Muitas vezes quando começamos a orar, costumamos fazer diversos pedidos. Apresentamos inúmeras necessidade a Deus. Mas Paulo quase sempre começa a sua oração com uma ação de graças, o que revela uma espiritualidade, uma marca do Apóstolo, uma pedagogia de quem reconhece que foi “salvo pela graça” (Cf. Ef 2,5), por isso deve agradecer.
Paulo aprendeu na Escola de Israel, a fazer memória dos grandes feitos do Senhor. Através de cantos, como o de Moisés, o povo exaltava a ação poderosa de Deus que os libertou da escravidão (Ex 15). A experiência do Êxodo é fundamental para o povo de Israel, por isso diversos Salmos recontam essa história (78. 105 e 136), e essa memória fez nascer a gratidão, “Celebrem a Javé, invoquem o seu nome, anunciem entre os povos as suas façanhas!” (Sl 105,1).
Na memória do passado muitos judeus encontravam motivos para agradecer a Deus pois reconheciam sua ação na história. A história não podia ser esquecida, porque ela não era compreendida como um manual, uma enciclopédia, por isso muitos salmos ajudam a manter viva a história, lugar onde Deus realiza prodígios. Ela deve ser contada e cantada, lembrada e celebrada.
A oração de ação graças nasce desse reconhecimento de que Deus age, que Ele caminha ao lado do seu povo, “em ti confiam os que conhecem teu nome, pois não abandonas o que te procuram, Javé (...) contem entre os povos suas façanhas” (Sl 9,10). Esse Deus que libertou seu povo com seu braço poderoso demonstrou ao longo da caminhada seu cuidado e isso se transformou em uma liturgia de ação de graças: “Cantem para Javé um cântico novo! Terra inteira, cante para Javé! Cantem para Javé, bendigam o seu nome! Proclamem sua vitória dia após dia, anunciem sua glória por entre as nações,suas maravilhas a todos os povos!” (Sl 96,1).
Por causa da experiência com Cristo, no caminho de Damasco, tudo mudou na vida de Paulo. A ação de graças continua sendo uma de suas formas de orar, mas agora ela passa por Cristo, “Antes de tudo, dou graças ao meu Deus por meio de Jesus Cristo” (Rm 1,8). Paulo não deixou de rezar como judeu; aprendeu a rezar como judeu que encontrou o Messias: “Por meio do sangue de Cristo é que fomos libertos e nele nossas faltas foram perdoadas,conforme a riqueza da sua graça” (Ef. 1,8).
Grande parte das suas cartas começa com uma ação de graças. Na Carta aos Romanos, ele começa agradecendo pela fama que os romanos têm de ser uma comunidade de fé: “Antes de tudo, dou graças ao meu Deus por meio de Jesus Cristo por causa de vocês, pois a fama da fé que vocês têm se espalhou pelo mundo inteiro” (Rm 1,8). Quando ele escreve aos cristãos que estão em Corinto, ele reconhece os diversos dons da graça que foram distribuídos a essa comunidade, “Pois em Jesus é que vocês receberam todas as riquezas, tanto da palavra quanto do conhecimento” (1 Cor 1,5).
A ação de graças é uma forma de orar. Ele nasce da contemplação. Paulo aprendeu isso desde cedo. Suas comunidades enfrentaram diversos problemas e ele sabia que precisava corrigi-las, mas antes ele agradece. Vejam que a pedagogia paulina nos leva a agradecer antes de corrigir. Isso faz alguma diferença? Com certeza! O agradecimento cria uma chance maior de acolhimento do que de rejeição da correção que precisa ser feita, isso porque só agradece quem reconhece algo de bom. Quando deixamos esse ritmo ditar nossas ações, deixamos o bem falar mais alto que o mal. Não fechamos os olhos ao mal, mas com a ação de graças diminuímos a força do mal e dessa forma o enfrentamos com mais força.
