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sexta-feira, 26 de julho de 2019

O contexto em que surge a Renovação Carismática




A RCC nasce logo após a conclusão do Concílio Vaticano II, no conhecido “final de semana de Duquesne”, em fevereiro de 1967, na universidade de Duquesne, nos Estados Unidos.
É um período em que a própria Igreja abre as portas para dialogar com o mundo. Esse novo movimento nasce num contexto de pós-modernidade.
A pós-modernidade caracteriza-se por uma passagem de um estágio de exaltação da razão, do progresso técnico-científico e do primado da razão para um ceticismo ou niilismo radical. No contexto do capitalismo tardio, a globalização e o neoliberalismo caracterizam a nova fase, marcada pela realidade do mercado, onde o que interessa é o cidadão produtor, consumidor e trabalhador. A pós-modernidade passa a questionar os valores hegemônicos construídos sobre o primado da razão, como dos ideais e instituições, em um clima de desconfiança, pessimismo e afrouxamento das relações.
Nesse ambiente pós-moderno que se percebe um surto espantoso da busca do sagrado, ou seja, de um despertar místico. Nesse horizonte, surge um mercado livre de experiências religiosas, já que não há mais o monopólio de uma única instituição religiosa. Desse modo, a necessidade de conquistar adeptos, se torna condição para a continuidade de expressões religiosas. Observa-se, nessa nova condição, o fenômeno da migração religiosa.
A renovação religiosa parece emergir na desilusão do racionalismo e de suas propostas salvadoras. A racionalidade instrumental não correspondeu adequadamente às expectativas que gerou em relação ao progresso e futuro feliz para a humanidade. Na verdade, ele se voltou contra o próprio homem, gerando grande disparidade social.

A RCC surge nos Estados Unidos e se espalha pelo mundo

Renova os teus milagres nesse nosso dia, como em um novo pentecostes. Permita que a tua Igreja, unida em pensamento e firme em oração com Maria a mãe de Jesus, e guiada pelo abençoado Pedro, possa prosseguir na construção do reino de nosso divino Salvador, reino de verdade e de justiça, reino de amor e de paz[1].

O Papa João XXIII rezou esta oração no inicio do Concílio Vaticano II (1962-1965). Suas palavras exprimem o desejo de que se renove na Igreja o extraordinário evento de Pentecostes, que o Espírito que atua continuamente desde o nascimento da Igreja “faça nova todas as coisas” (Is 43,19).
Existiu na universidade de Duquesne, Pensilvânia, uma sociedade chamada CHI RHO que tinha como finalidade estimular a pratica da oração e da participação na liturgia, a evangelização e ação social. Dois professores, que exerciam o papel de moderadores da fraternidade, participavam do movimento dos Cursilhos. Eles receberam de amigos, dois livros que o influenciaram bastante, exercendo papel-chave na experiência do batismo no Espírito Santo pela qual esses homens iriam passar. Um desses livros é a “cruz e o punhal”, escrito por David Wilkerson com Jonh e Elizabeth Sherrill, publicado originalmente em 1963. O outro é “eles falaram outras línguas”, escrito por Jonh Sherrill e publicado por Mc Graw Hill em 1964. Esse último descreve detalhadamente a pesquisa do autor, a respeito do fenômeno conhecido como “falar em línguas”.
“A cruz e o punhal”, é a dramática história de um pregador pentecostal de uma pequena cidade chamado David Wilkerson, que é conduzido pelo Espírito Santo para trabalhar junto a gangs de ruas do Distrito de Bedford-Stuyvestand, de Nova York. É um testemunho do dinamismo de fé e uma introdução a chamada “experiência do batismo no Espírito Santo”.
A partir da primavera de 1966, os dois professores rezavam diariamente para que fossem renovados neles as graças dos sacramentos do Batismo e da Crisma, para que pudessem testemunhar o amor e o poder de Cristo Jesus.
Depois de um tempo de oração e reflexão, tomaram a decisão de procurar alguns neopentecostais. Ligaram para o Padre William Lewis da Igreja de Christ Church situada no subúrbio de North Hill, da cidade de Pittsburgh, para saber dele se conhecia os livros de Wilkerson  e Sherrill. Ele respondeu que sim, e que poderia apresentar-lhes uma de suas paroquianas que tinham recebido o “batismo no Espírito Santo”. Era Flo Dodge, Presbiteriana, que coordenava em sua casa um grupo de oração de orientação ecumênica.
Quatro visitantes da Universidade de Duquesne chegaram a cada de Flo Dodge, em North Hills, incluindo os dois professores. Durante a reunião de oração, eles pediram o “batismo no Espírito Santo. No livro “Como um novo Pentecostes”, de Patty Gallagher Mansfield[2], a autora traz uma descrição dos professores que compareceram e a reunião de oração naquela noite:
“Minha esposa, dois colegas e eu nos dirigimos com cautela a um típico ‘lar suburbano’, onde logo ao entrar fomos atingidos pelo calor humano das pessoas que lá estavam. Era como uma reunião de família, da qual já fazíamos parte. Eu me lembro que para abrir a reunião eles cantaram quatro ou cincos hinos da linha tradicional das escolas dominicais protestantes. Seguiu-se uma longa sessão de preces de improviso. A cada tempo uma pessoa liderava as preces, sendo a sua voz acompanhada por vozes que mais pareciam em diferentes tonalidades do que o balbuciar incompreensivo dos ruídos vocais sem sentido. Havia também, um pouco de oração em línguas, o que se fazia, suavemente, sem interferência sobre as preces principais. Em seguida, eles começaram a compartilhar citações de passagens bíblicas, o que faziam de maneira notável. Eles trocaram entre si as leituras que tinham feito durante a semana, referenciando-as a uma variedade de experiências de vida, passadas e atuais. O que nos impressionou, foi a qualidade da teologia cristã dali resultante. Era uma teologia da graça, voltada para a ressurreição, do mesmo gênero daquela que encontramos nos cursilhos e nos bons livros de textos teológicos; mas ali, tudo era espontâneo, sem qualquer texto impresso. A teologia atuante do grupo que se reunia e rezava em conjunto, era positiva, natural e alegre, pois tinha sua base nas epístolas paulinas. Eu franzi a testa uma e outra vez, quando alguém se referiu a inteligência e ‘como é perigoso, etc’. Na verdade, eu já começava a apertar os dentes, até que ouvi alguém dizer: ‘vocês sabem, eu penso que o Senhor tem também o mesmo propósito’, e isto deu ensejo a uma discussão esclarecedora muito positiva. Minha única outra objeção foi a maneira como eles estavam usando as escrituras. Fundamentalista, não seria a palavra exata. Era mais devida ao fato de que eles tendiam a uma leitura da bíblia como faziam os primeiros cristãos, de uma forma altamente alegórica. Por um momento isto, me punha fora de sintonia. Mas, mesmo assim, eu podia ver através dessa maneira um autêntico testemunho do sentimento da presença de Deus. Talvez seja por isso mesmo que eu me incomodava: eu sempre tive receio desta mentalidade ‘de tubulação’ superdireta de comunicação com Deus. Todavia, como um dos nossos amigos comentou, talvez nós exageremos dando demasiada ênfase à causalidade secundária, de tal modo que nunca temos a  percepção da presença de Deus, atuando em alguma coisa diferente. De um modo geral, não foi uma noite extraordinária, mas que nos levou a pensar e orar. E que nos deixou com uma sensação permanente de que ali operou-se um movimento de Deus”.
A sociedade CHI RHO estava se preparando para um retiro, onde buscavam uma nova orientação para o trabalho dentro da universidade. Os dois professores sugeriram após a visita na casa de Flo Dodge, que o tema do retiro fosse mudado de “sermão da montanha” para “Atos dos Apóstolos”, sem que dissessem o que havia acontecido com eles. Os outros conselheiros mesmo sem entender aceitaram a sugestão. 
Na data estabelecida para a realização do retiro, os jovens universitários se encontraram na casa de retiro. Os professores orientaram o grupo para que cantassem um antigo hino ao Espírito Santo chamado “Veni, Creator Spiritus”, implorando a ação do Espírito Santo naquele encontro.
As palestras tinham seu foco nos primeiros quatro capítulos dos Atos dos Apóstolos. Os Professores coordenadores haviam convidado para que participasse do retiro e se dirigisse aos estudantes, àquela senhora com quem se encontraram no grupo de oração de Chapel Hill. Durante a discussão que seguiu a sua palestra, um estudante apresentou a proposta de que todos renovassem o seu compromisso de Crisma. Depois disso, à noite, alguns jovens, espontaneamente, foram se dirigindo a capela e experimentaram de forma atuante, o batismo no Espírito Santo.

