nossa própria humilhação. Isso só acontece quando temos a coragem de examinar nossa própria conduta diante da cruz de Cristo. Não podemos fazer isso em nenhum outro lugar, porque só diante do crucificado somos transformados. É diante dele que a dor se transforma em louvor, “abri meus lábios o Senhor para cantar e minha boca anunciará vosso louvor” (Sl 51,17). Diante da cruz a humilhação vira exaltação e a conversão passa a ser nossa decisão.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Jesus e o leproso

Hoje acordei com o frio da madrugada entrando pelos rasgões da minha túnica. Na solidão de mais uma noite, me aproximei dos meus amigos, e no meio do amontoado de malditos, procurei me aquecer.

Sinto falta da minha casa.

Sinto falta da voz da minha esposa, dela me chamando para consertar a mesa ou me dizendo para amassar o pão. Todo dia o vento traz o cheiro do pão e me vejo envolto em lágrimas com saudade do meu lar. Isso doe mais do que minhas feridas purulentas. 

Desde que o sacerdote me declarou impuro, tudo mudou.

Não posso entrar na cidade.

Não posso abraçar ninguém.

Não posso nem caminhar em silêncio: quando alguém se aproxima, preciso gritar “Impuro! Impuro!” — o que aumenta ainda mais a humilhação. Ninguém quer saber quem eu era ou o que fazia, eles simplesmente me querem longe, bem longe.

Entre nós existe um sacerdote que também sofre por causa da lepra. De vem em quando ele nos senta e conte várias histórias. A que eu mais gosto é de Naamã. Ele era como eu, um leproso. E foi curado pelo profeta Eliseu. Quando ele conta essa história, me encho de esperança e me pergunto: será que um dia eu serei curado? 

De repente, sou acordado desse sonho com uma pedra arremessada na minha direção. Alguns que vem passando próximo, gritam: “sai do meio, se afaste”. Eles nem mesmo conseguem olhar. Tem medo. A lei nos obriga e ir para longe. Para longe mesmo! Nosso lugar é longe de casa, junto com tantos outros que tem que aprender a viver afastado.

O pior não é a pele que apodrece, não é o mal cheiro das feridas. É o coração. Ferido, machucado, cheio de dor por causa da exclusão. Não temos direito de ir a nossa casa, nem ao templo. Para todos que nos vêem só resta uma certeza: “eles foram amaldiçoados por Deus!”. Então, o que fazer?

Indo para minha aldeia, vi de longe, um grupo que discutia. De longe escutei que eles falavam de um Rabi que passava pelos povoados e havia curados a muitos doentes. - Vocês lembram do filho do Nemias? Ele era cego e foi curado! Ele voltou a enxergar!

- E o filho do Silas? Vocês viram? Ele chegou carregando sua maca! Ele era paralítico e voltou a andar! 

- Ele é um profeta, um grande profeta! Ele age com o poder de Elias!

Todos falavam dele com entusiasmo. Mas, algo me chamou a atenção mais do que os milagres narrados. Foi quando alguém contou que ele havia dito que Deus não abandona ninguém.

Quando ouvi isso, gritei de longe: “qual o nome dele? Onde o encontro?”. Alguém se dignou responder: o nome dele é Jesus e ele foi na direção da Judéia.

Não sei se é verdade o que estão dizendo. Já ouvi tantas histórias, e essa que diz que Deus não abandona?! Nós fomos abandonados! Que Deus é esse que quer saber de nós? Eu não parava de pensar naquilo que ouvi. 

Cheguei na aldeia e contei o que ouvi. Antes de terminar, um dos meus amigos gritou:

- Lembra daquele homem que se dizia o Messias. Ele era da tribo de Benjamin. Dizia que Deus amava a todos. Ele leu até mesmo o cântico do Servo sofredor do profeta Isaías. Eu achei que podia me aproximar pelo menos para ouvir. Quando cheguei perto, ele gritou: “se afaste amaldiçoado!”. Fui apedrejado pelos que o seguiam.

Eu disse logo em seguida:

- Ele pode ser diferente! 

