Madalena foi ao lugar onde haviam colocado o corpo de Jesus ainda de madrugada. Ela foi testemunha da dolorosa condenação do Mestre e desde aquele momento tinha muitas perguntas ainda sem respostas. Ela tinha ouvido o Mestre dizer que tudo aquilo iria acontecer, seria necessário, mas, assim como os outros discípulos, foi tomada por uma profunda dor que a ensurdeceu. Os gritos de “crucifica-o”, deviam ecoar em seus pensamentos. Até uns dias atrás, todos aclamavam Jesus como o Cristo e o som do canto, “Hosana ao Filho de Davi” se repetia fazendo ela sentir uma grande alegria. Madalena devia se perguntar como, em tão pouco tempo, um grito exultante de “Hosana” deu lugar ao grito enfurecido de “crucifica-o”.
Mesmo com toda a dor que transpassou sua alma, Madalena foi ao sepulcro, ainda de madrugada. Ela venceu o medo. Pedro havia negado Jesus. Quase todos os discípulos tinham abandonado o Mestre na sua última hora. Todos estavam escondidos com medo do que os judeus podiam fazer com os seguidores do crucificado. Mesmo com medo, Madalena vai ao sepulcro. O que ela esperava encontrar? A dor tinha calado por um momento sua esperança, e a escuridão daquele primeiro dia da semana era um sinal de como se encontrava sua alma. O dia deu lugar a uma longa noite depois que o corpo do Mestre foi descido da cruz. A luz se apagou no madeiro. O que ela esperava encontrar?
Acredito que Maria Madalena esperava encontrar um alento para a dor que sentia. Em sua alma já pesava a saudade. A saudade é a presença escondida na ausência sentida. Só sente saudade quem amou. É como uma refeição deliciosa. Provoca a memória afetiva: recorda tempos, momentos, risos e abraços. Sabores com gosto de eternidade. No amargor da morte, lembranças temperam a alma, suavizando mesmo que momentaneamente a dor da partida.
Madalena quando vai ao sepulcro, inconscientemente diz a si mesma, “ele não morreu, ele vive”. As lembranças tornam vivo o que já passou, fazem com que histórias sejam recontadas na memória. Nessa hora, a morte é a grande mestra. Ela traz lições aprendidas entre lágrimas que com o passar do tempo podem dar lugar a sorrisos. Isso porque significados vão sendo descobertos ao longo dessa penosa experiência. Geralmente, diante do mistério da morte nos perguntamos, “por que isso aconteceu?”. É se fazendo essa pergunta que Madalena vê chegar um desconhecido que imagina ser o jardineiro. A morte deixou seus sentidos empedernidos e a discípula não reconheceu o Mestre.
Jesus chama Maria pelo nome e logo, os sentidos dessa discípula se abrem e ela reconhece o Mestre. “Raboni”, exclama Madalena que quer dizer “Mestre”. Sua dor deu lugar ao temor e irresistivelmente se deixou mais uma vez amar. Os seus olhos puderam contemplar uma beleza já testemunhada por Pedro, Tiago e João no Monte Tabor. Seu corpo tremeu cheio de uma alegria indescritível e ela bem que poderia repetir a mesma coisa que Pedro disse no monte: “Mestre, que bom estar aqui”.
A discípula se torna uma testemunha do amor que venceu o ódio, do perdão que vence toda a violência, da morte vencida pela vida. Ela provou um amor sem igual, uma força desigual que a transformou em mestra.
Ela é mestra dos saberes que transformam. Aqueles que nascem dos encontros que acontecem no descompasso do silêncio onde nos damos a conhecer. Nesse encontro sentamos à mesa e ouvimos o Mestre mais uma vez repetir: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Maria Madalena quem sabe inspirou Paulo a dizer a seus discípulos que o que mais importa é o conhecimento de Cristo Jesus (Cf. Fl 3,8-10).
Com Maria Madalena vamos testemunhando a espera de um novo dia quando a vida escondida se torna conhecida. Onde os olhos dos cegos se abrem, assim como o ouvido dos surdos e a boca dos mudos (Is 35,5-6; Mc 7,37). Com mãos fortalecidas e joelhos revigorados (Cf. Hb 12,12) soltamos de cima dos telhados o grito de vitória porque aquele que morreu, vive, Ele é a nossa Páscoa!