A RCC chega ao Brasil

No Brasil, estamos em um período de ditadura militar, e a luta de vários grupos pela democratização do nosso País.
Estamos acompanhando o surgimento e desenvolvimento de novas formas oriundas do pentecostalismo clássico como a Igreja do Evangelho Quadrangular (1951), e Deus é Amor (1962), como também do neopentecostalismo no inicio dos anos 70 com a Igreja Universal do Reino de Deus e a Igreja Internacional da Graça.
Essa experiência que ocorreu na Universidade de Duquesne foi se espalhando por vários lugares do mundo, chegando ao Brasil através de padres jesuítas americanos que chegaram ao País em fins da década de 60.
Mas precisamente o padre Harold Joseph Rahm e o padre Eduardo Dougherty, na cidade de Campinas, no estado de São Paulo onde começaram a organizar toda a atividade carismática, que logo se desenvolveu.
Os rumos que a Renovação Carismática tomará a partir de Campinas serão diversos, expandindo-se rapidamente pela maioria dos Estados brasileiros. Entre algumas informações disponíveis encontramos as de Dom Cipriano Chagas[3] que registra:
Em 1970 e 71 iniciou-se a Renovação em Telêmaco Borba, no Paraná, com Pe. Daniel Kiakarski, que a conhecera nos Estados Unidos em 1969. Em 1972 e 1973 Pe. Eduardo, de novo no Brasil, deu vários retiros e iniciou grupos de oração. Assim foi, por exemplo, em Belo Horizonte, em 1972, com um grupo pequeno de 8 ou 9 pessoas.
Em janeiro de 1973 o Pe. George Kosicki, CSB, que participava ativamente da Renovação nos Estados Unidos, veio a Goiânia para um retiro carismático de uma semana. A ele compareceram D. Matias Schmidt, atual bispo de Rui Barbosa, na Bahia, e vários padres e religiosas, que iriam iniciar grupos de oração em Anápolis, Brasília, Santarém, Jataí, etc. Nesse mesmo ano, perto de Miranda, no Mato Grosso, um pequeno grupo começou a ler o livro Sereis Batizados no Espírito e a rezar pedindo o dom do Espírito. Um mês mais tarde veio a eles o Pe. Clemente Krug, redentorista, que conhecera a Renovação em Convent Station, New Jersey; orando com eles receberam o “batismo no Espírito” e o dom de línguas.
Em geral, pois, pode-se dizer que os grupos de oração surgidos em inúmeras cidades do Brasil tiveram sua origem seja nas “Experiências de Oração no Espírito Santo” do Pe. Haroldo Rahm, SJ, seja nos retiros dados pelos padres Eduardo Dougherty, SJ e George Kosicki, CSB.
Em vista da extensão que tomava a Renovação no Brasil, o Pe. Eduardo Dougherty, sentindo a necessidade de uma melhor organização, preparou com o Pe. Haroldo Rahm e Irmã Juliette Schuckenbrock, CSC, um encontro de fim de semana em Campinas, que foi o I Congresso Nacional da Renovação Carismática no Brasil em meados de 1973, ao qual compareceram cerca de 50 líderes para discernir quais os caminhos a seguir.
Em janeiro de 1974 foi realizado o II Congresso Nacional da Renovação Carismática, comparecendo lideres de Mato Grosso, Belo Horizonte, Salvador, Rio de Janeiro, Santos, São Paulo, etc.
Em outras regiões a Renovação Carismática começa a crescer, a partir de 1974: no Norte a diocese de Santarém com Frei Paulo, em Anápolis, no Centro Oeste, com Frei João Batista Vogel, no Sul de Minas, com Mons. Mauro Tommasini na Aquidiocese de Pouso Alegre. Também colaboram como divulgadores: Pe. Schuster, Dr. Jonas e Sra. Imaculada Petinnatti, Peter e Ingrid Orglmeister, D. Cipriano Chagas, Pe. Alírio Pedrini, Frei Antônio, Ir. Tarsila, Maria Lamego,Ir.Stelita.
Inicialmente, a Renovação atingiu os líderes já engajados em movimentos como cursilhos, Encontros de Juventude, TLC, etc, e foi se ampliando gradativamente como uma nova “onda” de evangelização com identidade própria.
Em 1972, Pe. Haroldo escreve o livro Sereis batizados no Espírito, onde explica o que vem a ser o “Pentecostalismo Católico”. Sendo uma das primeiras obras publicadas no país sobre o movimento, trazia orientações para a realização dos retiros de “Experiência de Oração no Espírito Santo”, que muito colaboraram para o surgimento de vários grupos de oração.
Para B. Carranza[4], o livro representou uma alavanca para a difusão da Renovação Carismática, do mesmo modo como o foi, nos EUA, o livro A cruz e o punhal. Além disso, tendo recebido o Imprimatur de Dom Antônio Maria Alves de Siqueira, bispo de Campinas na época, significou a legitimação da RCC.
Pe. Haroldo foi o responsável em divulgar a Renovação para muitos dos que viriam a se tornar suas lideranças. A adesão de Padre Jonas Abib, logo no início deu um grande impulso para a Renovação.


