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sábado, 2 de agosto de 2025

Entre muros e jardins

 Nossa comunidade deve destruir muros e construir jardins. Nós construímos muros para proteger nossas casas e acabamos por nos afastar. O profeta Zacarias em uma de suas visões ouve o Anjo lhe dizer: “Corra, vá dizer àquele moço que Jerusalém deve ficar sem muros, por causa da multidão de homens e animais que ela deverá acolher” (Zc 2,8).

Deus prefere plantar jardins. Os cheiros das flores atraí pessoas, seu perfume traz inúmeras sensações. São Paulo diz que devemos ser “perfumes de Deus” (2 Cor 2,15). Desta forma, se nossas comunidades plantam jardins, elas vão inevitavelmente atrair para que assim aja um desejo comum de desde cedo sentir o amor de Deus e a Ele elevar a alma (Cf. Sl 143,8). 

O jardim é imagem de enamoramento do Amado no Cântico dos cânticos, tanto que a Amada canta dizendo, “soprem no meu jardim para espalhar seus perfumes. Entre o meu amado em seu jardim e coma de seus frutos saborosos!” (Cf. Ct 4,16). É no jardim que devemos lançar a semente, porque o Espírito quer fazer crescer (Cf. Lc 13,19) para saborearmos frutos de verdadeira conversão (Cf. Mt 3,12). É justamente de um jardim que o cheiro da salvação se espalhou pelo mundo (Cf. Jo 19,41). Foi pisando em rosas, lírios e jasmins que o Cristo ressuscitado apareceu a Maria Madalena. Dessa forma, somos chamados a ser o cheiro daquele que venceu a morte! 

O profeta Isaías nos exorta a cuidar do jardim. Cuidado, cuidem do jardim para que não morra o que Deus plantou! Para isso, é necessário cultivar a vida no Espírito para que sua comunidade não se transforme em um “jardim sem água “ (Is 1,29). 





domingo, 30 de março de 2025

Uma história de perdão

 

Deus nunca abandonou o homem à própria sorte e, em sua infinita misericórdia, quis sempre salvá-lo. Em todo o fio que se desenrola pela Sagrada Escritura, vemos um Deus sempre pronto a perdoar, que quer “a misericórdia e não o sacrifício”. A aliança que Deus faz com o homem de Adão a Noé, de Abraão a Davi, de Amós a João Batista se realizou de modo definitivo no mistério pascal de Cristo Jesus, Nosso Senhor, que é o dom do Pai que, gratuitamente, oferta-se por nossa Salvação. É este anúncio que Pedro faz no dia de Pentecostes a todos os ouvintes que participavam da festa naquela ocasião: “A este Jesus (que foi crucificado), Deus o ressuscitou, e disto nós somos testemunhas. Portanto, exaltado pela direita de Deus, ele recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e o derramou, e é isto o que vedes e ouvis... Saiba, portanto, com certeza, toda a casa de Israel: Deus o constituiu Senhor e Cristo, este Jesus a quem vós crucificastes” (At 2,32-33.36). A força do discurso do grande apóstolo fez com que os ouvintes se perguntassem: “O que devemos fazer irmãos?”, e Pedro prontamente responde: “arrependei-vos e batizai-vos, cada qual invocando o nome de Jesus Cristo, para que sejam perdoados os vossos pecados” (At 2, 38). O arrependimento nos coloca sentados à mesa no banquete do perdão que é abundante, alimenta-nos da certeza da vida eterna e faz de nós “novas criaturas” (2 Cor 5,17).

A parábola do filho pródigo (Lc 15,11) ilustra bem o que queremos dizer. Essa é uma história de perdão. O filho “pede a parte da herança que lhe cabe”, abandona a casa do pai. Segue o seu caminho e amarga, ao longo dele, muita decepção. Ele (o filho) colocou tudo a perder, e de repente veio a lembrança da casa do pai: “até os empregados da casa do meu pai têm pão com fartura”. Maior do que a sua tristeza, foi a decisão de voltar para casa do pai. Maior que a sua dúvida, foi a alegria que invadiu o seu coração quando o pai pulou no seu pescoço, abraçou-o e beijou-o. “Vamos fazer uma festa – disse o pai – pois esse meu filho estava morto e voltou a viver, estava perdido e foi reencontrado”. Aqui reluz a imensa bondade e misericórdia de Deus que, a exemplo do pai da parábola, está sempre pronto a nos acolher, amparar, auxiliar e perdoar. É o arrependimento e a firme decisão de voltar para a casa do Pai, que faz com que a festa no céu comece!

