Páginahttps://www.vaticannews.va/pt.htmls

domingo, 29 de dezembro de 2024

Nazaré é a escola, José e Maria, os mestres

      Hoje celebramos a Sagrada Família, Jesus, Maria e José. Nossos olhos se voltam para a casa de Nazaré, onde o ordinário se transforma em extraordinário. 

Uma verdade que pode ser enxergada em toda a história é que Deus quer nos salvar. E chegada “a plenitude dos tempos” (Cf. Gl 4,4) contemplamos o mistério da encarnação, Deus no meio de nós, assumindo nossa condição humana. Esse mistério tem o cheiro e a cor da casa de Nazaré, onde Deus se fez pequeno. 

Maria e José, foram surpreendido pelo divino, o poder do alto os cobriu e agora eles se tornaram pais do “príncipe da paz”, o messias esperado. No misto de alegria e medo, estupor e fé, eles foram respondendo ao chamado e fazendo aquilo que o Altíssimo esperava deles que era cuidar de Jesus. E os autores sagrados dão testemunho do bom trabalho de Maria e José, quando afirmam que o “menino crescia em sabedoria, estatura e graça”. 

Aprendemos com a celebração de hoje, que a salvação do gênero humano passa pela família. Negar isso é caminhar para a destruição. O próprio mistério da encarnação nos prova isso. É na família que a vida nasce e cresce. A biologia faz o seu papel quando homem e mulher se unem. Mas, isso não é suficiente. É preciso cuidar. E é aí que se dá a salvação, no cuidado. Sem cuidado, tudo se desfaz, se arruina. É no cuidado que testemunhamos o mandamento do amor. Existe lugar melhor para aprendermos as lições do cuidado do que na família? 

Existe uma canção que simboliza essa verdade quando diz “quem ama, cuida”. Isso é verdade. Deus prova que cuida de nós quando nos coloca em uma família. Fez isso com seu próprio Filho (Cf. Jo 3,16) e faz com com cada um de nós quando nos dar um lar. 

Podemos dizer que o amor celebrado a casa dia no lar é que cura. O contrário é o que adoece. O amor em forma de abraço, sorriso, perdão, correção, renova as esperanças. Já o ódio, a vingança, as disputas e indiferença vão diminuindo as expectativas. Uma casa se sustenta pela promoção da paz e se destroi pela perpetuação da violência em todas as suas formas. As feições do divino se dão em uma casa que se humaniza a cada gesto marcado pelo amor e o perdão. 

Nazaré é escola, José e Maria são mestres que nos ensinam como nossa família deve ser. E não pensem que ao olhar para esse lar você vai encontrar grandes prodígios. O que te espera nessa casa é a vivência dos valores que nos humanizam. Rezem, trabalhem, dialoguem, sorriam, perdoem, celebrem, suportem e sua casa vai se transformar na nova Nazaré, lugar onde cresce a civilização do amor. 

domingo, 3 de novembro de 2024

Entre substantivos e verbos

  Aprendemos na escola que o substantivo é a classe gramatical que indica pessoas, lugares, objetos e sentimentos. O verbo uma ação. Por exemplo: “Jesus te ama”. Qual o substantivo? Jesus. E o verbo? Ter. Qual a relação dessas classes gramaticais com o boa nova de Jesus? No próprio significado do nome “Jesus” já descobrimos a resposta. “Deus salva”. Isso demonstra uma ação. E qual? A salvação de todo gênero humano. 

      O profeta Isaías diz que nosso nome esta gravado na palma da mão de Deus. O nome é substantivo. O meu e o seu nome é do conhecimento de Deus, ele sabe quem somos. Conhecer é verbo. Somos obra das mãos de Deus, o Criador, que conhece suas criaturas e quer se revelar a nós. São Francisco compreendeu tão bem isso que vivia cantando por aí, “o amor não é amado” para chamar a atenção dos seus ouvintes que assim como Deus nos conhece, nós devemos querer conhecê-lo porque ele se deixa conhecer. 