[1] Renovação Carismática Católica. A identidade da RCC, apostila 1. São José dos Campos: Fundec, s/d, pg. 14.

[2] A autora participou do chamado “final de semana de Duquesne”, e descreve com riqueza de detalhes esse grande acontecimento.
[3] CHAGAS, Cipriano, OSD. A descoberta do Espírito e suas implicações para uma transformação eclesial – um estudo sobre a Renovação Carismática. Tese de Mestrado, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, RJ, 1976, p. 46-47.
[4] Carranza, Brenda. Renovação Carismática Católica: origens, mudanças e tendências. Aparecida: Editora Santuário, 2000.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

A RCC é um dos maravilhosos frutos do Concílio Vaticano II


O estudo da religiosidade contemporânea insere-se necessariamente na discussão a respeito da modernidade e suas características fundamentais: o primado da razão e a progressiva secularização da sociedade. Diferente do que se pensava, a religião reapareceu com uma força, de tal forma, que se fala de “um retorno do sagrado”, onde o despertar religioso questiona o processo de secularização que acompanha a modernidade.
No Brasil, esse “retorno do sagrado”, resulta em grande parte, da difusão do pentecostalismo. O censo de 1991 revelou que os pentecostais representavam 65,1% do protestantismo nacional. Esse percentual tendeu a crescer nas várias pesquisas posteriores, atingindo 76% na Datafolha de setembro de 1994. O pentecostalismo multiplicou-se a uma taxa de 300% nas últimas três décadas do século passado, enquanto que o crescimento vegetativo populacional chegou a 68%. 80% dos que aderiram ao pentecostalismo eram católicos.[1] 
O pentecostalismo introduziu-se na Igreja Católica através de estudantes e professores da Universidade de Duquesne, nos Estados Unidos. Expandiu-se rapidamente na Europa e América Latina, atingindo, sobretudo indivíduos de classe média. Do ponto de vista histórico, o contexto dessa experiência é marcado por mudanças sociais importantes. Na Europa, a revolução de maio de 68, na América Latina, a insurreição de ditaduras inclusive no Brasil. Os avanços tecnológicos contrastavam com a ameaça da guerra fria. Era um tempo de incertezas e inseguranças.
O surgimento da Renovação Carismática faz parte de um mesmo fenômeno religioso sociológico, mas do ponto de vista teológico deve ser desvinculado do novo pentecostalismo protestante, que está aliado à ideia da teologia da prosperidade e de certa frouxidão nos costumes, o que se observa com frequência nos discursos por parte das midiáticas igrejas (Igreja Universal do Reino de Deus, Internacional da Graça de Deus, etc) e de certos posicionamentos com relação a temas como aborto, uso de preservativos, casamento de homossexuais e outros. Nesse aspecto, o discurso carismático é extremamente conservador, pois cultiva no interior dos grupos de oração o que é apregoado pela autoridade eclesiástica.
Foi em fevereiro de 1967, na universidade de Duquesne, na cidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos que tudo começa. A partir daí, com uma força impressionante, a experiencia  vivida em solo americano se espalha pelos cinco continentes.[2] Hoje, do oriente ao ocidente, proclama-se o evangelho vivo do Senhor Ressuscitado, com a força do Espírito Santo, através dessa nova expressão eclesial.
     Mas do ponto de vista eclesial existe um contexto que abre o caminho para essa nova expressão fazer a experiência que marca sua identidade: as cartas da Beata Elena Guerra, fundadora das Irmãs Oblatas do Espírito Santo, enviada ao Papa Leão XIII, entre os anos de 1895 e 1903, pedindo-lhe que promovesse um retorno à devoção ao Espírito Santo.[3] O mesmo Papa no início do século XX já convidava toda a Igreja a “incrementar o culto do Espírito Santo”.
 João XXIII na Encíclica que convocava o Concílio (Humanae Salutis) pedia em oração – “Renovai vossos prodígios em nossos tempos, como um novo pentecostes”. [4]
A Renovação Carismática é como dizia o São João Paulo II

um dos numerosos frutos do Concílio Vaticano II que, como um novo Pentecostes, suscitou na vida da Igreja um extraordinário florescimento de agregações e movimentos, particularmente sensíveis a ação do Espírito Santo.[5]

     A RCC entende ser “rosto e memória de Pentecostes”, como sinal da atualidade e perenidade de Pentecostes, procurando acolher para si, de modo objetivo e experiencial, aquilo que o magistério vem pondo em relevo, para toda a Igreja, com respeito à presença e a ação do Espírito Santo.
     O Pentecostes foi o Batismo no Espírito Santo para os apóstolos reunidos no cenáculo com Maria (At 2,1-4). O mesmo Batismo no Espírito Santo renovou-se em várias ocasiões entre os primeiros cristãos (At 2, 37-38; 4, 31; 8, 14-21). Foi uma experiência viva que operou uma mudança no coração dos discípulos, que sobre isto davam testemunho em suas pregações. Esta é a experiência do Espírito Santo, que a Renovação Carismática quer trazer aos cristãos de hoje.
A Renovação se configura como uma nova expressão eclesial e realiza o engajamento pastoral de seus membros à missão da Igreja que é evangelizar. E assim, torna-se uma opção de engajamento. O documento 56 da CNBB refere-se à diversas expressões eclesiais e à contribuição que cada uma delas pode dar a evangelização, “dentro de sua metodologia própria”.
O plano de ação da Renovação para o ano de 2006-2007 diz que nas ultimas reflexões do movimento sobre si mesmo afirma-se como uma expressão eclesial e deseja realizar a tarefa comum de evangelizar com sua metodologia própria, ou seja, a partir de sua identidade.[6]
A Renovação Carismática Católica é uma “expressão eclesial”, ou seja, uma maneira de ser Igreja, na medida em que permanece na comunhão “com o corpo” pela participação do múnus sacerdotal, profético e real de Cristo, comunicado pelos “Sacramentos da iniciação cristã”. Portanto, a RCC vê-se também como uma opção de engajamento, de tal forma que, participando de suas atividades, assumindo seus compromissos e tarefas, o fiel realiza sua pertença a Igreja e da sua contribuição com generosidade e alegria a esse mutirão evangelizador proposto pela Igreja. O Subsídio Doutrinal da CNBB n. 3 corrobora essa reflexão do movimento: “Por livre iniciativa, os fiéis leigos devem procurar não só a própria santificação e a vivência de sua vocação batismal, mas também a ajuda mútua nessa tarefa, unindo-se em comunidades, associações e movimentos, que colaborem para a sua formação e participação na missão apostólica da Igreja”.[7].
Nessa mesma linha o Pe. Salvador Carrillo afirma:

