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domingo, 23 de fevereiro de 2020

Todos nós somos pecadores


“De agora em diante, pois, já não há nenhuma condenação para aqueles que estão em Jesus Cristo. A lei do Espírito de Vida me libertou, em Jesus Cristo, da lei do pecado e da morte. O que era impossível à lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus o fez. Enviando, por causa do pecado, o seu próprio Filho numa carne semelhante à do pecado, condenou o pecado na carne, a fim de que a justiça, prescrita pela lei, fosse realizada em nós, que vivemos não segundo a carne, mas segundo o espírito”.
Já não há mais nenhuma condenação porque Cristo realizou o sacrifício por nossos pecados. O seu mistério pascal, paixão, morte e ressurreição (cf. At, 2, 22-36) é a certeza do perdão que Deus nos oferece gratuitamente.
Em nosso cotidiano, ouvimos muitas vezes o uso da palavra sacrifício. Por exemplo, muitos pais gastam horas do seu dia trabalhando por seus filhos. Os filhos, por sua vez, gastam horas do seu dia estudando. Tanto os pais quanto os filhos, sacrificam-se pelo que consideram importantes. Existem pessoas que renunciam a um bem ou direito seu por algo que consideram mais valioso. Pode ser uma privação, seja voluntária seja involuntária, por uma coisa digna de apreço e estima. Quantos atletas se privam, voluntariamente, para alcançar um melhor resultado. Muitos gastam fortunas por sua saúde, fazem dietas por sua qualidade de vida. Sem dúvida, o que mais nos chama a atenção, é quando alguém sacrifica a si mesmo por causa de outra pessoa. Se você perguntar a uma mãe que vê seu filho em perigo, se ela seria capaz de dar a vida em troca do filho, sua resposta seria sim. O evangelista nos diz que Cristo Jesus, “tendo amado os seus, os amou até o fim” (Jo 13,1), sendo capaz de se oferecer a si mesmo em troca da nossa salvação. Por isso, o madeiro da cruz tornou-se a prova do amor de Deus por nós.
Na tradição de Israel, eram oferecidos sacrifícios pelos pecados (Lv1-7) que ofendiam a Deus e ao próximo. O sacerdote entrava na tenda e oferecia o sacrifício, através do sangue de animais, que se tornavam vítimas de reparação pelos pecados do povo. O autor da carta aos Hebreus reflete largamente sobre essa realidade, afirmando que Cristo é o sumo sacerdote, o altar e o cordeiro, que, no seu próprio sangue, expia os pecados da humanidade. O seu sacrifício inaugura a nova aliança, que continuamente se renova na eucaristia, memorial perpétuo de nossa salvação. Ele é “vítima pascal, o cordeiro imolado” (Cf. 1 Cor 5,7), que tira os pecados do mundo (Jo 1,29). Na antiga aliança, o sacerdote colocava a mão sobre a vítima e oficiava, imolando o animal que tinha o seu sangue derramado. Procurava-se assim, agradar a Deus, fazer com que ele aceitasse o sacrifício pelo perdão dos pecados. Na nova aliança, o madeiro torna-se o altar onde Cristo se doa voluntariamente. Ao contemplar o crucificado, vemos o cumprimento perfeito do que profetizou Isaías “Ele carregou os pecados de todos e intercedeu pelos pecadores” (Is 53,12). Por isso, podemos nos aproximar com confiança de Deus “para obter misericórdia e alcançar a graça de um auxílio oportuno” (Hb 4,16).