A parábola ilustra bem o que o pecado é capaz de fazer com uma pessoa. E isso é importante que você compreenda: o pecado é uma desgraça. Conheci um jovem que morava próximo a nossa comunidade e quis levá-lo para participar, conosco, do grupo de oração. Ele riu, e disse que não tinha tempo para isso. Um dia saindo da missa, esse mesmo jovem me abordou. Fiquei surpreso, pois ele lembrava o meu nome. Pediu-me dinheiro. Sabia que era para usar droga. Sua face apresentava os primeiros traços de desfiguração. Passado um tempo, um jovem aproximou-se do carro que estava dirigindo e me pediu dinheiro. Custei a reconhecer: era aquele jovem que riu do convite que lhe fiz para ir ao grupo de oração. Me deu uma tristeza imensa. Ele já não me conhecia mais. O pecado mudou quem ele era, transformando sua alegria em tristeza. Muitas vezes, o nosso corpo denuncia o que o pecado faz; às vezes, não. Mas, quando abandonamos a casa do Pai, lugar do amor e da misericórdia, nossa alma fica assim, atingida por um sono mortal, perturbador.

Então o filho cai em si “Pai, pequei contra o céu e contra ti”. Ele faz o seu exame de consciência.  Reconhece o mal que foi ter saído da casa do Pai. Esse passo é muito importante em nosso processo de cura interior, pois examinamos o que fazemos à luz dos preceitos divinos e percebemos a distância que se estabeleceu entre nós e Deus. O que somos e o que devemos nos tornar depende do encontro com o Deus misericordioso, revelado por Cristo, que sempre nos recebe de braços abertos. Em meio ao nosso sono, somos despertados e, diante de nós, aparece um espelho que, à luz do Espírito Santo, faz-nos ver quanto mal o pecado nos faz e o quanto precisamos do perdão de Deus.

“Na casa do meu pai há pão com abundância... vou voltar e dizer: Pai, pequei contra o céu e contra ti...". Ele admite o erro e toma a firme decisão de voltar à casa do Pai. Esse passo é, sem dúvida, o mais doloroso, pois envolve a aceitação de si mesmo e a dúvida sobre a aceitação por parte dos outros. Uma vez, fazendo um trabalho assistencial com os moradores de rua da minha cidade, perguntei a um deles se ele não tinha casa. Ele me respondeu que sim. Então perguntei porque ele não voltava, e ele disse: “eles não me aceitariam depois do que fiz”. Esse exemplo ilustra a dura decisão que precisamos tomar. Além de reconhecer o erro, precisamos ter coragem de admiti-lo. Devemos estar certos da imensa misericórdia de Deus, “que não leva em conta nossas faltas. Se o fizesse, o que seria de nós? Nele se encontra o perdão” (Cf.Sl 129). Tudo pode ser perdoado desde que haja arrependimento. Um bom exemplo disso é o caso do ladrão ao lado da cruz. Ele admitiu o erro que o levou àquela condenação e reconheceu que Jesus não merecia isso, pois era inocente do crime que lhe havia sido imputado. A sua consciência o acusou diante do juiz que julga com amor, por isso, ouviu o que não esperava: “hoje mesmo estarás comigo no paraíso”. O ladrão encontrou a salvação, sendo recebido na eternidade por aquele que espera nosso arrependimento.

“Pai, pequei contra o céu e contra ti, já não sou digno de ser chamado seu filho”. Diante do mal que o filho fez a si mesmo, ele decide-se voltar à casa do pai. Quer ser recebido pelo menos como um empregado. A condição em que se encontrava gerou uma mudança de consciência com relação a si mesmo e ao mundo que o cercava. As bebedeiras, orgias, comilanças, orgulho e avareza passaram a causar nele uma tristeza que produziu arrependimento (cf. 2 Cor 7,10). Às vezes, por não querermos enfrentar a realidade, enganamo-nos considerando que tudo vai bem. Criamos desculpas que amenizam nossa culpa e continuamos vivendo como se não tivéssemos feito nada de errado. Mas, chega uma hora, que não suportamos mais essa situação. Do fundo de nossa alma, gritamos: “pequei”.