A renovação, como realidade comunitária, tem recebido do Espírito Santo dons espirituais que a caracterizam e quer, com eles, levar uma valiosa contribuição a renovação pastoral; além disso, cada pessoa tem seus próprios carismas segundo a graça que lhe foi dada (Rm 12, 6; I Cor 7, 7). Portanto, a Renovação, cumpre plenamente sua missão, quando na pastoral de conjunto, põe a serviço do bem comum os dons recebidos e contribui para a edificação do corpo místico de Cristo, na Igreja Diocesana e/ou Paroquial. [8]

A Renovação evangeliza a partir do Batismo no Espírito Santo, que é uma experiência no contexto do movimento de caráter vivencial e não sacramental, atualizando em sua pratica a experiência dos Apóstolos no cenáculo de Jerusalém (At, 2,1-4). Pra isso, realiza seminários, experiências de oração, retiros, ensino e aprofundamento. Por meio dos dons espirituais que a caracterizam tem assumido sua identidade própria no contexto eclesial colaborando com a proposta pastoral e evangelizadora da Igreja.
A expressão Batismo no Espírito Santo na RCC tem dupla significação. A primeira é propriamente teológica ou sacramental. A segunda é de ordem vivencial e remete ao momento na qual a presença operante do Espírito Santo tornou-se sensível na consciência pessoal. Na Sagrada Escritura encontramos vários textos que se referem a essa ação do Espírito Santo de batizar, “Eu vos batizo com água, mas aquele que é mais forte do que eu...Ele vós batizará com o Espírito Santo e com o fogo” (Mt 3,11; Lc 3,16). Marcos e, sobretudo João evocam a promessa da efusão messiânica do Espírito Santo predita pelos profetas do Primeiro Testamento (Is 32,15ss; 42,1; 44,3ss; Jl 2,28; Ez 32,26; 39,29). Jesus inicia o seu ministério em Lc, proclamando na sinagoga em Nazaré a profecia de Isaias que começa dizendo “O Espírito do Senhor está sobre mim”, afirmando que nele se cumpre essa profecia (4,18-19). O próprio Lc em sua outra obra associa o êxito da missão dos discípulos à ação do Espírito Santo: “Mas descerá sobre vós o Espírito Santo e vós dará força, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria e até os confins do mundo” (At 1,8).
Dois textos principais falam da efusão do Espírito Santo: o evento no dia de Pentecostes (At 2,1-4) e o episódio na casa de Cornélio (At 10,44ss). Em ambos os casos o evento é apresentado como cumprimento da promessa feita pelo próprio Jesus (At 1,33). Nesses dois textos mais do que o caráter sacramental aparece o vivencial operando uma consciência da atuação permanente do Espírito Santo na comunidade que passa a ser animada por dons carismáticos (1 Cor 12), que são colocados à disposição pelo mesmo Espírito que realiza o querer e o agir (Fl 2,13). Desse modo, o sentido aplicado pela Renovação ao termo batismo no Espírito Santo está fundamentado na própria Escritura que reconhece esse aspecto vivencial empregado pelo movimento.
A Experiência narrada no livro dos Atos dos Apóstolos é constantemente evocada pela RCC, de modo, que ela afirma ser “rosto e memória de Pentecostes”.
Conta-nos Patty Gallagher Mansfield, no seu livro, que um dos dois professores conselheiros da CHI RHO, escreveu uma carta para os seus amigos, contando o acontecido, que se transformou em um testemunho do que ocorre na experiência do movimento:

... eis que nos encontramos num plano de vida cristã que todos os compêndios dizem ser normal, mas que todas as práticas e expectativas podem negar. Nossa fé revivesceu, nossa crença transformou-se como que num saber. Repentinamente, o mundo do sobrenatural tornou-se mais real que o natural. Para resumir: Jesus Cristo é para nós uma pessoa real, uma verdadeira pessoa viva que é o nosso Senhor e que atua em nossas vidas.
A oração e os sacramentos vieram a ser verdadeiramente o nosso pão de cada dia, no lugar de práticas que eram somente reconhecidas como ‘boas para nós’. Um amor as Escrituras, um amor a Igreja que eu nunca julguei ser possível, uma transformação dos nossos relacionamentos com os outros, uma necessidade e um poder de dar testemunho além de qualquer expectativa, tudo isso veio a torna-se parte de nossas vidas. A experiência inicial do ‘batismo no Espírito Santo’[9] não foi em nenhuma hipótese emocional, mas a vida recebeu um influxo que nela se esparramou, e a fez repleta de calma, auto-segurança, alegria e paz... Um dos mais surpreendentes resultados disto foi o fim de semana, que fizemos para cerca de vinte e cinco estudantes. Nada mais que um retiro comum, do tipo apresentação/discussão. Mas nós fizemos uma coisa diferente – nós focalizamos a matéria no tema dos Atos dos Apóstolos 1-4 e aguardamos a chegada do Espírito Santo. Antes de cada palestra nós cantamos ‘Veni, Creator Spiritus’, para valer. Não fomos desapontados. O que aconteceu em Atos capítulo doisaconteceu também conosco. Devo dizer, inicialmente, que os participantes eram estudantes, os quais três meses antes, tinham suas dúvidas até mesmo sobre a existência de Deus, não queriam ouvir falar em oração, etc. eles já produziram o seu efeito sobre o campus...[10].