         Deus é amor e é nisso que consiste o conhecimento de Deus. “De tal modo Deus amou o mundo que enviou seu Filho”. Pedro e João, André e Tiago, todos os apóstolos, santos e mártires, apreenderam que nossa vocação é o amor, como muitos anos depois diria Santa Terezinha. Ontem, hoje e amanhã, essa vai ser sempre a mesma lição transmitida de diversos modos e maneiras para alcançarmos a verdadeira felicidade. 

    Você acredita que Jesus, o Filho amado, o enviado do Pai, quer a nossa felicidade? Sim, é isso que ele quer! Felicidade é substantivo. Por isso mesmo ele nos apresenta seu projeto. Um certo dia ele conta uma história para ilustrar seu projeto de salvação. Na história ele usa diversos verbos como comer, beber, vestir, receber e visitar (Cf. 25,31ss). 

      Os que são chamados de benditos são aqueles que deram de comer aos que têm fome, de beber aos que têm sede. São os que vestem os nus, recebem os peregrinos e visitam os presos. Já os que são chamados de malditos são aqueles que fazem o contrário. A verdadeira felicidade vem dos verbos e não dos substantivos. É isso que Jesus ensina quando nos conta essa história. 

        Pessoas e lugares são substantivos, mas o que dá sentido são os verbos. São muitos os que têm fome e estão presos. Eles muitas vezes são só números. Mas, quando alguém enxerga um faminto e o alimenta, ou visita um encarcerado, passa a caminhar com Jesus e é chamado por ele de benditos.

   Essa história contada por Jesus inspirou aquilo que chamamos, obras de misericórdia. O Papa Francisco, marcado pela misericórdia divina, transformou um substantivo em verbo. Ele disse que precisamos se deixar misericordiar por Deus. Deixar-se misericordiar para misericordiar. Assim, pessoas e lugares alcançam a verdadeira felicidade. 








terça-feira, 29 de outubro de 2024

Meditando com Santa Terezinha - As misericórdias do Senhor

 

Quando Santa Terezinha começa “a história de uma alma”, ela sente um pesar no coração por ter que se ocupar consigo mesma. Mas, depois fica contente, porque o que ela vai fazer é simplesmente cantar “as misericórdias do Senhor (Cf. Sl 88,2)”.

Ela lê através da sua própria vida, aquilo que Deus fez em favor do seu povo. O Salmista reconhece que a “misericórdia será edificada para sempre” (Cf. Sl 88,3). Não poderíamos nesse momento contemplar o crucificado e reconhecer que através dele, a misericórdia de Deus foi edificada eternamente? Quando Tereza compõe sua bela poesia “Viver de Amor” ele diz que viver de amor, “é com Jesus, subir o Calvário, é olhar a cruz como um tesouro”. Qualquer um que contemple, o Cristo no Calvário, não pode querer outro coisa, senão viver de amor, assim como Tereza, para cantar eternamente, “as misericórdias do Senhor”.

Ao longo do salmo que Tereza reza, vemos o autor sagrado reconhecer a grandeza de Deus que escolheu seu povo, seus eleitos e servos. Que Ele outrora, fez aliança com esse mesmo povo manifestando o seu amor para com eles. Assim como Deus “encontrou Davi” (Cf. Sl 88, 21), ele encontrou Tereza. Davi e Tereza tem muito em comum. Ambos eram pequenos. Davi não foi a primeira escolha de Samuel para ocupar o trono de Israel, mas foi sobre ele que Deus pousou a mão, ungindo-o como Rei. Tereza, por sua vez, entra muito jovem para a vida religiosa e devido a problemas de saúde, acaba passando mais tempo na enfermaria. Com pouca idade e de saúde tão frágil, quem arriscaria confiar algo a essa jovem religiosa? Na sua pedagogia divina, Deus escolhe os pequeninos (Cf. Mt, 11, 25-30), e entre esses, Tereza, que cantou ao longo da sua vida, “as misericórdias do Senhor”.

