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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Jesus e o leproso

Hoje acordei com o frio da madrugada entrando pelos rasgões da minha túnica. Na solidão de mais uma noite, me aproximei dos meus amigos, e no meio do amontoado de malditos, procurei me aquecer.

Sinto falta da minha casa.

Sinto falta da voz da minha esposa, dela me chamando para consertar a mesa ou me dizendo para amassar o pão. Todo dia o vento traz o cheiro do pão e me vejo envolto em lágrimas com saudade do meu lar. Isso doe mais do que minhas feridas purulentas. 

Desde que o sacerdote me declarou impuro, tudo mudou.

Não posso entrar na cidade.

Não posso abraçar ninguém.

Não posso nem caminhar em silêncio: quando alguém se aproxima, preciso gritar “Impuro! Impuro!” — o que aumenta ainda mais a humilhação. Ninguém quer saber quem eu era ou o que fazia, eles simplesmente me querem longe, bem longe.

Entre nós existe um sacerdote que também sofre por causa da lepra. De vem em quando ele nos senta e conte várias histórias. A que eu mais gosto é de Naamã. Ele era como eu, um leproso. E foi curado pelo profeta Eliseu. Quando ele conta essa história, me encho de esperança e me pergunto: será que um dia eu serei curado? 

De repente, sou acordado desse sonho com uma pedra arremessada na minha direção. Alguns que vem passando próximo, gritam: “sai do meio, se afaste”. Eles nem mesmo conseguem olhar. Tem medo. A lei nos obriga e ir para longe. Para longe mesmo! Nosso lugar é longe de casa, junto com tantos outros que tem que aprender a viver afastado.

O pior não é a pele que apodrece, não é o mal cheiro das feridas. É o coração. Ferido, machucado, cheio de dor por causa da exclusão. Não temos direito de ir a nossa casa, nem ao templo. Para todos que nos vêem só resta uma certeza: “eles foram amaldiçoados por Deus!”. Então, o que fazer?

Indo para minha aldeia, vi de longe, um grupo que discutia. De longe escutei que eles falavam de um Rabi que passava pelos povoados e havia curados a muitos doentes. - Vocês lembram do filho do Nemias? Ele era cego e foi curado! Ele voltou a enxergar!

- E o filho do Silas? Vocês viram? Ele chegou carregando sua maca! Ele era paralítico e voltou a andar! 

- Ele é um profeta, um grande profeta! Ele age com o poder de Elias!

Todos falavam dele com entusiasmo. Mas, algo me chamou a atenção mais do que os milagres narrados. Foi quando alguém contou que ele havia dito que Deus não abandona ninguém.

Quando ouvi isso, gritei de longe: “qual o nome dele? Onde o encontro?”. Alguém se dignou responder: o nome dele é Jesus e ele foi na direção da Judéia.

Não sei se é verdade o que estão dizendo. Já ouvi tantas histórias, e essa que diz que Deus não abandona?! Nós fomos abandonados! Que Deus é esse que quer saber de nós? Eu não parava de pensar naquilo que ouvi. 

Cheguei na aldeia e contei o que ouvi. Antes de terminar, um dos meus amigos gritou:

- Lembra daquele homem que se dizia o Messias. Ele era da tribo de Benjamin. Dizia que Deus amava a todos. Ele leu até mesmo o cântico do Servo sofredor do profeta Isaías. Eu achei que podia me aproximar pelo menos para ouvir. Quando cheguei perto, ele gritou: “se afaste amaldiçoado!”. Fui apedrejado pelos que o seguiam.

Eu disse logo em seguida:

- Ele pode ser diferente! 

Muitos riram e foram se afastando. Mas, o antigo sacerdote olhou para mim e disse:

- Quem sabe ele não é um profeta como Eliseu, discípulo de Elias. 

Minha esperança se renovou e sai correndo dali querendo ver se chegava até onde Jesus se encontrava. 

No caminho imaginava como seria sentar a mesa para comer junto com meus filhos. Celebrar a Páscoa mais uma vez, contando para eles como foi aquela noite em que Deus libertou o povo com seu braço forte.

Eu estava à beira do caminho quando vi alguns poucos que viam na minha direção. De longe escutei alguem dizer: “Jesus”. Eu logo respondi pra mim mesmo: “É ele!”. Com minhas mãos trêmulas e os joelhos cambaliantes sai ao seu encontro. Os poucos que vieram comigo recuaram, mas eu não. Caí de joelhos com medo do que podia acontecer e disse com a voz embargada:

- Senhor, se quiseres, podes me purificar.

Não ousei levantar os olhos. 

Mas Ele se aproximou.

E então aconteceu o que eu jamais teria imaginado.

Ele me tocou.

Ninguém fazia isso há anos.

Senti como se suas mãos tivessem transpassado minha alma. 

Ele disse com sorriso no rosto:

- Eu quero. Fica limpo.

Foi como se uma água viva curasse meu corpo. Olhei para mim e vi que não havia mais feridas. Parecia uma água com bálsamo que fez eu sentir um cheiro agradável. 

Chorei como criança.

Tinha que ir até ao sacerdote mas meu maior desejo era voltar para casa. Corri então até lá. Quando eles me viram de longe gritaram:

- Não se aproxime! 

Eu cheguei perto e disse:

 - Ele meu curou! Vejam!

Meus filhos correram na minha direção e me abraçaram. O quanto esperei por isso.

Hoje 

posso entrar na cidade.

Posso entrar no templo.

Posso sentar a mesa.

Para todos os que encontro pelo caminho não me canso de repetir: “vinde a mim todos vós”, disse Jesus. 

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