[1] Cf. SOUSA, Ronaldo José de. Carisma e instituição: relações de poder na Renovação Carismática Católica do Brasil, Aparecida, SP: Santuário, 2005, p. 7.
[2] A Renovação Carismática Católica está presente em cerca de 200 países e já tocou as vidas de aproximadamente 120 milhões de católicos. Nos últimos anos, parece que o número de participantes diminuiu em alguns países, mas, em outros, o número continua a crescer a uma taxa impressionante. Dados do site do Serviço Mundial da Renovação Carismática: http://www.iccrs.org/pt/sobre-nos/a-rcc/

[3] Elena Guerra nasceu em Lucca (Itália), no dia 23 de Junho de 1835. Viveu e cresceu em um clima familiar profundamente religioso. Durante uma longa enfermidade, se dedica à meditação da Palavra de Deus e ao estudo dos Padres da Igreja, o que determina seu apostolado; primeiro na Associação das Amigas Espirituais, idealizada por ela mesma para promover entre as jovens a amizade em seu sentido cristão, e depois nas Filhas de Maria. Em Abril de 1870, Elena participa de uma peregrinação pascal em Roma juntamente com seu pai, Antônio. Entre outros momentos marcantes, a visita às Catacumbas dos Mártires confirmam nela o desejo pela vida consagrada. Em 24 de Abril, assiste na Basílica de São Pedro a terceira sessão conciliar do Vaticano I, na qual vinha aprovada a Constituição “Dei Filius” sobre a Fé. A visita ao Papa Pio IX a comove de tal maneira que depois de algumas semanas, já em Lucca, no dia 23 de Junho, faz a oferta de toda a sua vida pelo Papa.
Em 1886, Elena sente o primeiro apelo interior a trabalhar de alguma forma para divulgar a Devoção ao Espírito Santo na Igreja. Para isto, escreve secretamente muitas vezes ao Papa Leão XIII, exortando-o a convidar “os cristãos modernos” a redescobrirem a vida segundo o Espírito; e o Papa, amavelmente solicitado pela mística Luquese, dirige à toda Igreja alguns documentos, que são como uma introdução a vida segundo o Espírito e que podem ser considerados também como o início do “retorno ao Espírito Santo” dos tempos atuais: A breve “Provida Matris Charitate” de 1895; a Encíclica “Divinum Illud Munus” em 1897 e a carta aos bispos “Ad fovendum in christiano populo”, de 1902.
[4] Cf. Plano de ação 2006-2007. Renovação Carismática Católica.
[5] Ibid. p. 4.
[6] Ibid., pg 5.
[7] Igreja particular, movimentos eclesiais e novas comunidades. Subsídios Doutrinais da CNBB, 3, n. 18.
[8] ALDAY, Salvador Carrillo Renovação no Espírito Santo – Louva a Deus: Editora, p. 13.


[10] MANSFIELD, Patti Gallagher. Como um novo pentecostes: relato histórico e testemunhal do dramático inicio da Renovação Carismática Católica. Trad. br. Sérgio Luis Rocha Vellozo, Rio de Janeiro: Louva-a-Deus, 1993, pg. 30.

terça-feira, 18 de junho de 2019

Senhora do mundo, Rainha dos céus


A saudação a Maria como “Senhora do mundo” encontra seu eco na interpretação da dramática cena do Apocalipse:
“Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz. Depois apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão vermelho, com sete cabeças e dez chifres, e nas cabeças sete coroas. Varria com sua cauda uma terça parte das estrelas do céu, e as atirou à terra. Esse Dragão deteve-se diante da Mulher que estava para dar à luz, a fim de que, quando ela desse à luz, lhe devorasse o filho. Ela deu à luz um Filho, um menino, aquele que deve reger todas as nações pagãs com cetro de ferro. Mas seu Filho foi arrebatado para junto de Deus e do seu trono”.
O filho que recebe o cetro de ferro é o próprio Cristo, que veio para salvar o mundo dos seus pecados. A cena evoca a luta contra o “príncipe deste mundo” (Jo 12,31; 14,30; 16,11), o Diabo, que quer a nossa condenação. Pela desobediência de nossos primeiros pais o pecado entrou no mundo, mais Deus não os abandonou a própria sorte. Chegada à plenitude dos tempos, Deus enviou o seu próprio Filho, nascido de uma mulher nos salvando da condenação eterna. Em nossa visão linear da história, esperamos a consumação dos tempos (Mt 28,20), onde o Cristo Jesus, Nosso Senhor, estabelecerá o seu reino definitivo.
É o Espírito Santo que nos faz entrar “nos últimos tempos”, (Cf. CIC 732) como povo escatológico, na ansiosa expectativa do “já” e “ainda não”. A figura da mulher que luta, é interpretada como o povo, que sofre às investidas de Satanás, a espera da segunda vinda do Filho de Maria. Esse povo resiste, pois tem a certeza da vitória alcançada graças ao sangue do Cordeiro (Cf. Ap 12,10).
Maria é a mãe do Filho, que recebeu o cetro de ferro, por isso toda uma geração a proclama “bem-aventurada”. Pelos méritos de Cristo, é elevada a condição de “senhora do mundo”, pois desempenha um papel fundamental como “a onipotência suplicante”, que humildemente roga pelo mundo, por nossa salvação. Dentro do ambiente de uma casa a “senhora” é aquela que cuida de tudo. Mesmo vivendo em uma época em que as mulheres disputam os postos de trabalho em pé de igualdade com os homens, em casa são elas que governam. Os homens até ajudam, mais são elas que administram tudo. Maria, como “Senhora do mundo, Rainha dos céus”, cuida para que nenhum dos filhos do seu Filho se perca. Rogamos sua intercessão porque confiamos nos seus cuidados.
Uma poesia de cunho religioso, da época do renascimento português, presta uma homenagem a Virgem Maria chamando-a de “Senhora do mundo”:

Senhora do mundo
princesa da vida
sejais de tal filho
em boa hora parida.
Aquele soberano,
supremo Senhor,
por suma bondade
vencido de amor,
de vós toma o traje
de manso pastor,
por que d'Ele não fuja
a ovelha perdida.
Do horto cerrado
das vossas entranhas,
aquele fazedor
de santas façanhas
saiu disfarçado
com roupas estranhas
do ser que aos santos
dá glória comprida.
Por vós, Virgem santa,
podemos dizer
que o Homem começa
de novo a viver,
que antes sua vida
foi sempre morrer
com grandes suspiros
por ver nova vida.
Trocamos por vós
pesar em prazer,
e sempre ganhar
e nunca perder;
pobreza em riqueza,
ignorância em saber
a fome em fartura,
a morte na vida.