Quem agradece aprende a perceber que Deus não para de agir, e se manifesta nos pequenos gestos. Isso exige uma reeducação do olhar para enxergar que Ele quer que tenhamos “vida e vida em abundância” (Jo 10,10). Nossa oração, nesse sentido, deve ser uma constante releitura da própria história à luz da economia divina que reconhece a ação de Deus que tudo faz para nos salvar.
Aprendemos a agradecer, pela própria vida que é um dom do Criador, que tudo dispõe para o nosso bem. Ele faz questão de reconhecer nossa dignidade dizendo fomos criados um pouco abaixo de Deus “coroado de glória e esplendor” (Cf. Sl 8). O próprio Deus se abaixa para nos elevar, fazendo de nós sua casa. Paulo disse aos cristãos da cidade de Corinto que somos “casa do Espírito Santo”. Ele usa essa analogia e desenvolve uma teologia que nos leva a olhar a vida com algo sagrado. Com os olhos na criação e nas criaturas, vamos subindo os degraus do conhecimento de Deus, e a primeira linguagem da oração que usamos é o da gratidão. Isso porque reconhecemos Deus como “Senhor” e cremos que Ele nos chamou “para o louvor da sua glória e da graça que derramou abundantemente sobre nós por meio de seu Filho querido” (Cf. Ef 1,6).
Paulo agradece por suas comunidades e reconhece que o Espírito Santo tem agido nelas. Como dissemos, ele não esconde os problemas, apenas procura uma forma diferente de resolvê-los, de modo que ninguém se perca. Às vezes, enfrentamos os problemas e acabamos criando mais problemas, pondo em risco a vida de toda uma comunidade, esquecendo que Jesus quer salvar a todos. Como a gratidão nos liga, faremos tudo para que essa ligação não seja rompida e permaneçamos firmes como discípulos. Podemos dizer que a gratidão salva.
Jesus nos conta inúmeras histórias para dizer que Deus não para, e age, mesmo sem percebermos. Ele age em nós e através de nós e tem realizado grandes obras ao nosso redor. Nem sempre enxergamos isso, porque não colocamos os óculos de Jesus. Temos que olhar pelas lentes Dele. Dessa forma, vão sair de nossos lábios mais facilmente tantos “obrigado”. Deus quer que nossa linguagem seja em primeiro lugar de “ação de graças”, mas para isso precisamos ser “cheios de graça”. E como isso acontece? Simples, “Como crianças recém-nascidas, desejem o leite puro da Palavra, a fim de que vocês, com esse leite, cresçam para a salvação, pois já provaram que o Senhor é bom” (1 Pe. 2,2).
O Espírito Santo faz com que o sacrifício de Cristo ganhe um novo sentido, o litúrgico. A Eucaristia passa a ser nossa grande oração, “No Espírito, pelo Filho, ao Pai”. Somos chamados diariamente a celebrar essa ação de graças “do nascer ao pôr do sol” porque “é nosso dever e salvação dar-vos graças”. Inspirado na grande tradição de Israel, esse rito cria uma espiritualidade eucarística que nos leva a atitudes de gratuidade e solidariedade para com tudo que nos cercam.
Em primeiro lugar com a criação porque reconhecemos que toda ela é um grande altar onde podemos contemplar a presença do Criador. Por isso mesmo, nossa atitude fundamental é de reverência diante das obras criadas. A contemplação do altar da criação nos conduz a adoração no altar onde “Cristo, nossa Páscoa” faz crescer a vida na graça. Quem adora impõe um novo ritmo a própria vida onde o tempo passa a ser medido por uma submissão libertadora onde a existência encontra a essência. Isso nos leva ao reconhecimento da dignidade humana porque quis o Espírito Santo, fazer de nós, seu altar, “tudo o que fizestes a um dos meus pequeninos e a mim mesmo que o fizestes” (Cf. Mt 25,40).
Vimos que agradecer é aprender uma nova linguagem. A contemplação vem antes da ação, a adoração antes da agitação, os pedidos só depois dos agradecimentos. A Escola de Paulo nos leva a transformar a vida em uma grande oração de ação de graças porque só assim veremos “céus novos e terras novas”.
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