Quando Tereza medita a “misericórdia divina” ela sente uma doce alegria por saber que Deus “é justo, por levar em conta nossas fraquezas e conhecer perfeitamente a fragilidade da nossa natureza” (Manuscrito A, 237). Quem sabe quando ela diz isso, não tivesse recordado o pecado de Davi. O grande rei Davi, cometeu um grave pecado, abusando do seu poder.  Ele sente em sua alma uma dor e um peso enorme que só é aliviado graças a misericórdia divina. E é sabendo que somos feitos de barro, fracos frágeis, que Deus vem ao nosso encontro para nos fazer fortes. E porque Deus quer contar com os fracos frágeis? Para contarmos as “misericórdias do Senhor”.

Tereza entende que sua vida foi um grande transbordamento da misericórdia divina que olhou para sua fraqueza e fragilidade, “Ele que nos dias de sua vida mortal, exclamava num transporte de alegria: ‘meu Pai, eu vos dou graças porque escondestes essas coisas aos sábios e prudentes e as revelastes aos pequeninos’, queria fazer resplandecer em mim, sua misericórdia; por ser pequena e fraca, abaixava-se até mim, instruía-me em segredo, sobre as coisas de seu amor” (Manuscrito A, 141). Tereza sente tão forte o pulsar da misericórdia, que ela se oferece ao amor misericordioso. Ao pensar nas almas que se oferecem a justiça divina para aplacar a ira de Deus e desviar o castigo reservado aos culpados, ela reconhece que isso é grande e generoso, mas, não precisa mais delas o “amor misericordioso do Senhor?

A Santa reconhece que o amor misericordioso é desconhecido e rejeitado. As criaturas buscam inutilmente a felicidade onde não a encontrarão. Para Tereza, a verdadeira felicidade é estar nos braços daquele que tem o amor infinito. Por isso, ela quer ser oferecer como vítima de holocausto ao divino amor para que este fogo alcance os que estão longe.

Relendo novamente o salmo que Tereza traz nos lábios quando começa a contar a “história de uma alma” reconhecemos um único grito que ecoa sem cessar: o da misericórdia! Esse grito pode ser ouvido por meio da criação e das criaturas, no ontem e hoje da história que continuam a narrar “as misericórdias do Senhor”.

domingo, 18 de agosto de 2024

O Espírito Santo nos leva ao deserto

 “Cheio do Espírito Santo, voltou Jesus do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto”

Muitas vezes ouvimos falar do deserto nas Escrituras, isso porque o lugar onde acontecem muitas das histórias narradas se dá em uma região desértica. A geografia acabou trazendo muitas lições para a teologia que passou a reconhecer o deserto como o lugar do encontro com Deus. A palavra hebraica midbar, traduzida como deserto, é na verdade "o lugar da palavra", onde Deus estabelece um diálogo constante. 

O povo hebreu precisou atravessar um deserto para chegar à terra prometida. Foi ali que eles descobriram o Deus que se deixou conhecer, rico em paciência,que foi se revelando a cada passo em meio às vicissitudes da própria caminhada. O grande “Eu sou” foi se transformando no “sou Eu” reconhecido como aquele “que tem nosso nome gravado na palma da mão” (Cf. Is), e que nos conhece “desde o ventre materno” (Cf. Jr). Esse percurso se transformou em uma imagem da travessia que todos nós temos que fazer para chegar ao céu. Durante essa travessia, iremos lidar com inúmeras situações que vão nos provar, exigir de nós força para vencer. 

Por que o Espírito Santo nos conduz ao deserto? para nos provar, isso mesmo, nos provar! Mas, porque o Espírito Santo quer nos provar? Temos que ser capazes de atravessar o deserto da vida que costuma ser muito exigente, e é sendo provado que vamos descobrindo nossa força. 