    Exaltar Maria como Senhora do mundo e Rainha dos céus, é reconhecer o que lhe foi concedido pelo próprio Filho. Jesus é Deus, Adonai, e seu senhoril se manifesta sobre todas as criaturas. Maria é aquilo que seu Filho quis que ela fosse e por essa razão podemos recorrer a sua materna intercessão. Com efeito, São Bernardo de Claraval afirma Maria recebeu de Deus uma dupla plenitude de graça. A primeira foi o Verbo eterno feito homem em suas puríssimas entranhas. A segunda é a plenitude das graças que, por intermédio desta divina Mãe, recebemos de Deus".
            O desejo da mãe dos filhos de Zebedeu criou uma discussão que se transformou em uma ocasião para Jesus assegurar aos seus discípulos como se manifesta o seu reinado: através do serviço (Cf. Mt. 20,20ss). Assim afirma o Catecismo da Igreja Católica: “Cristo, Rei e Senhor do Universo, se fez servidor de todos, não veio ‘para ser servido, mas para servir e para dar sua vida em resgate por muitos’ (Mt 20,28). Para o cristão, ‘reinar é servir’” (CIC n.786). O n. 59 da Lumen Gentium diz: "A Virgem Imaculada (…) foi elevada ao céu em corpo e alma e exaltada por Deus como rainha, para assim se conformar mais plenamente com seu Filho, Senhor dos senhores e vencedor do pecado e da morte". Portanto, a Virgem Maria, Senhora do mundo e Rainha dos céus, demonstra através do seu exemplo, que o autêntico serviço ao próximo é fundamental para vencermos o mal e estabelecer novas relações marcadas pelo amor com que Cristo nos amou.

terça-feira, 11 de junho de 2019

Um recorte sobre a vida do grande apóstolo


A primeira biografia de Paulo foi inserida nos Atos dos Apóstolos. Nesse livro Lucas reconstrói a história das origens e da expansão do movimento cristão nos primeiros trinta anos.
Essa obra de Lucas tem por finalidade oferece aos leitores o testemunho dado por Pedro e Paulo, de Jesus de Nazaré, anunciado pelas escrituras e constituído por Deus Senhor e Cristo.
Embora o autor dos Atos dos Apóstolos traga muitas informações sobre S. Paulo, ele obedece mais a uma intenção teológica do que historiográfica.
A segunda fonte biográfica é o epistolário paulino, principalmente o grupo das sete cartas autenticas que nos oferece uma imagem viva da personalidade de Paulo.

  I – As origens de Paulo

a.      Eu sou um Judeu de Tarso da Cílicia” (At 21,39)

·         Nasce provavelmente entre 5 e 10 d. C.
·         O nome da Cílicia está associada aos primeiros colonos gregos conhecidos no poema de Homero com o nome de “Kilices”, originários da Trôade Meridional.
·         A área se presta ao cultivo de trigo, vinho, azeite e linho.  Apascenta-se rebanhos de cabras que fornece a matéria-prima para a elaboração de um tecido chamado “cilício”.
·         Importante trevo viário, com posição estratégica.
·         A origem da cidade é atribuída ao herói grego Perseu, filho de Zeus, que libertou os mortais do medo da Medusa.
·          A cidade de Tarso é submetida a sucessivos impérios que controlam a região.
·         Durante o império romano goza dos favores imperiais (como a isenção de pagar o tributo de guerra).
·          Os cidadãos demonstram interesse pelo saber (alguns mestres das escolas estóicas são originários de Tarso, como Zenão, fundador do Estoicismo).

b.       A família de Paulo provavelmente se estabeleceu na região como muitas outras, por motivos comercias ou obrigados pelas vicissitudes do acaso (Is 66,19; Ez 27,10.13; 38,2; 39,1) → ler At 9,11; 9,30; 11,25; 15,40. Não se entenderia uma referencia assim tão insistente à Cílicia e mais precisamente a Tarso se Paulo e sua família não tivessem morado aí por um período suficientemente longo para estabelecer laços com o ambiente social e cultural da cidade.

c.       Paulo de Tarso, cidadão romano (At 16,35-39; 22,25-29)

·         Uma hipótese que confirma a cidadania romana de Paulo é a alforria de escravos judeus por obra de cidadãos romanos. Esses é o caso de grande parte dos judeus de Roma, deportados como prisioneiros de guerra na metade do século I a.C.
·         Admitida essa hipótese da cidadania romana de Paulo, podem ser mais bem compreendidos alguns detalhes de suas cartas, como a linguagem e as metáforas da alforria para definir a nova condição de cristãos resgatados por Deus a um alto preço (1 Cor 6,20; 7,21-23; Gl 3,13; 4,5).
·          Outro aspecto é a boa movimentação de Paulo pelas grandes metrópoles e centros administrativos do império. Seria impossível para um peregrino, sem direitos civis que o amparassem desenvolver uma atividade tão prolongada nas grandes cidades como Éfeso e Corinto.
·         Outros textos onde Paulo faz uso de termos que tem como pano de fundo sua cidadania romana: Fl 1,27; 3,20; Rm 13,1-7.

d.      Saulo, também chamado Paulo” (a primeira forma aparece apenas nas três narrativas da conversão de Paulo na estrada de Damasco: At 9,4.17; 22,7.13; 26,14 – a segunda aparece umas quinze vezes no final do capítulo sete até o capítulo treze, no qual pela primeira vez aparece o duplo nome, cf. At 13,9)
·         O nome Saulo é um indício do contexto cultural e das tendências religiosas da família de Paulo.

e.      Na carta aos Filipenses Paulo lembra a sua origem judaica (Fl 3,5-6)
·         circuncidado ao oitavo dia” conforme as prescrições bíblicas (Gn 17,10; Lv 12,3).
·         Da raça de Israel, da tribo de Benjamim (cf. Rm 11,1).
·         Hebreus, filho de Hebreus .
·         Quanto a lei, fariseu.
·         Quanto ao zelo, perseguidor da Igreja.
·         Outros textos: At 22,3; 23,6; 26,4-5.

f.        Para um filho de hebreus, como Saulo-Paulo, o primeiro contato com a Bíblia não se dá só em casa e na liturgia sinagogal, mas também na escola anexa à sinagoga. Como a família de Paulo procura conservar as tradições, providencia que o jovem, com 13/15 anos, possa freqüentar uma casa de estudo.
g.      Paulo vive nas fronteiras de dois mundos: o judaico e o grego-helenistico. As suas cartas são escritas em grego comum, chamado Koiné. Ele assume as metáforas inspiradas nas competições e na atividade esportiva para falar de sua experiência espiritual (cf. 1 Cor 9,24-27), como também a linguagem militar (cf. 1 Ts 5,8; Ef 6,10).4

·         No diálogo epistolar com as jovens comunidades cristãs, Paulo recorre a alguns elementos da diatribe ou do debate em uso entre os mestres e propagadores do estoicismo popular (cf. Rm 9,14; 11,1)
h.      Paulo trabalha com as próprias mãos para não ser caro as comunidades (1 Cor 4,12; 1 Ts 2,9; At 18,3)
II – Paulo é perseguidor da Igreja: At 9,1-2; 22,4-5.19-20; 26,10-11.