Muitos riram e foram se afastando. Mas, o antigo sacerdote olhou para mim e disse:

- Quem sabe ele não é um profeta como Eliseu, discípulo de Elias. 

Minha esperança se renovou e sai correndo dali querendo ver se chegava até onde Jesus se encontrava. 

No caminho imaginava como seria sentar a mesa para comer junto com meus filhos. Celebrar a Páscoa mais uma vez, contando para eles como foi aquela noite em que Deus libertou o povo com seu braço forte.

Eu estava à beira do caminho quando vi alguns poucos que viam na minha direção. De longe escutei alguem dizer: “Jesus”. Eu logo respondi pra mim mesmo: “É ele!”. Com minhas mãos trêmulas e os joelhos cambaliantes sai ao seu encontro. Os poucos que vieram comigo recuaram, mas eu não. Caí de joelhos com medo do que podia acontecer e disse com a voz embargada:

- Senhor, se quiseres, podes me purificar.

Não ousei levantar os olhos. 

Mas Ele se aproximou.

E então aconteceu o que eu jamais teria imaginado.

Ele me tocou.

Ninguém fazia isso há anos.

Senti como se suas mãos tivessem transpassado minha alma. 

Ele disse com sorriso no rosto:

- Eu quero. Fica limpo.

Foi como se uma água viva curasse meu corpo. Olhei para mim e vi que não havia mais feridas. Parecia uma água com bálsamo que fez eu sentir um cheiro agradável. 

Chorei como criança.

Tinha que ir até ao sacerdote mas meu maior desejo era voltar para casa. Corri então até lá. Quando eles me viram de longe gritaram:

- Não se aproxime! 

Eu cheguei perto e disse:

 - Ele meu curou! Vejam!

Meus filhos correram na minha direção e me abraçaram. O quanto esperei por isso.

Hoje 

posso entrar na cidade.

Posso entrar no templo.

Posso sentar a mesa.

Para todos os que encontro pelo caminho não me canso de repetir: “vinde a mim todos vós”, disse Jesus. 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O Mestre do louvor

Naquela mesma hora, Jesus exultou de alegria no Espírito Santo e disse: “Pai, Senhor do céu e da terra, eu te dou graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, bendigo-te porque assim foi do teu agrado" (Lc 10,21). 

 O Espírito Santo é mestre do louvor. No Antigo Testamento os Salmos são uma expressão desse movimento interior que faz a alma se elevar até o Criador. Como criaturas, reconhecemos que todas as obras criadas são uma expressão da bondade do Criador. “São numerosas as obras de Javé! todas ele fez com sabedoria” (Cf. Sl 104,24). Por isso, com elas aprendemos que o Criador dispôs de tudo para o nosso bem e através delas podemos viver com dignidade. Cremos que “o céu manifesta a glória de Deus e o firmamento proclama a obra de suas mãos" (Sl 19,2), e a contemplação de tudo o que existe nos enche de alegria e nos leva a cantar os louvores do Senhor, “alegre-se com seu Criador” (Cf. Sl 150,2).  

São Francisco em sua espiritualidade ecológica, compôs um cântico que pode ser lido junto com o poema da criação que encontramos no livro do Gênesis (Cap. 1 e 2) que reconhece que tudo é “bom”. Os louvores das criaturas, que faz São Francisco começa chamando o Pai de “Altíssimo, omnipotente e bom Senhor” e chama todos a prestar a Ele o “louvor, a glória, a honra e toda benção”. A relação cósmica do Poverello com o Criador o faz saudar as obras criadas como Fratello, “irmão”, e o que nasce dessa experiência é a ação de graças. 

 O salmista quando contempla “o céu, a obra de seus dedos” (Sl 8,4) atesta a dignidade do ser humano coroado pelo próprio Criador “de glória e esplendor”. Entre as criaturas dotadas de razão, Jesus louva os “pequeninos” e não os “sábios e inteligentes”. Exultando no Espírito Santo, Jesus louva pelos pequeninos. Então, se você quer ser cheio do Espírito Santo, deve olhar para os pequeninos e aprender o louvor que nasce dessa contemplação. 