O arrependimento exige da pessoa uma relação de confiança na bondade e misericórdia divina. Confessar os pecados é humilhar-se diante da mão poderosa de Deus que não nos pune, mas perdoa. No aspecto jurídico, toda a acusação da qual eu sou culpado, deve ser punida conforme a lei. A experiência com o Cristo ressuscitado, coloca-nos diante de outra lei, imutável, que transcende nossa compreensão, lei que não pune, mas salva, que não condena, mas perdoa, lei do amor, a mesma que fez com que houvesse festa na casa do pai. O anel do dedo, as sandálias e a veste nova são sinais da dignidade que foi restaurada. É importante levar em conta, nesse itinerário, a força dessa palavra: RESTAURAÇÃO. Esse é um ofício do artista que quer fazer com que a obra se assemelhe ao que era antes. Com todo o cuidado, trabalha incansavelmente para que a obra seja contemplada da forma como foi concebida pelo criador. O divino artista trabalha assim, para fazer com que a deformidade causada pelo pecado dê lugar ao “homem novo”, transformado pela força do perdão.

A boa nova que a Igreja anuncia é essa: Deus vem perdoar os pecados! Aos seus apóstolos ele diz “o que ligares na terra será ligado no céu, e o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,19; 18,18; Jo 20,22s). Esse poder é exercido em nome de Cristo, e o sacerdote quando nos recebe no confessionário faz às vezes do Pai da parábola que celebra com alegria nossa reconciliação. A sentença que se repete constantemente é essa: “esse meu filho estava morto e voltou a viver, estava perdido e foi reencontrado”. Nesse encontro, somos julgados pelo amor, e essa dinâmica do encontro nos traz de volta para a comunhão da qual nos afastamos por causa do pecado.

 

 

quinta-feira, 20 de março de 2025

O banho do Espírito

          “Estando ele a orar, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre ele” (Lc 3, 21-22). 

O batismo de João é um batismo de arrependimento, que preparava o povo para a chegada do Reino de Deus. Ele exortava o povo a uma mudança de vida. Isso é Metanóia. Essa é uma palavra de origem grega que significa arrependimento, conversão, mudança de direção. É um itinerário, um caminho de quem se “acomoda” a uma nova forma de viver. O que João propõe é uma mudança radical de valores ajustada à escolha que fazemos pelo Reino. Opiniões, crenças, comportamentos, pensamentos e atitudes são conformados pelo projeto do Reino, anunciado por João e levado à plenitude em Cristo Jesus, Nosso Senhor. Metanóia é um caminho de confrontos inevitáveis entre o que sou e o que devo me tornar. Por isso a necessidade de arrependimento.

Alguém pode se perguntar: porque devo me arrepender? Porque reconheço que sou pecador, necessitado da misericórdia divina, percebo quando olho para mim, que erro, me desvio, saio da rota e tenho que voltar atrás, para depois seguir em frente. É o Espírito Santo que me conduz nessa hora a um verdadeiro arrependimento porque é Ele que nos convence sobre o pecado (Cf. Jo 16, 12). 

O pecado é uma ofensa. Deus revela todo o seu amor em Jesus, seu Filho, mas nós o abandonamos, nos deixamos ser escravizados pelo mal, valorizando falsamente as coisas deste mundo, iludidos pelo prazer efêmero que não sacia nossa sede de amor e plenitude. O Catecismo diz que “o pecado é uma falta contra a razão, a consciência reta; é uma falta ao amor verdadeiro, para com Deus e para com o próximo, por causa de um apego perverso a certos bens” (CIC 1849). 

Quando pecamos nos afastamos de Deus, do seu amor, ofendemos, machucamos e pervertemos a ordem estabelecida pelo Criador. Não enxergamos, ficamos cegos e surdos, decaídos pelos males cometidos. Estamos vivos, mas nossa alma está morta. Essa condição de mortandade da alma é um perigo, pois põe em risco a nossa salvação. É o arrependimento que nos devolve a condição de “agraciados”, de união íntima com Deus, nos aproxima novamente da graça santificante e devolve a vida que tínhamos perdido. 