a)      Eu perseguia com violência a Igreja de Deus”: Gl 1,13.
b)      Os pontos principais do pensamento dos fariseus, como são interpretados por Flavio Josefo, se reduzem a três:
·         Interpretação autorizada da lei escrita aplicada à vida diária;
·         Afirmação da responsabilidade e liberdade humana em harmonia com a vontade e o agir soberano de Deus e do conseqüente principio de retribuição divina: prêmio para os bons e castigos para os maus;
·         A ressurreição dos corpos e a vida eterna para todos aqueles que fazem o bem.
c)      A perseguição de Paulo consiste a partir da própria analise dos textos, na maioria das vezes em insultos verbais, ultrajes e ameaças, que podem também passar as vias de fato: socos, tapas, empurrões. Só em alguns casos se faz referencia a medidas repressivas que podem levar a uma ação penal (2 Cor 11,24-25).
d)      Paulo como perseguidor reproduz o zelo bíblico que acompanha algumas pessoas, como por exemplo, Elias (1 Rs 19,10).
e)      Paulo faz a Experiência de Cristo Jesus no caminho de Damasco (At 9; 22; 26).
f)        Paulo se torna Apóstolo por vocação: Rm 1,1; Gl 1,1.11-12.
g)      Fui conquistado por Jesus Cristo” (Fl 3,7-14).

III – A atividade missionária de Paulo

a)      Entretanto, partiu Barnabé para Tarso, à procura de Saulo. De lá encontrando-o conduzi-o  a Antioquia. Durante um ano conviveram na Igreja e ensinaram numerosa multidão” (At 11,19)
·         O autor dos Atos faz partir a missão de Paulo da cidade de Antioquia da Síria, que é sede da administração romana e centro estratégico para as comunicações entre o Ocidente e o Oriente Médio. Ali nasce e se desenvolve a primeira comunidade mista, formada de judeus e pagãos, que acolhem o Evangelho levado pelos judeu-helenistas expulsos de Jerusalém depois da perseguição de Estevão.
Com a chegada de Pompeu no Oriente em 64 a.C., a cidade fundada por iniciativa do general de Alexandre Magno, Antígono, em 307, se torna a capital da província da Síria. Em Antioquia encontra-se um santuário de Apolo e Ártemis, lugar de encontro de peregrinos à procura de experiências religiosas. É famosa também pela beleza de seus monumentos, teatros e por sua cultura.
·         A função e atividade de Barnabé e Saulo em Antioquia são definidas pelo verbo didáskein, “ensinar, instruir”.

b)      Enviados, pois, pelo Espírito Santo (de Antioquia), eles desceram até Selêucia, de onde navegaram para Chipre. Chegados a Salamina, puseram-se a anunciar a Palavra de Deus nas sinagogas dos judeus” (At 13,4-5)

·         A primeira meta da viagem dos dois missionários é a ilha de Chipre. Para aí haviam chagado alguns judeu-cristãos helenistas expulsos de Jerusalém, depois da morte de Estevão. A escolha de Chipre é compreensível não só pelo fato de Barnabé ser originário da ilha (At 4,36), mas porque é a meta mais fácil a ser atingida, partindo do porto de Selêucia, distante uns trinta quilômetros de Antioquia.

·         Tendo partido do porto de Selêucia, desembarcaram em Salamina. João Marcos, originário de Jerusalém, acompanha os dois missionários. Todavia, o grupo dos missionários não se detém muito tempo em Salamina. A meta deles é capital da ilha, Pafos (At 13,6) na costa ocidental. A cidade é famosa na antiguidade por seu santuário de Afrodite, meta de peregrinação de pessoas de várias classes sociais, como também generais e piratas.

c)      De Pafos, onde embarcaram, Paulo e seus companheiros alcançaram Perge, na Panfília. Quanto a João, separando-se deles, voltou paras Jerusalém. Eles porém, penetrando além de Perge, chegaram a Antioquia da Pisídia”  (At 13,13-14).
·         Perges é a cidade mais importante da Panfília, província romana de 25 a.C. a 42 a.C. lá se encontra o maior estádio da Ásia Menor e um belo teatro para 15.000 pessoas. Depois da desistência de Marcos, os dois missionários deixam Perge e se dirigem para o norte, tomando a estrada que leva ao planalto da Anatólia Central, na região dos lagos. Quem, a partir da planície costeira de Perge, pretende chegar a Antioquia deve atravessar a cadeia montanhosa do Tauro. Não é um percurso fácil, pois, além das dificuldades da estrada montanhosa, há a ameaça de ladrões, que ficam de tocaia a espera das caravanas. Depois de 260 quilômetros, que em pequenas etapas podem ser percorridos em dez dias, Paulo e Barnabé chegam a Antioquia da Pisídia.
·         Antioquia da Pisídia é declarada cidade livre em 189 a.C., pelo Império Romano, que a escolhem como posto avançado de fronteira na luta contra os ladrões do Tauro. Ela se torna a sede da administração civil e militar da província romana da Galácia meridional. Graças a uma rede viária que a liga a outra colônias romanas da região, a cidade se torna um ponto estratégico.

d)      É a primeira vez que o Autor dos Atos relata uma pregação de Paulo de modo amplo e bem articulado, no contexto de uma assembléia litúrgica judaica. O texto demonstra o esquema ideal do anuncio feito pelos missionários no ambiente da diáspora judaica (At 13,16-41)

e)      Estes, porem, sacudindo a poeira dos pés, contra eles, prosseguiram para Icônio. Quantos aos discípulos, achavam-se repletos de alegria e do Espírito Santo. Em Icônio, eles também entraram na sinagoga dos judeus” (At 13,51-52; 14, 1)
·         Em 133, a cidade de Icônio esta sob o domínio dos romanos, que fazem dela um centro estratégico para o controle do grande planalto.

f)       Então formando-se uma conjuração de gentios e gregos, de acordo com os seus chefes, para ultrajá-los e apredejá-los, eles sabendo-o foram refugiar-se em Listra e Derbe, cidades da Licaônia, e nos arredores. E ali, continuaram a anuncia a boa nova” (At 14,5-7).
·         A nova etapa da missão de Paulo e Barnabé é acidade de Listra, uns quarenta quilômetros ao sul de Icônio, em pleno território da região conhecida na antiguidade como Licaônia. O pequeno centro agrícola, por iniciativa de Augusto, em 6 a.C. havia se tornado colônia romana. A posição estratégica de Listra no limite setentrional das montanhas do Tauro, no percurso da “via augusta”, torna indispensável um destacamento militar para defender os comboios contra os ladrões. Depois de Paulo quase morrer vítima de um apedrejamento, eles decidem ir para Derbe uns cinqüenta quilômetros de Listra.