Nas andanças de Jesus, ele percebeu que os “sabidos” do seu tempo, não conseguiam compreender seu projeto. Muitos até mesmo se opuseram. Já os marginalizados iam ao seu encontro. Nos Evangelhos podemos facilmente ver Jesus sendo seguido por cidadãos que eram impedidos de participar da vida comunitária pela força da lei que os excluía. Os pequeninos são aqueles que se abrem ao projeto de Jesus, o seguem, testemunham sua palavra. São mulheres que o seguiam (Cf. Lc 8,3), leprosos, surdos e cegos curados que proclamavam suas “maravilhas”. Viúvas e crianças que são enxergadas, prostitutas e publicanos que vão preceder os “sabidos” no Reino de Deus (Cf. Mt 21, 31-32). 

O louvor que nasce da contemplação dos “pequeninos” é um reconhecimento daqueles que confiam em Deus e se entregam completamente ao seu projeto de salvação. Humildemente, transformam sua pobreza em riqueza e passam a falar uma nova língua, a da “cruz” (Cf. 1 Cor 1, 17ss) e a andar com roupas novas “por que ele me vestiu de salvação, cobriu-me com o manto da justiça” (Cf. Is 61,10) e exalar “o bom perfume de Cristo” (Cf. 2 Cor 2,15). 

É o Espírito que nos leva à contemplação do Criador e das criaturas, “para o louvor da sua glória” (Ef 1,6) e a transformação do mundo em que vivemos. Isso vai acontecer através da adesão ao projeto de Jesus que nos coloca entre os “pequeninos” e do louvor que nasce dessa escolha. O louvor inverte a lógica do mundo adoecido pelo egoísmo e renova a esperança de novos tempos marcado pela “justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Cf. Rm 14,7).

domingo, 18 de janeiro de 2026

Eis o Cordeiro de Deus

 Leia o Evangelho de hoje: João 1, 29-34.


Naquele tempo, João viu Jesus aproximar-se dele e disse: 'Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Dele é que eu disse: Depois de mim vem um homem que passou à minha frente, porque existia antes de mim.Também eu não o conhecia, mas se eu vim batizar com água, foi para que ele fosse manifestado a Israel'. E João deu testemunho, dizendo: 'Eu vi o Espírito descer, como uma pomba do céu, e permanecer sobre ele.Também eu não o conhecia, mas aquele que me enviou a batizar com água me disse: `Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer, este é quem batiza com o Espírito Santo'. Eu vi e dou testemunho: Este é o Filho de Deus!'


- Palavra da Salvação

- Glória a Vós, Senhor


     João viu Jesus se aproximar e se apressou em dar seu testemunho: “Eis o CORDEIRO DE DEUS". O cordeiro possui um papel central na teologia judaica, principalmente nos sacrifícios rituais realizados no templo e na celebração da Páscoa.

     A Páscoa, ou Pessach, é a celebração que recorda a libertação do povo judeu da escravidão no Egito. Antes de sair do Egito, cada família deveria sacrificar um cordeiro sem defeito e marcar suas casas com o sangue do animal. Este ato serviria como um sinal para que o anjo passasse adiante e poupasse as famílias judaicas durante a última praga que caiu sobre o Egito. Além disso, no serviço ritual do templo, um cordeiro era imolado pela manhã e outro a tarde associado ao sacrifício pela expiação e purificação dos pecados do povo. 

    Portanto, o cordeiro tornou-se símbolo de salvação operada por Deus em favor do seu povo e da necessidade de expiação, sacrifício e purificação dos pecados. 

     Quando João diz que Jesus é o “Cordeiro de Deus” ele atesta que Nele, o Cristo, os nossos pecados são perdoados e por meio do seu sacrifício, nossa salvação se dá de uma vez por todas. O autor da Carta aos Hebreus, reflete sobre a força desse sacrifício, que sela para todo sempre uma nova aliança, pelo sangue do “Cordeiro de Deus”. 

       O testemunho de João é um convite para irmos ao encontro do “Cordeiro de Deus”. O nosso sacrifício consiste em ir até ele, segui-lo pelo caminho, não se desviar, permanecer junto dele. E como fazemos isso? principalmente através da oração. 