Na dimensão sacramental, isso acontece através do Sacramento do Batismo, também chamado de “banho da renovação no Espírito Santo” (Cf. CIC 1215). Batizar significa «mergulhar», «imergir». A «imersão» na água simboliza a sepultura do catecúmeno na morte de Cristo, de onde sai pela ressurreição com Ele como «nova criatura» (2 Cor 5, 17; Gl 6, 15).

Uma vez batizados recebemos uma graça santificante que passa a atuar constantemente em nós. Nosso grande desafio é justamente permanecer nessa graça e isso é possível por meio do arrependimento. Nada deve ser mais importante do que permanecer nessa condição de “agraciados”. Sendo assim, o Espírito Santo age para nos lembrar da nossa condição de pecadores e fazer com que examinemos nossa vida à luz do mistério salvífico de Cristo. Sempre em nossos lábios deve ressoar a oração “vinde Espírito Santo” para que ele realize essa obra de transformação. 

Proponho uma imagem para ilustrar o que quero dizer. Todos os dias tomamos banho. Mas, tem alguns momentos que o banho é mais especial. Por exemplo, quando a mãe dá o primeiro banho no seu bebe ou quando o jovem toma banho para se encontrar pela primeira vez com sua “paquera”. Esse banho é caprichado! Imagina o banho do homem e da mulher no dia do casamento?! Pois bem, alguns banhos são mais especiais que outros. Digo isso para você entender que o banho recebido no Batismo é diferente. Confere uma graça santificante além de nos associar por toda a vida ao mistério de Cristo. Porém, precisamos tomar banho todos os dias, não é verdade? Esse banho diário simboliza a necessidade diária de ser banhado pelo Espírito Santo para renovação, limpeza e purificação da alma. 

Então se apresse e tome hoje o banho do Espírito. Diga que toda convicção: “Vinde Espírito Santo”.  


domingo, 29 de dezembro de 2024

Nazaré é a escola, José e Maria, os mestres

      Hoje celebramos a Sagrada Família, Jesus, Maria e José. Nossos olhos se voltam para a casa de Nazaré, onde o ordinário se transforma em extraordinário. 

Uma verdade que pode ser enxergada em toda a história é que Deus quer nos salvar. E chegada “a plenitude dos tempos” (Cf. Gl 4,4) contemplamos o mistério da encarnação, Deus no meio de nós, assumindo nossa condição humana. Esse mistério tem o cheiro e a cor da casa de Nazaré, onde Deus se fez pequeno. 

Maria e José, foram surpreendido pelo divino, o poder do alto os cobriu e agora eles se tornaram pais do “príncipe da paz”, o messias esperado. No misto de alegria e medo, estupor e fé, eles foram respondendo ao chamado e fazendo aquilo que o Altíssimo esperava deles que era cuidar de Jesus. E os autores sagrados dão testemunho do bom trabalho de Maria e José, quando afirmam que o “menino crescia em sabedoria, estatura e graça”. 

Aprendemos com a celebração de hoje, que a salvação do gênero humano passa pela família. Negar isso é caminhar para a destruição. O próprio mistério da encarnação nos prova isso. É na família que a vida nasce e cresce. A biologia faz o seu papel quando homem e mulher se unem. Mas, isso não é suficiente. É preciso cuidar. E é aí que se dá a salvação, no cuidado. Sem cuidado, tudo se desfaz, se arruina. É no cuidado que testemunhamos o mandamento do amor. Existe lugar melhor para aprendermos as lições do cuidado do que na família? 

Existe uma canção que simboliza essa verdade quando diz “quem ama, cuida”. Isso é verdade. Deus prova que cuida de nós quando nos coloca em uma família. Fez isso com seu próprio Filho (Cf. Jo 3,16) e faz com com cada um de nós quando nos dar um lar. 