Deus nunca abandonou o homem à própria sorte e, em sua infinita misericórdia, quis sempre salvá-lo. Em todo o fio que se desenrola pela Sagrada Escritura, vemos um Deus sempre pronto a perdoar, que quer “a misericórdia e não o sacrifício”. A aliança que Deus faz com o homem de Adão a Noé, de Abraão a Davi, de Amós a João Batista se realizou de modo definitivo no mistério pascal de Cristo Jesus, Nosso Senhor, que é o dom do Pai que, gratuitamente, oferta-se por nossa Salvação. É este anúncio que Pedro faz no dia de Pentecostes a todos os ouvintes que participavam da festa naquela ocasião: “A este Jesus (que foi crucificado), Deus o ressuscitou, e disto nós somos testemunhas. Portanto, exaltado pela direita de Deus, ele recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e o derramou, e é isto o que vedes e ouvis... Saiba, portanto, com certeza, toda a casa de Israel: Deus o constituiu Senhor e Cristo, este Jesus a quem vós crucificastes” (At 2,32-33.36). A força do discurso do grande apóstolo fez com que os ouvintes se perguntassem: “O que devemos fazer irmãos? ”, e Pedro prontamente responde: “arrependei-vos e batizai-vos, cada qual invocando o nome de Jesus Cristo, para que sejam perdoados os vossos pecados” (At 2, 38). O arrependimento nos coloca sentados à mesa no banquete do perdão que é abundante, alimenta-nos da certeza da vida eterna e faz de nós “novas criaturas” (2 Cor 5,17).
A parábola do filho pródigo (Lc 15,11) ilustra bem o que queremos dizer. Essa é outra história de perdão. O filho “pede a parte da herança que lhe cabe”, abandona a casa do pai. Segue o seu caminho e amarga, ao longo dele, muita decepção. Ele (o filho) colocou tudo a perder, e de repente veio a lembrança da casa do pai: “até os empregados da casa do meu pai têm pão com fartura”. Maior do que a sua tristeza, foi a decisão de voltar para casa do pai. Maior que a sua dúvida, foi a alegria que invadiu o seu coração quando o pai pulou no seu pescoço, abraçou-o e beijou-o. “Vamos fazer uma festa – disse o pai – pois esse meu filho estava morto e voltou a viver, estava perdido e foi reencontrado”. Aqui reluz a imensa bondade e misericórdia de Deus que, a exemplo do pai da parábola, está sempre pronto a nos acolher, amparar, auxiliar e perdoar. É o arrependimento e a firme decisão de voltar para a casa do Pai, que faz com que a festa no céu comece!
No aspecto jurídico, quando estamos devendo, temos que pagar. E quando não podemos fazer isso? Negociamos. Foi isso que pensou o filho da parábola. Ele quis negociar com seu pai, pois sua dívida era imensa. Nada daquela casa era mais seu, e o filho mais velho provavelmente devia guardar um documento assinado pelo irmão, onde constava que ele não tinha mais direito a nada. Mas não é assim que Deus age conosco. Como pai amoroso, não negocia conforme os nossos termos; mas, transcende, demonstrando a força libertadora do seu amor. São Paulo afirma que em Cristo, Deus nos chama a viver na companhia dele e cancela o documento escrito contra nós e que nos condenava. Através de sua morte e ressurreição, esse documento de condenação perdeu o seu valor (Cf. Cl 2, 13-14).
A cruz foi o preço pago por nossos pecados, o resgate de nossa dívida. Se nossa dívida fosse material, corruptível, quem sabe o ouro e a prata, bois e jumentos ou qualquer outro penhor poderia redimir essa dívida, mas como o que estava em questão era a nossa salvação ou condenação eterna, é no “Filho, pelo seu sangue, que temos a Redenção, a remissão dos pecados, segundo as riquezas da sua graça” (Cf. 1,7).