O nosso Divino Amigo, nos deixou essa lição. Jesus foi provado no deserto, Ele teve que passar por isso para nos ensinar a reconhecer a ação do mal e adquirir a força para vencer. Assim como Jesus, nós iremos bater de frente com o Tentador que vai fazer de tudo para nos derrotar, levando a morte espiritual. As situações que Jesus enfrenta, são as que nós enfrentamos no cotidiano. Por isso, para vencer, devemos fazer como ele fez. E como Jesus fez para vencer? “Permaneceu firme! Contemplando essa cena vemos que devemos “resistir ao Diabo” (Cf. Tg 4,7). Essa resistência vem da insistência de querer continuar, não desistir, de confiar naquele que nos ensina com palavras e obras.

O que o Espírito quer de nós quando nos leva ao deserto? nos ajudar a vencer as tentações. São inúmeras as tentações que sobrevêm no dia a dia. Poderíamos falar de muitas, mas queria apontar duas: o ter e o parecer. 

Podemos ao longo da vida querer ser reconhecidos pelo que temos e não pelo que somos. Daí nos esforçamos para ter cada vez mais, caímos na ilusão de que nosso valor vem do que possuímos. Dessa forma, nos tornamos egoístas e passamos a pensar só em si mesmo. Ter poder, fama e prazer passa a ser nossa busca contínua. Nos enganamos com muita facilidade nos deixando levar por essas tentações. Desta forma exploramos pessoas, coisificamos nossas relações, procuramos a satisfação através de prazeres efêmeros nos deixando levar por um espírito irascível.   

Trocamos o ser pelo ter, e com isso deixamos de ser mais humanos para ter mais “humanos” para idolatrar. Acabamos por deusificar a vida sem Deus, caindo no engano de depender mais de si mesmo e dos outros do que do próprio Deus. Dessa forma, viramos caricaturas, cópias que traduzem muito mal o que somos realmente. Na ânsia de querer ter passamos a parecer mais com animais do que com humanos a quem Deus fez “imagem e semelhança”. Passamos a ser animados por um espírito animalesco do que pelo Espírito divino e passamos a viver sem a água viva que sacia nossa sede durante a travessia do deserto da vida. 

Jesus, repleto do Espírito Santo, passa pelo deserto fazendo as trocas certas. O diabo lhe ofereceu todos os reinos do mundo se ele se ajoelhasse diante dele e o Messias escolheu adorar e servir a Deus. Não se dando por satisfeito, o tentador tenta o Senhor, e o Senhor responde a ele assim, “não tente o Senhor seu Deus”. Antes, o acusador quis dar pão ao Mestre, mas, a que preço? Não aceitando o preço cobrado por ele, nosso Salvador diz que “não só de pão vive o homem”. 

É  isso que o Espírito Santo quer de nós, que vivamos por Deus, para Deus e com Deus, deixando que Ele forme em nós o ser humano “perfeito” (Cl 1,28; 2 Tm 3,17; Fl 3,15-16; Tg 1,4). 


sexta-feira, 10 de maio de 2024

Simeão, homem cheio do Espírito Santo!

 “Ora, havia em Jerusalém um homem chamado Simeão. Esse homem, justo e piedoso, esperava a consolação de Israel, e o Espírito Santo estava nele".

Ao longo do Evangelho de Lucas ele menciona vários personagens que são cheios, plenos do Espírito Santo. E isso podia ser percebido através de suas virtudes. Por exemplo, Simeão é reconhecido como homem justo e piedoso. 

Justiça pode ser compreendida como uma devolução. Deus me dá gratuitamente, me enriquece com seus dons e eu devolvo a ele. Podemos fazer isso de diversas formas. Por exemplo, quando pomos em prática os preceitos estabelecidos, estamos no caminho do cumprimento dessa virtude. Participar da missa aos domingos é um preceito, desse modo, ir a missa é uma forma de exercitar a justiça. E quando decidimos cumprir o preceito, vemos o Espírito Santo agir para a salvação dos que creem. 