g)      Em cada cidade designaram anciãos e, depois de terem orado e jejuado, confiaram-nos ao Senhor, em quem tinham crido. Atravessando então a Pisídia, chegaram a Panfília. Após anunciarem a palavra em Perge, desceram para Atalia. De lá, navegaram para Antioquia, de onde tinham sido entregues a graça de Deus para a obra que haviam realizado. Ao chegarem, reuniram a Igreja e puseram-se a referir tudo o que Deus tinha feito com eles, especialmente abrindo aos gentios a porta da fé” (At 14, 23-27).
        
h)      Como conseqüência da missão entre os gentios, começa a acontecer controvérsias a respeito do que deveriam observar todos esses que se aproximavam da nova fé. A linha dos judeu-cristãos acreditava ser preciso a circuncisão. Outros diziam que não era mais necessário submeter-se a lei judaica. Paulo era representante dessa linha (cf. At 15,1-35; Gl 2).

i)        Paulo atravessou a Síria e a Cilícia, confirmando as igrejas” (At 15,41)

j)        Atravessaram depois a Frígia e a região da Galácia” (At 16,6)
·         Paulo não programou uma missão na região da Galácia, mas foi obrigado a permanecer nessa região por causa de uma enfermidade (cf. Gl 4,12-14).
·         Nesse ambiente impregnado de religiosidade pagã, Paulo anuncia o Evangelho de Jesus (cf. Gl 4,8-10).

k)      Atravessaram então a Mísia e desceram a Trôade. Ora, durante a noite sobreveio a Paulo uma visão. Um Macedônio de pé diante dele, fazia-lhe esse pedido: vem para a Macedônia e ajuda-nos! Logo após a visão procuramos partir para Macedônia” (At 16,9-10).  
·         Quanto ao tempo essa viagem de transferência da Síria até a fronteira norte-oriental da Ásia Menor leva alguns meses, incluindo a estada na Galácia, por causa da enfermidade de Paulo e a atividade missionária que se segue nessa região. Trôade é uma cidade portuária junto ao mar Egeu, e é a meta da longa viagem feita pelo grupo missionário, que se torna celebre por acreditar que ela é herdeira de Tróia.

l)        Tendo embarcado em Trôade, seguimos em linha reta para Samotrácia. De lá, no dia seguinte, para Neápolis, de onde partimos para Filipos, cidade principal daquela região da Macedônia, e também colônia romana” (At 16,11-12).

·         A importância de Filipos renasce com aquela que pode ser considerada sua refundação como cidade romana em 42 a.C., quando Antônio e Otaviano, em duas batalhas em campo aberto no período de poucos meses, vencem a resistência do exército de Cássio e Bruto, assassinos de César. A Filipos encontrada por Paulo, quase um século depois, é colônia romana, cidade de grande importância, que faz parte do primeiro distrito em que se divide a província romana da Macedônia.
·         A conversão de Lídia marca o nascimento da Igreja de Filipos (At 16,14-15).
·         A Igreja de Filipos ajuda financeiramente Paulo quando esse esteve em Tessalônica (cf. Fl 4,15-16).

m)   Após terem atravessado Anfípólis e Apolônia, chegaram a Tessalônica” (At 17,1).
·         Paulo, em sua carta enviada a essa comunidade, da seu testemunho a respeito da Igreja. 
n)      Os irmãos logo fizeram Paulo e Silas partirem de noite para Beréia” (At 17,10).
o)      Os que acompanhavam Paulo conduziram-no até Atenas” (At 17,15).
·         Paulo opõe-se as concepções pagãs e anuncia o verdadeiro Deus no discurso que faz aos cidadãos atenienses.
p)      Depois disso, Paulo afastou-se de Atenas e foi para Corinto” (At 18,1)
·         A estrada que leva a Corinto passa pela cidade de Istmia, onde surge o célebre santuário dedicado a Poseidon, protetor dos navegantes. Ali, a cada dois anos, na primavera são celebrados os “Jogos Ístimicos, os mais importantes depois dos de Olímpia, gerando grande atividade comercial (ver a 1 carta de Paulo aos Corintios 9,26-27 onde se refere as atividades esportivas para falar do seu método de evangelização).
·         A cidade de Corinto foi completamente destruída em 146 a.C. Com a reconstrução realizada por Júlio Cesar, em 44 a.C., ela se torna colônia romana e capital da província romana da Acaia.
·         A posição favorável de Corinto às margens de uma fértil planície, que se estende a ocidente ao longo da costa, na encruzilhada de importantes vias comerciais, está na base da sua riqueza, conhecida e celebrada em todos os tempos. Desde a antiguidade Corinto se destaca na construção de navios para o comércio e para a guerra. Contudo sua especialidade sempre foi à cerâmica.
q)      Chegados a Éfeso, deixou os companheiros ali. Ele próprio dirigiu-se a sinagoga, onde se entreteve com os judeus. Estes lhe pediram que prolongassem a sua estada, mas Paulo não concordou. Despedindo-se deles, porém, disse: virei ter convosco novamente se Deus quiser. E zarpou de Éfeso. Tendo desembarcado em Cesaréia, subiu para saudar a Igreja, descendo de novo para Antioquia. Passando algum tempo, partiu de novo e percorreu sucessivamente o território da Galácia e da Frígia, confirmando todos os discípulos” (At 18,19-23).
r)       Enquanto Apolo estava em Corinto, Paulo, depois de ter atravessado o planalto, chegou a Éfeso” (At 19,1)
·         Entrementes, permanecerei em Éfeso até Pentecostes, pois aqui se abriu uma porta larga, cheia de perspectivas para mim, e os adversários são numerosos” (1 Cor 16,8-9)
·         Éfeso é uma das maiores metrópoles do império. Ai chegam comerciantes de tecidos e peles, metais e pedras preciosas, de especiarias e essências do oriente. Em seu porto, atracam os navios de Alexandria, que descarregam trigo e carregam óleo e vinho, madeiras e metais, tecidos de púrpura e linho.
·         Éfeso é o centro do culto da Magna Mater, identificada com Ártemis. Desde o séc. VIII, existe um templo, varias vezes reconstruído dedicado a Ártemis. No séc. I d.C., o Artemision de Éfeso é conhecido como uma das sete maravilhas do mundo (At 19,23ss).
·         Ao ler 2 Cor 1,8-11, Paulo deixa claro que na Ásia correu risco de vida.
·         Paulo se despede da Igreja de Éfeso e faz o caminho de volta com a intenção de subir a Jerusalém (cf. At 20)