Saulo era da tribo de Benjamim, fariseu (Cf. Fl 3,1ss). Logo, ele aprendeu a oração dos pais. Rezava como de costume, o Shemá: "Ouve, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração" (Dt 6,4-5). Esse era o Credo de Israel que devia ser proclamado no amanhecer e ao anoitecer. Essa oração era muitas vezes recitada entre as bênçãos, antes das preces. A vida do judeu seguia um ritmo marcado pela oração, toda vida deveria ser uma expressão do chamado que Adonai lhe fez: “vocês serão o meu povo, e eu serei o vosso Deus”. Portanto, quando olhamos para Saulo, devemos reconhecer um judeu que redescobriu uma nova forma de orar, onde a experiência do mistério pascal de Cristo passou a ocupar um lugar decisivo em sua vida.
Antes de seguir o caminho para Damasco, Saulo provavelmente recitou a oração da manhã, rogou sobre si as bênçãos do Criador que é Deus e formou o homem com sabedoria: “bendito és tu Adonai, nosso Deus, Rei do universo, que liberta os amarrados e ergue os curvados”. Ele seguiu com a convicção de que fazia a vontade Deus. Como fariseu, interpretou o que ocorreu com Jesus, como uma ameaça a sua religião, por isso mesmo, se tornou um “perseguidor da Igreja” como ele mesmo declara, por causa da “observância da lei” que julgava ser cumpridor irrepreensível.
No caminho, aconteceu o encontro que mudou completamente a sua vida. Saulo não esperava por isso, mas quis o Cristo ressuscitado aparecer a ele: “Saulo, Saulo, porque me persegues?” (Cf. At 9,1ss). Saulo responde com uma outra pergunta: “Quem és tu Senhor?”. Jesus não tardou em responder: “Eu sou aquele a quem tu persegues”. Na tradição de Israel alguns “encontros” revelam progressivamente a face de Deus, o Adonai.
Por exemplo, nosso patriarca Jacó, nas suas idas e vindas, entre a saída e a volta para sua casa, “luta com Deus”. Depois desse encontro, Deus muda o seu nome, e ele passa a se chamar Israel. Moisés, enquanto pastoreava o rebanho, viu uma sarça em chamas, que não se consumia e do meio delas escuta o Senhor lhe chamando pelo nome. Moisés se apressa em responder: “aqui estou”. O “Deus de Abraão, Isaac e Jacó” chama Moisés para libertar o povo da escravidão. Esse Deus dialogava com Moisés como um amigo e falava com ele “face a face” (Cf. Ex 34). Assim como Jacó, Saulo depois da experiência com o Ressuscitado, passa a ser chamado Paulo, e começa a ler sua história a partir daquele que leva “a história a sua plenitude, reunindo o universo inteiro” (Cf. 1,10). Jesus, o novo Moisés, fez de Paulo uma testemunha do seu mistério de amor, “ministro de uma aliança nova, não aliança da letra, mas do Espírito” (Cf. 2 Cor 3,6).
O que fez com que Paulo tenha passado a considerar tudo “perda, diante do conhecimento de Cristo Jesus”? (Cf. Fl 3,8) O que fez com que ele suportasse prisões, fadigas, açoites, vigílias, cansaços, inúmeros perigos, violências de diversas formas por causa de Cristo? (Cf. 2 Cor 11,16-30) O encontro com o mais forte, isso transformou a vida dele de modo que ele bem podia orar como o profeta Jeremias: “Tu me seduziste, Javé, e eu me deixei seduzir. Foste mais forte do que eu e venceste” (Jr 20,7). A partir desse encontro toda a sua experiência passou a ser lida pelos olhos daquele que venceu a morte. Sua oração tinha na pessoa de Cristo sua nova marca, sua identidade, como ele mesmo declara, “é Cristo que vive em mim” (Cf. Gl 2,20), porque ele estava convencido “de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem os poderes, nem as forças das alturas ou das profundidades, nem qualquer outra criatura, nada nos poderá separar do amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo, nosso Senhor” (Cf. Rm 8,38-39).
Até aquele dia, no caminho de Damasco, Saulo conduzia sua vida de acordo com sua tradição espiritual, suas orações se dirigiam ao Deus de seus pais, esperando servi-lo mediante a observância da Lei. Depois do encontro com o “Senhor”, compreendeu que o mesmo Deus lhe falava através do “Filho do Deus vivo” (Cf. Mt 16,16), o Cristo ressuscitado. Sua oração não abandonou Israel; encontrou em Cristo o seu pleno cumprimento.
Quando colocamos os olhos nessa cena da Conversão de São Paulo, vamos inevitavelmente perceber que Deus nos encontra no caminho da vida. Ele faz isso não para nos destruir, mas sim reconstruir. Quando damos ouvidos ao próprio conselho do Apóstolo, de “orar sem cessar” (Cf. 1 Ts 5,17), O Espírito Santo vai transformando nossa vida para que resplandeça aquilo que Deus quer. Dessa forma a violência vai dando lugar a paz, o ódio ao perdão. Aquilo que antes eu detestava, agora abraço como bem supremo. No encontro com Cristo, há sempre um antes e um depois, e é o Espírito Santo que nos foi dado, por Cristo Jesus, que vai derramando em nossos corações o amor de Deus (Cf. Rm 5,5) que tudo transforma.
Podemos dizer que a oração é sempre um encontro com uma pessoa que é próprio Jesus, o Cristo, que morreu e ressuscitou, que vive e nos chama a caminhar com Ele. Nesse momento a oração deixa de ser objeto e passa a ser sujeito, não é mais um EU, mas passa a ser um TU, que inevitavelmente se transforma em um NÓS. Como diz São João Crisóstomo, Cristo não pergunta: "Por que persegues os meus discípulos?", mas "Por que me persegues?" salientado uma dimensão eclesial do encontro com Cristo que nos leva a crer que oração é comunhão, partilha. Cristo, se parte e reparte seu Espírito a todos que o buscam de coração reto, e é o mesmo Espírito que é dado a todos para que formemos um povo da luz.
Vamos aprender que Paulo não oferece um método de oração, ele não cria uma escola de oração. Sua vida é uma escola, seu testemunho, oração. Para o Apóstolo, oração é encontro, por isso, “Deus que nos ama primeiro”, toma a iniciativa de nos encontrar e o que Ele espera de nós, é deixar-se amar para sermos “transfigurados nessa mesma imagem, cada vez mais resplandecente pela ação do Senhor que é Espírito” (2 Cor 3,18).
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