Podemos dizer que o amor celebrado a casa dia no lar é que cura. O contrário é o que adoece. O amor em forma de abraço, sorriso, perdão, correção, renova as esperanças. Já o ódio, a vingança, as disputas e indiferença vão diminuindo as expectativas. Uma casa se sustenta pela promoção da paz e se destroi pela perpetuação da violência em todas as suas formas. As feições do divino se dão em uma casa que se humaniza a cada gesto marcado pelo amor e o perdão. 

Nazaré é escola, José e Maria são mestres que nos ensinam como nossa família deve ser. E não pensem que ao olhar para esse lar você vai encontrar grandes prodígios. O que te espera nessa casa é a vivência dos valores que nos humanizam. Rezem, trabalhem, dialoguem, sorriam, perdoem, celebrem, suportem e sua casa vai se transformar na nova Nazaré, lugar onde cresce a civilização do amor. 

domingo, 3 de novembro de 2024

Entre substantivos e verbos

  Aprendemos na escola que o substantivo é a classe gramatical que indica pessoas, lugares, objetos e sentimentos. O verbo uma ação. Por exemplo: “Jesus te ama”. Qual o substantivo? Jesus. E o verbo? Ter. Qual a relação dessas classes gramaticais com o boa nova de Jesus? No próprio significado do nome “Jesus” já descobrimos a resposta. “Deus salva”. Isso demonstra uma ação. E qual? A salvação de todo gênero humano. 

      O profeta Isaías diz que nosso nome esta gravado na palma da mão de Deus. O nome é substantivo. O meu e o seu nome é do conhecimento de Deus, ele sabe quem somos. Conhecer é verbo. Somos obra das mãos de Deus, o Criador, que conhece suas criaturas e quer se revelar a nós. São Francisco compreendeu tão bem isso que vivia cantando por aí, “o amor não é amado” para chamar a atenção dos seus ouvintes que assim como Deus nos conhece, nós devemos querer conhecê-lo porque ele se deixa conhecer. 

         Deus é amor e é nisso que consiste o conhecimento de Deus. “De tal modo Deus amou o mundo que enviou seu Filho”. Pedro e João, André e Tiago, todos os apóstolos, santos e mártires, apreenderam que nossa vocação é o amor, como muitos anos depois diria Santa Terezinha. Ontem, hoje e amanhã, essa vai ser sempre a mesma lição transmitida de diversos modos e maneiras para alcançarmos a verdadeira felicidade. 

    Você acredita que Jesus, o Filho amado, o enviado do Pai, quer a nossa felicidade? Sim, é isso que ele quer! Felicidade é substantivo. Por isso mesmo ele nos apresenta seu projeto. Um certo dia ele conta uma história para ilustrar seu projeto de salvação. Na história ele usa diversos verbos como comer, beber, vestir, receber e visitar (Cf. 25,31ss). 

      Os que são chamados de benditos são aqueles que deram de comer aos que têm fome, de beber aos que têm sede. São os que vestem os nus, recebem os peregrinos e visitam os presos. Já os que são chamados de malditos são aqueles que fazem o contrário. A verdadeira felicidade vem dos verbos e não dos substantivos. É isso que Jesus ensina quando nos conta essa história. 

        Pessoas e lugares são substantivos, mas o que dá sentido são os verbos. São muitos os que têm fome e estão presos. Eles muitas vezes são só números. Mas, quando alguém enxerga um faminto e o alimenta, ou visita um encarcerado, passa a caminhar com Jesus e é chamado por ele de benditos.

   Essa história contada por Jesus inspirou aquilo que chamamos, obras de misericórdia. O Papa Francisco, marcado pela misericórdia divina, transformou um substantivo em verbo. Ele disse que precisamos se deixar misericordiar por Deus. Deixar-se misericordiar para misericordiar. Assim, pessoas e lugares alcançam a verdadeira felicidade. 








terça-feira, 29 de outubro de 2024

Meditando com Santa Terezinha - As misericórdias do Senhor

 

Quando Santa Terezinha começa “a história de uma alma”, ela sente um pesar no coração por ter que se ocupar consigo mesma. Mas, depois fica contente, porque o que ela vai fazer é simplesmente cantar “as misericórdias do Senhor (Cf. Sl 88,2)”.

