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domingo, 1 de março de 2026

Este é o meu Filho muito amado, escutai-o!

 “Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João e sobe o monte”. 

     Ele chama algumas testemunhas para subir. Ele não quis ir sozinho. Por que não? Ele quis de uma vez por todas mostrar quem era. No Batismo, o Pai declara: “tu és o meu Filho”. Já nessa cena, o Pai proclama: “este é o meu Filho amado”. Diante dessas testemunhas escolhidas ele se dá a conhecer. No Batismo o diálogo é entre o Pai e o Filho, já nessa revelação é entre o Pai e os filhos. Portanto, existe duas identidades que são conhecidas. Uma é a do Filho, que mostra sua glória, luz que se torna acessível. A outra identidade é a nossa, a de filhos, chamados a comunhão com o Pai que nos transforma pelo poder do Filho e nos faz participar antecipadamente da luz divina, pela ação do Espírito Santo até um dia vivermos essa glória definitiva no Reino de Deus.

     A luz do Cristo se manifesta diante de suas testemunhas, “em tua luz contemplamos a luz” (Sl 35,10). Ele é a “luz do mundo” (Jo 8,12) e como participantes dessa luz, somos chamados a dar testemunho dessa luz, “que brilhe vossa luz diante dos homens para que vejam vossas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos Céus” (Cf. Mt 5,16). 

      No caminho de Damasco, Saulo é envolvido por uma luz e o Cristo ressuscitado aparece a ele. Do meio dessa luz, ele ouve a voz de Cristo. Esse encontro o transforma. Depois dessa experiência, Saulo passa a ser Paulo e ele testemunha em uma de suas cartas que graças a esse encontro com Cristo “somos transfigurados nessa mesma imagem, cada vez mais resplandecente pela ação do Senhor, que é Espírito” (2 Cor 3,18). Como transfigurados, devemos andar como em pleno dia (Cf. Rm 13,13) e não de noite, na luz e não na escuridão. Nós que somos do dia devemos ser “sóbrios, revestidos com a couraça da fé e do amor e com o capacete da esperança da salvação” (Cf. 1 Ts 5,18).

      Na dinâmica do Tabor somos chamados, assim como Pedro, Tiago e João a contemplação da luz. A mesma experiência que fez Paulo no caminho de Damasco e que tantos santos fizeram em diversos momentos da história. Como nos diz o Cardeal Raniero, somos transformados naquilo que contemplamos. Irresistivelmente, proclamamos o que contemplamos porque não podemos deixar de testemunhar o que “ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos e nossas mãos apalparam” (Cf. 1 Jo 1,1). 

      Pedro não queria ir, mas o Divino Mestre disse que era preciso partir. Séculos depois Santo Agostinho refletindo sobre essa cena do Evangelho afirma que “Pedro ainda não tinha compreendido isso ao desejar viver com Cristo no monte. Ele reservou-te isto, Pedro, para depois da morte. Mas agora, ele mesmo diz: Desce para sofrer na terra, para servir na terra, para ser desprezado, crucificado na terra. Por que a vida também desceu para ser morta; o Pão desceu para ter fome; o Caminho desceu, para cansar-se da caminhada; a Fonte desceu, para ter sede, e tu recusas sofrer? Não busques tuas conveniências. Sê caridoso, prega a verdade e assim chegarás à eternidade, onde encontrarás segurança” (Sermão 78,6).

     Contemplação e ação, fé é vida, oração e trabalho devem andar juntas. Por isso, quem sobe, desce, quem vai, deve voltar em um movimento contínuo que nos leve para o alto e para baixo, na direção de Deus e do próximo.