       Existem três lugares onde podemos facilmente achá-lo. Primeiro, dentro de si mesmo. Para esse primeiro encontro, é preciso percorrer o caminho que vai até o coração. Ouça o que o próprio Jesus diz: “Quando orardes, entra no teu quarto, fecha a porta…” Isso quer dizer, fique a sós com Ele. Esse é um diálogo que vai se dar no templo interior, lugar da necessária solidão. 

       O segundo lugar é a Igreja, lugar de encontros, onde chego a Deus por meio do sacrifício de outros que se oferecem através do seu serviço a liturgia, principalmente os sacerdotes, que na pessoa de Cristo (in persona Christi), imolam o sacrifício espiritual para nossa salvação. Esse é o lugar de santos e pecadores, da comunidade reunida em torno da mesma fé, que é sustentada pela pela ação do Espírito Santo que transforma esse edifício feito por mãos humanas em um edifício espiritual. 

      E por fim, por meio do serviço aos pobres. É o próprio Jesus que conta uma parábola (Mt 25,31ss) para ilustrar que devemos reconhecer o próprio Cristo na pessoa do pobre. O Papa Leão XIV, insiste em olhar para o mistério do próprio Salvador que “se fez pobre, nasceu segundo a carne como nós e reconhecemo-lo na pequenez de uma criança recostada numa manjedoura e na extrema humilhação da cruz, onde partilhou a nossa radical pobreza, que é a morte. Por isso, compreende-se bem por que se pode falar, também teologicamente, sobre uma opção preferencial de Deus pelos pobres”. 

domingo, 23 de novembro de 2025

Cristo é Rei!

     Hoje é a Festa de Cristo Rei. Cristo é Rei! Quem é rei, tem um reino. Que reino é esse? "O meu reino não é deste mundo, disse Jesus a Pilatos. Se não é deste mundo, de qual mundo é? Antes de responder a essa pergunta é importante lembrar que essa categoria de REI acompanhou a trajetória do povo de Israel. Davi, era a imagem do rei que o povo esperava que viesse estabelecer o "governo de Deus" na terra. Inúmeros Salmos chamados de "régios" foram usados para a entronização de reis e com a fim da monarquia passaram  ser rezados na expectativa do rei messiânico que iria reestabelecer o reino de Deus (Salmos 2, 20; 21; 45; 72; 110 e 132). Inclusive, esse anseio é demonstrado pelos discípulos quando interrogam o Ressuscitado: "É agora que irás restaurar o reino de Israel?" (Cf. At 1,6). 

    Jesus ao longo de sua vida pública contou várias parábolas sobre o Reino de Deus. No Evangelho de Mateus encontramos sete parábolas que ilustram o que é o Reino e quais expectativas devemos alimentar em nossa vidas. Por exemplo, Ele chama a atenção para o verdadeiro tesouro que na verdade, é Ele mesmo, que nos "enriquece com sua pobreza" (Cf. 2 Cor, 8,9). Assim, ricos de sua graça, devemos ficar debaixo da árvore que cresce mais do que todas as outras, e chamar outros para ficar debaixo de sua sombra. 

    Ainda sobre o Reino é importante lembrar que em outra parábola o Rei vai separar uns a direita e outros a esquerda, e essa separação se dará de acordo com a forma que tratamos os com fome, sede, nus, encarcerados, peregrinos e enfermos (Cf. Mt 25,31). Na mesma direção, quando os Apóstolos discutiam relações de poder (Cf. Mt 20,20) Jesus encerra a discussão dizendo que as relações de poder entre nós, cristãos, deve se basear no serviço prestado aos outros. 

    São Paulo diz categoricamente em que consiste o Reino:  “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17); “Porque o reino de Deus consiste não em palavra, mas em poder” (1 Cor 4.20). Esse poder da qual fala Paulo é aquele que vem da cruz (Cf. 1 Cor 1-2) perfeita entrega em favor da salvação de toda a humanidade. 

     Voltando a pergunta inicial podemos dizer que o Reino na qual Jesus é Rei é espiritual e não material. Não está relacionada às categorias políticas e sociais que regem esse mundo mas sim ao processo de metanoia, onde vamos alcançando um novo coração (Cf. Mt 11, 28) capaz de amar. Assim, nossas relações vão se fundamentar em outra lógica onde o egoísmo, a ganância e a violência dão lugar a partilha, caridade e paz. 