A justiça é também exercitada através da caridade que pratico. A caridade nesse sentido não é um ato de bondade, mas de justiça, porque dou do que já recebi de Deus. Ele com sua pobreza me enriquece (Cf. (2 Cor 8,9), e de mãos cheias, distribuo ao meu próximo, para tirá-lo da pobreza. Vejam o paradoxo da caridade: quem é rico fica pobre e quem é pobre fica rico! Quando divido um pedaço de pão para saciar a fome ou quando me aproximo, ouço e toco o meu próximo estou no caminho de Simeão, que é o da justiça através da caridade. Se tivéssemos a consciência da gratuidade de Deus, nos apressariamos para exercer a caridade em favor do próximo, seja de forma material ou espiritual. 

Já a piedade é a virtude que cria um ritmo divino ao que é humano, sagrado ao que é profano. É  o que faz do ser humano um orante. Quando se reconhece alguém como piedoso é porque sua vida tem sido transformada pela busca de Deus. E Ele quer nos encontrar para isso, transformar nossas vidas, tanto que nos atrai de várias formas. Quando falamos de piedade popular, por exemplo, recordamos um conjunto de práticas associadas a devoção como uma peregrinação, uma novena, uma ladainha, etc. que criam uma disposição interior que nos leva a Deus. Quantos Deus tem alcançado através da piedade popular? é incontável! 

Como virtude é um exercício, devemos praticar para alcançar esse bom hábito. E ao exercitar a justiça e piedade, as virtudes do grande Simeão, vou me enchendo do Espírito Santo que aperfeiçoa a cada dia.

"Impelido pelo Espírito Santo, foi ao templo. E tendo os pais apresentado o menino Jesus, para cumprirem a respeito dele os preceitos da Lei, tomou-o em seus braços e louvou a Deus nestes termos: “Agora, Senhor, deixai o vosso servo ir em paz, segundo a vossa palavra, porque os meus olhos viram a vossa salvação que preparastes diante de todos os povos, como luz para iluminar as nações, e para a glória de vosso povo de Israel".

Qual o lugar daqueles que querem ser cheios do Espírito Santo? O templo! Muitos salmos falam da alegria de ir ao lugar sagrado: “que alegria quando me disseram, vamos à casa do Senhor” (Sl 121). Devemos ir ao templo material para nos transformarmos no templo espiritual. Dessa forma, vamos nos reconhecendo cada vez mais como lugar do Espírito Santo (Cf. 1 Cor 6,19). Isso exige uma saída de si mesmo para chegar a Deus, um percurso que vai do interior para o exterior. O templo tem uma arquitetura, salta aos nossos olhos, quando passamos por ele, não temos como deixar de ver, mas aquilo que o Espírito Santo quer realizar transcende o que os olhos são capazes de ver, pois desce ao lugar interior onde Deus se encontra à nossa espera. O Espírito Santo nos “empurra” ao templo, e isso é só o começo. Quando você entra no templo, se abre as portas do céu. Quando deixa o templo é o céu que faz de você um novo templo! 

São Paulo compreendia tão bem isso que escreve a uma de suas comunidades dizendo assim: “vós sois templo do Espírito Santo”. Somos casa, moradia de algo sagrado, divino. O que habita em nós trabalha para a nossa santificação mudando nosso interior para que resplandeça a glória de Deus através de nós! O espírito Santo edifica no ser humano, mesmo sabendo da finitude da nossa existência, da transitoriedade do ser, mesmo reconhecendo nossa instabilidade, inconstância e fragilidade. É assim que ele age, do interior para o exterior, para tornar nossa vida uma expressão do divino. O que cabe a nós é deixar o Espírito Santo fazer o seu trabalho, realizar sua ação transformadora. 

Ore neste momento, diga ao Espírito Santo: 

Vem, trabalha em mim, reconstrói a minha vida, faz de mim uma digna morada do Senhor. Edifica em meu interior, sustenta minha decisão de querer ser teu, todo teu, hóspede da alma!