            Todos nós somos pecadores, ofendemos a Deus, ficamos “devendo”. Erros, faltas e falhas são cometidos diariamente. Não podemos dizer que “não temos pecados”, pois estaríamos mentindo (1Jo 1,8). Por isso, Jesus veio chamar os “pecadores” (Mt 9,13) e o eixo principal de toda a sua ação é o perdão dos pecados, a remissão das faltas.  É do alto da cruz que nosso sumo sacerdote brada: “Pai, está tudo consumado”. Aquilo que o homem não podia fazer por si mesmo, Deus o fez, o amor foi consumado, e o perdão nos foi dado. Somos amados por Deus e essa é a novidade que Nosso Senhor veio revelar. Recusamos, relutamos, abandonamos ou até negamos, mas é o amor que sempre vence. O demônio tenta enganar os filhos e filhas de Deus, pondo nos seus ombros culpas, remorsos, condenações, fazendo-nos crer que o perdão de Deus tem limites. Se o homem se arrepende, Deus está pronto para perdoar. Não importa o que se fez, o arrependimento apaga tudo e garante acesso à festa dos redimidos.

            Isso me recorda uma experiência extraordinária que testemunhei. Uma jovem que conheci quando tinha 13 anos. Uma flor, que começou a ser colhida muito cedo. Engravidou cedo e depois envolveu-se com drogas. Isso lhe causou um mal imenso, desfigurando completamente a sua beleza. Para encurtar a conversa; depois de ter vendido tudo o que tinha, passou a vender o próprio corpo para continuar usando droga. Eu ouvi algumas vezes ela gritar, dizendo “é só 5 reais” o que equivalia, na época, a uma pedra de crack. Mas Deus é surpreendente. Ele não se cansa de nos amar. Em certa ocasião, perdida completamente e fugindo de alguns desafetos que queriam matá-la, ela foi bater à porta de uma casa terapêutica. Ela já não aguentava mais. Sem nem um centavo no bolso, ela foi acolhida na casa e saiu de lá enriquecida com o mais belo tesouro que se pode imaginar: o perdão de Deus! Por causa do perdão, gratuito e generoso de Deus, ela foi devolvida ao convívio dos seus.

            Ela poderia ser mais um número na triste estatística das drogas, mas graças ao encontro com “aquele que tudo perdoa”, sua vida não foi mais a mesma. O que pode acontecer quando acolhemos o perdão de Deus? Uma verdadeira transformação que não conseguimos medir! Nesse testemunho que relatei vi isso acontecer. A casa em que ela vivia caia aos pedaços. Ele dormia sobre um colchão velho e nada mais restava. Tudo havia sido vendido para comprar drogas, inclusive às portas. Depois da sua conversão, as coisas foram se endireitando. Com o passar do tempo tudo foi sendo colocado no lugar. O perdão nos devolve a capacidade de voltar a caminhar na direção da vida onde Deus se esconde restaurando o que foi destruído, esmagado e pisado pela nossa liberdade marcada pelo pecado.

            Grandes coisas podem acontecer quando acolhemos o amor, o perdão generoso e gratuito de Deus. É hora de deixar que a sua vida também seja modificada! Clame a Deus e deixe o milagre acontecer!