       Jesus é Rei, e seu reino não terá fim. Ele, um dia, vai estabelecer seu reino glorioso onde não haverá mais choro nem lágrimas (Cf. Ap 22) e a paz e alegria serão eternas. Até lá, deixemos nosso coração ser o trono e o Rei dos reis, reinar soberano em nossos corações. 


quarta-feira, 22 de outubro de 2025

50 anos da RCC - um pouco de história

 

No período em que a Renovação Carismática chega a Fortaleza, a cidade está vivendo sob o “ciclo dos coronéis”. A ditadura militar conhece o seu apogeu através do ilusório milagre econômico brasileiro. Os governadores estaduais são indicados pelo Presidente da República. Através de atos institucionais decretados pelo poder executivo, muitas pessoas foram presas, inclusive aqui em Fortaleza: jornalistas, médicos operários, professores, estudantes, religiosos, oposicionistas permaneciam no 23BC até segunda ordem.
Diante desse cenário, a Renovação cresce “por fora”, com uma preocupação estritamente eclesial, pois o movimento carecia de legitimação por parte dos poderes eclesiásticos, que olhavam com certo desdém para as atividades realizadas nos grupos de oração. Essa atitude se reproduzi também em Fortaleza. 
Na década de 70 chega da África ao Brasil, um missionário chamado Pe. Philippe Prevost[1], que começou a realizar experiências de oração na cidade, com grande atuação no movimento dos cursilhos, preparando o terreno para a chegada da RCC em Fortaleza, tanto que muitos dos que fizeram a primeira experiência do ‘batismo no Espírito Santo’ eram cursilhistas. Essa relação entre esses dois movimentos se evidenciou em vários lugares onde a Renovação se desenvolveu.
A Renovação chega a Fortaleza em 1975. Em um final de semana estavam reunidos alguns religiosos e religiosas e pessoas que participavam dos cursilhos de Cristandade, de 23 a 25 de Junho, onde o Pe. Eduardo Dougherty pregou o primeiro Seminário de Vida no Espírito Santo. Foram três noites de palestras no Cenáculo. Estavam entre eles Horácio Dídimo, Eduardo Bezerra Neto, Irmã Ribeiro e Vânia Torres.
Em Julho de 1975, Horácio Dídimo e sua esposa, participam de uma noite de oração carismática na casa de retiro São Francisco, em Salvador, Bahia, com a presença da Irmã Sara e Frei José, que os entregam posteriormente, algumas instruções para a realização dos Seminários de Vida no Espírito Santo. Ao chegar a Fortaleza, eles entregam o material ao Pe. Philippe.
Em Agosto de 1975, tem início o primeiro Seminário de Vida coordenado pelo Pe. Philippe, no Colégio Santa Cecília. Era um seminário de sete semanas, que reduzia-se ao Querigma, momentos de silêncio interior e partilha dos dons, mesmo que o seu uso não fosse tão difundido.
O primeiro tema abordado, segundo a organização do próprio Pe. Philippe e registrados nos seus cadernos de anotação pessoal, era o amor de Deus, continuando com o tema da salvação realizada por Cristo Jesus, a vida nova que o Senhor quer nos comunicar, uma oração de cura interior, a imposição das mãos pedindo a efusão do Espírito Santo, o crescimento que se espera de cada pessoa e a transformação em Cristo que acontece a cada dia através de uma renovação permanente. Os que participavam do Seminário eram orientados a seguir durante a semana um manual para os participantes dos Seminários de Vida no Espírito Santo publicado pelas edições Loyola.