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

O encontro dos amigos

 

Moisés recebe esse nome porque foi tirado das águas. Águas manchadas com as lágrimas de tantas mulheres que choraram a morte de seus filhos ou que amargavam a opressão que sofriam todos os dias.  Águas que tornavam a terra fértil, boa para o plantio, mas que não alimentavam a todos da mesma forma. Águas que recordavam ao povo hebreu, histórias de dilúvios que mesmo trazendo lembranças de destruição, carregavam também, sinais de esperança, porque alguns poucos sobreviveram, aqueles que entraram na Arca construída por Noé.  Muito tempo depois, outras águas banham o Filho de Deus, o novo Moisés, e agora passa a ser sinal de regeneração dos filhos de Deus (Cf. Rm 8, 15; Gal 4, 5-7; Tt 3,5). Das águas do Nilo vem a salvação do povo cativo no Egito, das águas do Jordão, que Cristo santificou, vem a salvação de todo o gênero humano!

Das águas vem aquele que vai guiar o povo por entre as águas em uma caminhada para a liberdade. Moisés cresceu e tomou partido pelo povo que ele não conhecia tão bem. Sabia que eles eram explorados, tomou partido e teve que partir porque já não era mais bem vindo. Foi a beira de um poço (Cf. Ex 2,15-16) que um novo momento de sua história se deu. Mais uma vez ele toma partido e dessa vez é bem-vindo na casa de Raguel, pai daquela que viria a se tornar sua esposa.

Aos poucos, aquela criança tirada das águas vai descobrindo sua vocação. No meio de uma teofania, Deus se revela a Moisés dizendo: "Eu vi, ouvi...desci para libertar o meu povo...". Esses verbos demonstram a ação de Deus que se preocupa com o destino do seu povo. A sua vocação está relacionada a missão a qual Deus o chama. E que missão! Ele reluta, sabe das enormes dificuldades que vai enfrentar. Acontece uma espécie de negociação e Deus vence. Moisés aceita a missão.

Não podemos deixar de dizer que todos temos um chamado, uma missão que cresce no chão da vida, lugar sagrado, que Deus rega através do Espírito Santo. Assim como Moisés, vamos descobrindo ao longo do tempo o que significa “vocação” e quanto mais amigos de Deus nos tornamos, percebemos a força irresistível do seu chamado. Não somos tirados das águas, mas sim, mergulhados pelo nosso Batismo que faz jorrar em nosso interior “rios de água viva” (Cf. Jo 7,37).

Vejam que essa última imagem nos lembra, algo abundante, “rios de água viva’, isso porque aquilo que Deus quer fazer é salvar o seu povo. De mim, de você, jorra uma água. Somos apenas um poço. Já bebemos da água de tantos que deram a vida por causa do Evangelho, Pedro e Paulo, Barnabé, Inácio, Agostinho, Antônio, Francisco, Teresa, Teresinha... deles ainda jorram água, porque suas vidas se transformaram em um exemplo. Com eles, a quem chamamos de santos, aprendemos a ir sempre ao encontro de poços que jorram água da vida, ou seja, a beber do testemunho deles que doaram suas vidas pelo Reino de Deus.

Deus precisa de mim e de você, Ele precisa de nós para que sua missão salvadora se realiza no aqui e agora da história. Não podemos nos tornar uma cisterna rachada (Cf. Jr 2,9-13) que não retêm água! Para que isso não aconteça devemos ser "amigos de Deus" como Moisés foi deixando que a água jorre abundantemente. Devemos reter essa água viva como um poço. O poço era um lugar de encontro porque ali se apanhava água. Jesus se encontrou com a Samaritana a beira de um poço (Cf. Jo 4) e esse diálogo revela a necessidade de “pedir a água da vida”. Hoje é você e Jesus. O poço é o seu coração. Ore, e deixe esse poço cheio de água. Depois vai ser você e o próximo, dois poços, uma só água. Bebam!  

 

 

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Moisés, nascido das águas

 Naqueles dias, um homem da família de Levi tomou como esposa uma jovem da mesma tribo. A mulher concebeu e deu à luz um filho e, vendo como era belo, escondeu-o durante três meses. Como não podia mantê-lo oculto por mais tempo, arranjou uma cesta de papiro, calafetou-a com betume e pez, meteu nela o menino e colocou-a entre os juncos, à beira do Rio, enquanto a irmã dele se postava a certa distância, para ver o que iria acontecer-lhe. 