Ela lê através da sua própria vida, aquilo que Deus fez em favor do seu povo. O Salmista reconhece que a “misericórdia será edificada para sempre” (Cf. Sl 88,3). Não poderíamos nesse momento contemplar o crucificado e reconhecer que através dele, a misericórdia de Deus foi edificada eternamente? Quando Tereza compõe sua bela poesia “Viver de Amor” ele diz que viver de amor, “é com Jesus, subir o Calvário, é olhar a cruz como um tesouro”. Qualquer um que contemple, o Cristo no Calvário, não pode querer outro coisa, senão viver de amor, assim como Tereza, para cantar eternamente, “as misericórdias do Senhor”.

Ao longo do salmo que Tereza reza, vemos o autor sagrado reconhecer a grandeza de Deus que escolheu seu povo, seus eleitos e servos. Que Ele outrora, fez aliança com esse mesmo povo manifestando o seu amor para com eles. Assim como Deus “encontrou Davi” (Cf. Sl 88, 21), ele encontrou Tereza. Davi e Tereza tem muito em comum. Ambos eram pequenos. Davi não foi a primeira escolha de Samuel para ocupar o trono de Israel, mas foi sobre ele que Deus pousou a mão, ungindo-o como Rei. Tereza, por sua vez, entra muito jovem para a vida religiosa e devido a problemas de saúde, acaba passando mais tempo na enfermaria. Com pouca idade e de saúde tão frágil, quem arriscaria confiar algo a essa jovem religiosa? Na sua pedagogia divina, Deus escolhe os pequeninos (Cf. Mt, 11, 25-30), e entre esses, Tereza, que cantou ao longo da sua vida, “as misericórdias do Senhor”.

Quando Tereza medita a “misericórdia divina” ela sente uma doce alegria por saber que Deus “é justo, por levar em conta nossas fraquezas e conhecer perfeitamente a fragilidade da nossa natureza” (Manuscrito A, 237). Quem sabe quando ela diz isso, não tivesse recordado o pecado de Davi. O grande rei Davi, cometeu um grave pecado, abusando do seu poder.  Ele sente em sua alma uma dor e um peso enorme que só é aliviado graças a misericórdia divina. E é sabendo que somos feitos de barro, fracos frágeis, que Deus vem ao nosso encontro para nos fazer fortes. E porque Deus quer contar com os fracos frágeis? Para contarmos as “misericórdias do Senhor”.

Tereza entende que sua vida foi um grande transbordamento da misericórdia divina que olhou para sua fraqueza e fragilidade, “Ele que nos dias de sua vida mortal, exclamava num transporte de alegria: ‘meu Pai, eu vos dou graças porque escondestes essas coisas aos sábios e prudentes e as revelastes aos pequeninos’, queria fazer resplandecer em mim, sua misericórdia; por ser pequena e fraca, abaixava-se até mim, instruía-me em segredo, sobre as coisas de seu amor” (Manuscrito A, 141). Tereza sente tão forte o pulsar da misericórdia, que ela se oferece ao amor misericordioso. Ao pensar nas almas que se oferecem a justiça divina para aplacar a ira de Deus e desviar o castigo reservado aos culpados, ela reconhece que isso é grande e generoso, mas, não precisa mais delas o “amor misericordioso do Senhor?

A Santa reconhece que o amor misericordioso é desconhecido e rejeitado. As criaturas buscam inutilmente a felicidade onde não a encontrarão. Para Tereza, a verdadeira felicidade é estar nos braços daquele que tem o amor infinito. Por isso, ela quer ser oferecer como vítima de holocausto ao divino amor para que este fogo alcance os que estão longe.

Relendo novamente o salmo que Tereza traz nos lábios quando começa a contar a “história de uma alma” reconhecemos um único grito que ecoa sem cessar: o da misericórdia! Esse grito pode ser ouvido por meio da criação e das criaturas, no ontem e hoje da história que continuam a narrar “as misericórdias do Senhor”.

domingo, 18 de agosto de 2024

O Espírito Santo nos leva ao deserto

 “Cheio do Espírito Santo, voltou Jesus do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto”

Muitas vezes ouvimos falar do deserto nas Escrituras, isso porque o lugar onde acontecem muitas das histórias narradas se dá em uma região desértica. A geografia acabou trazendo muitas lições para a teologia que passou a reconhecer o deserto como o lugar do encontro com Deus. A palavra hebraica midbar, traduzida como deserto, é na verdade "o lugar da palavra", onde Deus estabelece um diálogo constante. 