Ainda em outubro de 1975, vai se realizar vários outros Seminários, coordenados pelo Pe. Philippe, Irmã Ribeiro e Irmão Henrique.
O Pe. Philippe ainda organizava experiências de oração no Espírito Santo em três etapas: a 1o experiência consistia na “Vida no Espírito Santo”, a experiência seguinte “A figura de Cristo contemplada no Espírito Santo” e por último a “Espiritualidade de evangelização”. Após essas experiências de oração no Espírito Santo ele aconselhava que as pessoas procurassem freqüentar algum grupo de oração na cidade. Em 1979, já era 40 o número de grupos de oração que se encontravam semanalmente.
No Informativo da RCC, Emmir Nogueira[2] conta que quase ao mesmo tempo em que o Pe. Eduardo pregava, tinha chegado Zilah Maciel ao Pirambu, hoje Cristo Redentor, para ficar alguns meses.  Pe. Caetano, quando chega da Bélgica, encontra-se com Zilah Maciel, leiga paulistana, que já formava um grupo de carismáticos nessa região.
Pe. Batista[3] conta, que já depois de ter conhecido a RCC, foi convidado a participar de um retiro para sacerdotes ligados a Renovação em Salvador, mas como não podia, perguntou ao Pe. Caetano, em um encontro do clero, “você conhece a RCC? Respondeu o Pe. Caetano: não ouvi falar. Pois vai a um retiro no meu lugar, que lá você vai aprender. Pe. Caetano aceitou e quando voltou começou a desenvolver a grande obra do Espírito no Pirambu, que continua até hoje”. 
No norte de Fortaleza, Pe. Batista Poinelli, foi um grande incentivador da RCC. Ele, junto   com Pe. Philippe pregou vários Seminários de Vida em Fortaleza.
Conversando com Pe. Batista, ele me disse que em 1975, quando decorava a Igreja para o natal, levou uma queda da escada e fraturou o colo do fêmur, tendo que ser hospitalizado. No ano seguinte, ainda se recuperando e andando de muletas, foi convidado para participar de um encontro no Cenáculo. Ele aceitou o convite, “era um jovem Pe. Americano, chamado Eduardo, que começou a falar da Renovação Carismática, do ‘Batismo no Espírito Santo’ voltei para casa na primeira noite, sem entender nada. Toda noite iam me buscar em casa para participar desses encontros. Após essas três noites de encontro, começamos a Renovação Carismática na Igreja de Nazaré”.
No sul, chegaram alguns Irmãos Canadenses por intermédio do Pe. Philippe. Eram eles: Ir. Mauricio, Michel e Ivo. A essa altura o Ir. Mauricio Labonté, que era missionário canadense começou a evangelizar os jovens a partir da espiritualidade da RCC, fundando o Grupo de Oração João XXIII, na capela das Irmãs Missionárias, na Aldeota, anos depois ficando sob a coordenação de Lucia Nogueira de Medeiros.
A década de 70 foi um período difícil para a Renovação Carismática. Essa nova expressão eclesial começava a se desenvolver. Conversando com Iolanda Fialho[4], ela me disse que nesse período não existia ainda literatura a respeito da RCC, “se ouvia as palestras, líamos a Bíblia e usávamos o livro de cânticos louvemos ao Senhor”. Emmir Nogueira[5] conta que o acesso a Bíblia não era tão fácil “naquela época para conseguir uma bíblia tinha que vir do Rio de Janeiro. Era preciosíssima uma Bíblia, pois era difícil consegui-la. Nossa turma ainda hoje guarda a primeira Bíblia, pois ela teve para nós um valor inestimável”.