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

A Parábola do Filho Pródigo


A Parábola do Filho Pródigo nos aponta o itinerário para o encontro com aquele que é rico em misericórdia.
            O filho mais novo pede ao pai a parte da herança que lhe cabia. Abandona a casa do pai e gasta tudo...absolutamente tudo! Não tendo mais nada, vai atrás de emprego, e acaba indo cuidar de porcos. A parábola ilustra bem o que o pecado é capaz de fazer com uma pessoa. E isso é importante que você compreenda: o pecado é uma desgraça. Conheci um jovem que morava próximo a nossa comunidade e quis levá-lo para participar, conosco, do grupo de oração. Ele riu, e disse que não tinha tempo para isso. Um dia saindo da missa, esse mesmo jovem me abordou. Fiquei surpreso, pois ele lembrava o meu nome. Pediu-me dinheiro. Sabia que era para usar droga. Sua face apresentava os primeiros traços de desfiguração. Passado um tempo, um jovem aproximou-se do carro que estava dirigindo e me pediu dinheiro. Custei a reconhecer: era aquele jovem que riu do convite que lhe fiz para ir ao grupo de oração. Me deu uma tristeza imensa. Ele já não me conhecia mais. O pecado mudou quem ele era, transformando sua alegria em tristeza. Muitas vezes, o nosso corpo denuncia o que o pecado faz; às vezes, não. Mas, quando abandonamos a casa do Pai, lugar do amor e da misericórdia, nossa alma fica assim, atingida por um sono mortal, perturbador.
            Então o filho cai em si “Pai, pequei contra o céu e contra ti”. Ele faz o seu exame de consciência.  Reconhece o mal que foi ter saído da casa do Pai. Esse passo é muito importante em nosso processo de cura interior, pois examinamos o que fazemos à luz dos preceitos divinos e percebemos a distância que se estabeleceu entre nós e Deus. O que somos e o que devemos nos tornar depende do encontro com o Deus misericordioso, revelado por Cristo, que sempre nos recebe de braços abertos. Em meio ao nosso sono, somos despertados e, diante de nós, aparece um espelho que, à luz do Espírito Santo, faz-nos ver quanto mal o pecado nos faz e o quanto precisamos do perdão de Deus.
            “Na casa do meu pai há pão com abundância... vou voltar e dizer: Pai, pequei contra o céu e contra ti...". Ele admite o erro e toma a firme decisão de voltar à casa do Pai. Esse passo é, sem dúvida, o mais doloroso, pois envolve a aceitação de si mesmoe a dúvida sobre a aceitação por parte dos outros. Uma vez, fazendo um trabalho assistencial com os moradores de rua da minha cidade, perguntei a um deles se ele não tinha casa. Ele me respondeu que sim. Então perguntei porque ele não voltava, e ele disse: “eles não me aceitariam depois do que fiz”. Esse exemplo ilustra a dura decisão que precisamos tomar. Além de reconhecer o erro, precisamos ter coragem de admiti-lo. Devemos estar certos da imensa misericórdia de Deus, “que não leva em conta nossas faltas. Se o fizesse, o que seria de nós? Nele se encontra o perdão” (Cf.Sl 129). Tudo pode ser perdoado desde que haja arrependimento. Um bom exemplo disso é o caso do ladrão ao lado da cruz. Ele admitiu o erro que o levou àquela condenação e reconheceu que Jesus não merecia isso, pois era inocente do crime que lhe havia sido imputado. A sua consciência o acusou diante do juiz que julga com amor, por isso, ouviu o que não esperava: “hoje mesmo estarás comigo no paraíso”. O ladrão encontrou a salvação, sendo recebido na eternidade por aquele que espera nosso arrependimento.
            “Pai, pequei contra o céu e contra ti, já não sou digno de ser chamado seu filho”. Diante do mal que o filho fez a si mesmo, ele decide-se voltar à casa do pai. Quer ser recebido pelo menos como um empregado. A condição em que se encontrava gerou uma mudança de consciência com relação a si mesmo e ao mundo que o cercava. As bebedeiras, orgias, comilanças, orgulho e avareza passaram a causar nele uma tristeza que produziu arrependimento (cf. 2 Cor 7,10). Às vezes, por não querermos enfrentar a realidade, enganamo-nos considerando que tudo vai bem. Criamos desculpas que amenizam nossa culpa e continuamos vivendo como se não tivéssemos feito nada de errado. Mas, chega uma hora, que não suportamos mais essa situação. Do fundo de nossa alma, gritamos: “pequei”.
            O arrependimento exige da pessoa uma relação de confiança na bondade e misericórdia divina. Confessar os pecados é humilhar-se diante da mão poderosa de Deus que não nos pune, mas perdoa. No aspecto jurídico, toda a acusação da qual eu sou culpado, deve ser punida conforme a lei. A experiência com o Cristo ressuscitado, coloca-nos diante de outra lei, imutável, que transcende nossa compreensão, lei que não pune, mas salva, que não condena, mas perdoa,lei do amor, a mesma que fez com que houvesse festa na casa do pai. O anel do dedo, as sandálias e a veste nova são sinais da dignidade que foi restaurada. É importante levar em conta, nesse itinerário, a força dessa palavra: RESTAURAÇÃO. Esse é um ofício do artista que quer fazer com que a obra se assemelhe ao que era antes. Com todo o cuidado, trabalha incansavelmente para que a obra seja contemplada da forma como foi concebida pelo criador. O divino artista trabalha assim, para fazer com que a deformidade causada pelo pecado dê lugar ao “homem novo”, transformado pela força do perdão.
            Um costume antigo, o Mea Culpa, demonstra o reconhecimento da falta e o desejo de ser perdoado por Deus. Eu assumo a culpa diante de quem me julga com misericórdia. O nosso caminho para a conversão depende dessa condição, pois de outra forma, permaneceremos os mesmos. Existe um apelo interior que nos põe nesse caminho, por vezes doloroso, mas fundamental em nossa busca da santidade:
“A conversão interior impele à expressão exterior, com gestos e sinais visíveis, com gestos e sinais de penitência (...) A penitência interior é a reorientação de toda a vida, um retorno, uma conversão a Deus, de todo o coração, a ruptura com o pecado, a aversão ao mal, juntamente com a reprovação das más ações cometidas” (CIC 1421; 1430)
            A boa nova que a Igreja anuncia é essa: Deus vem perdoar os pecados! Aos seus apóstolos ele diz “o que ligares na terra será ligado no céu, e o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,19; 18,18; Jo 20,22s). Esse poder é exercido em nome de Cristo, e o sacerdote quando nos recebe no confessionário faz às vezes do Pai da parábola que celebra com alegria nossa reconciliação. A sentença que se repete constantemente é essa: “esse meu filho estava morto e voltou a viver, estava perdido e foi reencontrado”. Nesse encontro, somos julgados pelo amor, e essa dinâmica do encontro nos traz de volta para a comunhão da qual nos afastamos por causa do pecado.