O povo hebreu precisou atravessar um deserto para chegar à terra prometida. Foi ali que eles descobriram o Deus que se deixou conhecer, rico em paciência,que foi se revelando a cada passo em meio às vicissitudes da própria caminhada. O grande “Eu sou” foi se transformando no “sou Eu” reconhecido como aquele “que tem nosso nome gravado na palma da mão” (Cf. Is), e que nos conhece “desde o ventre materno” (Cf. Jr). Esse percurso se transformou em uma imagem da travessia que todos nós temos que fazer para chegar ao céu. Durante essa travessia, iremos lidar com inúmeras situações que vão nos provar, exigir de nós força para vencer. 

Por que o Espírito Santo nos conduz ao deserto? para nos provar, isso mesmo, nos provar! Mas, porque o Espírito Santo quer nos provar? Temos que ser capazes de atravessar o deserto da vida que costuma ser muito exigente, e é sendo provado que vamos descobrindo nossa força. 

O nosso Divino Amigo, nos deixou essa lição. Jesus foi provado no deserto, Ele teve que passar por isso para nos ensinar a reconhecer a ação do mal e adquirir a força para vencer. Assim como Jesus, nós iremos bater de frente com o Tentador que vai fazer de tudo para nos derrotar, levando a morte espiritual. As situações que Jesus enfrenta, são as que nós enfrentamos no cotidiano. Por isso, para vencer, devemos fazer como ele fez. E como Jesus fez para vencer? “Permaneceu firme! Contemplando essa cena vemos que devemos “resistir ao Diabo” (Cf. Tg 4,7). Essa resistência vem da insistência de querer continuar, não desistir, de confiar naquele que nos ensina com palavras e obras.

O que o Espírito quer de nós quando nos leva ao deserto? nos ajudar a vencer as tentações. São inúmeras as tentações que sobrevêm no dia a dia. Poderíamos falar de muitas, mas queria apontar duas: o ter e o parecer. 

Podemos ao longo da vida querer ser reconhecidos pelo que temos e não pelo que somos. Daí nos esforçamos para ter cada vez mais, caímos na ilusão de que nosso valor vem do que possuímos. Dessa forma, nos tornamos egoístas e passamos a pensar só em si mesmo. Ter poder, fama e prazer passa a ser nossa busca contínua. Nos enganamos com muita facilidade nos deixando levar por essas tentações. Desta forma exploramos pessoas, coisificamos nossas relações, procuramos a satisfação através de prazeres efêmeros nos deixando levar por um espírito irascível.   

Trocamos o ser pelo ter, e com isso deixamos de ser mais humanos para ter mais “humanos” para idolatrar. Acabamos por deusificar a vida sem Deus, caindo no engano de depender mais de si mesmo e dos outros do que do próprio Deus. Dessa forma, viramos caricaturas, cópias que traduzem muito mal o que somos realmente. Na ânsia de querer ter passamos a parecer mais com animais do que com humanos a quem Deus fez “imagem e semelhança”. Passamos a ser animados por um espírito animalesco do que pelo Espírito divino e passamos a viver sem a água viva que sacia nossa sede durante a travessia do deserto da vida. 

Jesus, repleto do Espírito Santo, passa pelo deserto fazendo as trocas certas. O diabo lhe ofereceu todos os reinos do mundo se ele se ajoelhasse diante dele e o Messias escolheu adorar e servir a Deus. Não se dando por satisfeito, o tentador tenta o Senhor, e o Senhor responde a ele assim, “não tente o Senhor seu Deus”. Antes, o acusador quis dar pão ao Mestre, mas, a que preço? Não aceitando o preço cobrado por ele, nosso Salvador diz que “não só de pão vive o homem”. 

É  isso que o Espírito Santo quer de nós, que vivamos por Deus, para Deus e com Deus, deixando que Ele forme em nós o ser humano “perfeito” (Cl 1,28; 2 Tm 3,17; Fl 3,15-16; Tg 1,4).