Grupos de 1º fase de crescimento, com no máximo 50 pessoas, onde o objetivo principal era a prática dos carismas (1 Cor 12,1-12); grupos de 2º fase de crescimento com o objetivo de uma instrução na doutrina católica; grupos de 3º fase de crescimento onde as pessoas são incentivadas a viver o discipulado, fazendo um caminho de santidade. Essas fases de crescimento tinham pelo menos quatro aspectos fundamentais: Estudo bíblico, oração pessoal, partilha de vida e ministérios (como se chama ainda hoje os serviços realizados dentro e fora do grupo de oração).
Era o período do desenvolvimento da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais de Base, que na América Latina teve grande repercussão no meio do clero. Havia dificuldades de convivência entre essas duas expressões eclesiais. Emmir testemunha uma vez que foi expulsa da Igreja de São Benedito, onde o sacerdote dizia “sai porque você não é Igreja e a RCC não está no plano de pastoral orgânico paroquial. Retire-se daqui com seu povo! Eu sai com todos os coordenadores de grupo de oração atrás de mim. Lá fora faixas do PT. Cruzei com Maria Luiza a três dedos de mim de distância e, Deus foi muito bom, porque eu sorri para ela e disse: Deus te abençoe”[6]
Nesse período o Pe. Caetano escreve o livro A teologia da Libertação a luz da Renovação Carismática. O texto é resultado de um encontro de líderes da RCC de todo o Brasil em Campinas entre 04 e 11 de Janeiro de 1978. Nesse encontro foram feitas apreciações e criticas a respeito de um estudo feito a pedido da CNBB e com base em uma pesquisa do CERIS, realizada em 1975 e publicado em 1978 pela Editora Vozes. Mesmo nascendo no mesmo período, após o Concilio Vaticano II, Teologia da Libertação e Renovação Carismática, sempre tiveram dificuldades de entendimento. Era comum nessa época encontrar pessoas ligadas as Cebs que diziam que os carismáticos eram um bando de “alienados”, “só querem saber de rezar”, “eles constituem um grande perigo para a Igreja”, “não se engajam na luta dos pobres”, etc. O Pe. Caetano, em contrapartida, no livro citado acima, diz “Só existe libertação total, real e concreta, na medida em que o homem, assumido pelo Senhor Jesus, se liberta do seu egoísmo, de suas tensões, medos e angústias, das opressões do demônio, para se lançar na gratuidade e na disponibilidade do serviço libertador do próximo” [7]. São duas realidades eclesiais que se distanciavam cada vez mais.
Nos anos 70, vai surgir a primeira equipe de serviço da RCC, formada por Ir. Cardoso, Ir. Ribeiro e Horácio Didimo. Esse último[8] participa ainda hoje ativamente da Comunidade Face de Cristo, onde coordena um grupo de oração. Nesse período a preocupação da equipe era dupla: difundir a riqueza dessa espiritualidade e conquistar legitimação por parte do clero, já que nesse período se contava nos dedos os sacerdotes que apoiavam o movimento.
Em 1978, a primeira edição do jornal Ágape, traz a informação da primeira reunião do conselho de representantes dos grupos de oração da região no dia 1 de março, no cenáculo, com representantes dos seguintes grupos de Fortaleza: Cristo Redentor, Santo Afonso, Sagrada Família, N. S. Medianeira, Cenáculo, Santo Tomás de Aquino, João XXIII, N. S. Fátima, Espírito Santo, Noite de Oração, N. S. Piedade, N. S. do Santíssimo Sacramento, N. S. dos Remédios.
Em vários lugares começam a acontecer Seminários de Vida no Espírito Santo, e as lideranças da RCC vão sendo formadas. Em Março de 1978, o Pe. Eduardo dirigiu um retiro para cerca de 50 lideres, no cenáculo, casa de retiro que ficava em Fortaleza..



[1] Sacerdote jesuíta, que colaborou imensamente no desenvolvimento da RCC em Fortaleza.
[2] Informativo da Renovação Carismática Católica da Arquidiocese de Fortaleza - ANO XXII - Jul/Agos/2000 - no 205
[3] Pe. Batista é sacerdote Piamartino que se encontra no Brasil a vários anos.
[4] Iolanda Fialho é Assistente Social e coordenou a RCC Arquidiocesana de 2000-2006.
[5] Emmir Nogueira é Co-fundadora da Comunidade Católica Shalom que no ano de 2007 recebeu o reconhecimento pontifício, coordenando por dois mandatos de três anos a RCC arquidiocesana.
[6] Informativo da Renovação Carismática Católica da Arquidiocese de Fortaleza - ANO XXII - Jul/Agos/2000 - no 205.
[7] Tillesse, Caetano Minette. A Teologia da libertação a luz da Renovação Carismática, São Paulo, Edições Loyola, 1978, pg. 44.
[8] Horácio Dídimo foi professor do departamento de literatura da Universidade Federal de Fortaleza. É autor de vários livros entre eles: tempo de chuva, tijolo de barro, A palavra e a Palavra (amor – palavra que muda de cor), etc. Faleceu em 2018.