Ora a filha do faraó desceu ao Rio para se banhar, enquanto as suas damas de companhia passeavam ao longo da margem. Então ela avistou a cesta no meio dos juncos e mandou a uma serva que a fosse buscar. Abriu-a e viu a criança: era um menino a chorar. Teve pena dele e exclamou: «É um filho de hebreus». A irmã dele disse à filha do faraó: «Queres que eu vá procurar, entre as mulheres hebreias, uma ama para criar este menino?».«Vai.», respondeu-lhe a filha do faraó.

E a jovem foi chamar a mãe da criança. Disse-lhe a filha do faraó: «Leva este menino, a fim de o criares para mim, e eu própria te darei o teu salário». Então a mulher levou a criança e amamentou-a. Quando o menino cresceu, trouxe-o à filha do faraó, que o adoptou como filho e lhe deu o nome de Moisés, dizendo: «Salvei-o das águas». (Êxodo 2,1-6) 


Moisés nasce em uma realidade de sofrimento do seu povo. As crianças eram assassinadas, os mais jovens submetidos a trabalhos forçados e todos viam a liberdade com algo distante. Moisés nasce e é escondido, só que chegou a hora que não podendo mais esconde-lo, ele foi colocado dentro um cesto e posto nas margens do Rio Nilo (Cf. Ex 2,3). O curso providencial da mão de Deus fez com que as águas empurrassem o cesto até a filha do Faraó que imediatamente quis adotar essa criança hebreia. A irmã de Moisés acompanhava o cesto de longe, e quando viu o que aconteceu ofereceu seus serviços indo buscar uma mãe para amamentar aquele recém-nascido. O que é cômico no meio dessa enorme aflição é que, a mãe de Moisés tem novamente seu filho nos braços e ainda recebe um salário para fazer aquilo que outrora ela fazia sem nada em troca.  

  A história de Moisés, a criança “tirada das águas” é o começo do começo. Contemplamos com desgosto a opressão que abate o povo os transformando em “oprimidos”. Mas, ele sobrevive ao infortúnio da violência do Estado e vai ao longo do tempo compreendendo a escolha que Deus fez para libertar o seu povo da opressão. Ele foi chamado e diante dos enormes desafios, responde sim, e aquilo que era desgraça, da lugar a graça, a adversidade passa a ser oportunidade! 

Gostaria de brevemente fazer um elogio a mãe de Moisés. Ao ter essa criança, ela sabia que a alegria poderia se transformar em luto, mas mesmo assim, arriscou, porque “escolheu a vida e não a morte”. Diante da desumanidade que perseguia o seu povo, preferiu a humanidade. Ela cuida, protege e ama aquele menino sem saber o que o amanhã reserva. Ela é um sinal de esperança para muitos que se entregam ao desespero por causa da violência que espreita a porta de casa, ou que até mesmo, atinge, machucando quem passa a sofrer a dor, sem muitas vezes saber o que fez para merecer isso.

A violência é o rosto sombrio, perverso e indigesto da desumanidade. Existe esperança quando estamos diante da violência? sim, existe! A violência não tem a última palavra, e sim a paz que ecoa como um coral de vozes cujas palavras ressoam num som harmonioso. Ao longo da vida somos tentados a umedecer o canto da paz, dando voz a violência que grita querendo atenção. Fechemos os ouvidos a essa gritaria infernal e ouçamos o som da criação que sobe no palco do universo sendo ouvida em todos os cantos da casa comum. Aplaudamos cada criança que nasce pois ela esconde uma composição que o próprio Deus inscreveu em sua alma! Saudemos eufóricos a música de quem perdoou ou daqueles que passaram a se enxergar com compaixão. Toquemos o instrumento confeccionado pela madeira semelhante à da Cruz que em suas notas repetem a necessidade de amar com o mesmo amor com que Cristo nos amou.