Quando Santa Terezinha começa “a história
de uma alma”, ela sente um pesar no coração por ter que se ocupar consigo mesma.
Mas, depois fica contente, porque o que ela vai fazer é simplesmente cantar “as
misericórdias do Senhor (Cf. Sl 88,2)”.
Ela lê através da sua própria vida,
aquilo que Deus fez em favor do seu povo. O Salmista reconhece que a “misericórdia
será edificada para sempre” (Cf. Sl 88,3). Não poderíamos nesse momento
contemplar o crucificado e reconhecer que através dele, a misericórdia de Deus
foi edificada eternamente? Quando Tereza compõe sua bela poesia “Viver de Amor” ele diz
que viver de amor, “é com Jesus, subir o Calvário, é olhar a cruz como um
tesouro”. Qualquer um que contemple, o Cristo no Calvário, não pode querer
outro coisa, senão viver de amor, assim como Tereza, para cantar eternamente, “as
misericórdias do Senhor”.
Ao longo do salmo que Tereza reza,
vemos o autor sagrado reconhecer a grandeza de Deus que escolheu seu povo, seus
eleitos e servos. Que Ele outrora, fez aliança com esse mesmo povo manifestando
o seu amor para com eles. Assim como Deus “encontrou Davi” (Cf. Sl 88, 21), ele
encontrou Tereza. Davi e Tereza tem muito em comum. Ambos eram pequenos. Davi
não foi a primeira escolha de Samuel para ocupar o trono de Israel, mas foi sobre
ele que Deus pousou a mão, ungindo-o como Rei. Tereza, por sua vez, entra muito
jovem para a vida religiosa e devido a problemas de saúde, acaba passando mais
tempo na enfermaria. Com pouca idade e de saúde tão frágil, quem arriscaria
confiar algo a essa jovem religiosa? Na sua pedagogia divina, Deus
escolhe os pequeninos (Cf. Mt, 11, 25-30), e entre esses, Tereza, que cantou ao
longo da sua vida, “as misericórdias do Senhor”.
Quando Tereza medita a “misericórdia divina”
ela sente uma doce alegria por saber que Deus “é justo, por levar em conta
nossas fraquezas e conhecer perfeitamente a fragilidade da nossa natureza”
(Manuscrito A, 237). Quem sabe quando ela diz isso, não tivesse recordado o
pecado de Davi. O grande rei Davi, cometeu um grave pecado, abusando do seu poder.
Ele sente em sua alma uma dor e um peso enorme
que só é aliviado graças a misericórdia divina. E é sabendo que somos feitos de
barro, fracos frágeis, que Deus vem ao nosso encontro para nos fazer fortes. E porque
Deus quer contar com os fracos frágeis? Para contarmos as “misericórdias do
Senhor”.
Tereza entende que sua vida foi um grande
transbordamento da misericórdia divina que olhou para sua fraqueza e
fragilidade, “Ele que nos dias de sua vida mortal, exclamava num transporte de
alegria: ‘meu Pai, eu vos dou graças porque escondestes essas coisas aos sábios
e prudentes e as revelastes aos pequeninos’, queria fazer resplandecer em mim,
sua misericórdia; por ser pequena e fraca, abaixava-se até mim, instruía-me em
segredo, sobre as coisas de seu amor” (Manuscrito A, 141). Tereza sente tão
forte o pulsar da misericórdia, que ela se oferece ao amor misericordioso. Ao pensar
nas almas que se oferecem a justiça divina para aplacar a ira de Deus e desviar
o castigo reservado aos culpados, ela reconhece que isso é grande e generoso,
mas, não precisa mais delas o “amor misericordioso do Senhor?”
A Santa reconhece que o amor
misericordioso é desconhecido e rejeitado. As criaturas buscam inutilmente a
felicidade onde não a encontrarão. Para Tereza, a verdadeira felicidade é estar
nos braços daquele que tem o amor infinito. Por isso, ela quer ser oferecer como
vítima de holocausto ao divino amor para que este fogo alcance os que estão
longe.
Relendo novamente o salmo que Tereza
traz nos lábios quando começa a contar a “história de uma alma” reconhecemos um
único grito que ecoa sem cessar: o da misericórdia! Esse grito pode ser ouvido
por meio da criação e das criaturas, no ontem e hoje da história que continuam
a narrar “as misericórdias do Senhor”.
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