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domingo, 30 de março de 2025

Uma história de perdão

 

Deus nunca abandonou o homem à própria sorte e, em sua infinita misericórdia, quis sempre salvá-lo. Em todo o fio que se desenrola pela Sagrada Escritura, vemos um Deus sempre pronto a perdoar, que quer “a misericórdia e não o sacrifício”. A aliança que Deus faz com o homem de Adão a Noé, de Abraão a Davi, de Amós a João Batista se realizou de modo definitivo no mistério pascal de Cristo Jesus, Nosso Senhor, que é o dom do Pai que, gratuitamente, oferta-se por nossa Salvação. É este anúncio que Pedro faz no dia de Pentecostes a todos os ouvintes que participavam da festa naquela ocasião: “A este Jesus (que foi crucificado), Deus o ressuscitou, e disto nós somos testemunhas. Portanto, exaltado pela direita de Deus, ele recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e o derramou, e é isto o que vedes e ouvis... Saiba, portanto, com certeza, toda a casa de Israel: Deus o constituiu Senhor e Cristo, este Jesus a quem vós crucificastes” (At 2,32-33.36). A força do discurso do grande apóstolo fez com que os ouvintes se perguntassem: “O que devemos fazer irmãos?”, e Pedro prontamente responde: “arrependei-vos e batizai-vos, cada qual invocando o nome de Jesus Cristo, para que sejam perdoados os vossos pecados” (At 2, 38). O arrependimento nos coloca sentados à mesa no banquete do perdão que é abundante, alimenta-nos da certeza da vida eterna e faz de nós “novas criaturas” (2 Cor 5,17).

A parábola do filho pródigo (Lc 15,11) ilustra bem o que queremos dizer. Essa é uma história de perdão. O filho “pede a parte da herança que lhe cabe”, abandona a casa do pai. Segue o seu caminho e amarga, ao longo dele, muita decepção. Ele (o filho) colocou tudo a perder, e de repente veio a lembrança da casa do pai: “até os empregados da casa do meu pai têm pão com fartura”. Maior do que a sua tristeza, foi a decisão de voltar para casa do pai. Maior que a sua dúvida, foi a alegria que invadiu o seu coração quando o pai pulou no seu pescoço, abraçou-o e beijou-o. “Vamos fazer uma festa – disse o pai – pois esse meu filho estava morto e voltou a viver, estava perdido e foi reencontrado”. Aqui reluz a imensa bondade e misericórdia de Deus que, a exemplo do pai da parábola, está sempre pronto a nos acolher, amparar, auxiliar e perdoar. É o arrependimento e a firme decisão de voltar para a casa do Pai, que faz com que a festa no céu comece!

A parábola ilustra bem o que o pecado é capaz de fazer com uma pessoa. E isso é importante que você compreenda: o pecado é uma desgraça. Conheci um jovem que morava próximo a nossa comunidade e quis levá-lo para participar, conosco, do grupo de oração. Ele riu, e disse que não tinha tempo para isso. Um dia saindo da missa, esse mesmo jovem me abordou. Fiquei surpreso, pois ele lembrava o meu nome. Pediu-me dinheiro. Sabia que era para usar droga. Sua face apresentava os primeiros traços de desfiguração. Passado um tempo, um jovem aproximou-se do carro que estava dirigindo e me pediu dinheiro. Custei a reconhecer: era aquele jovem que riu do convite que lhe fiz para ir ao grupo de oração. Me deu uma tristeza imensa. Ele já não me conhecia mais. O pecado mudou quem ele era, transformando sua alegria em tristeza. Muitas vezes, o nosso corpo denuncia o que o pecado faz; às vezes, não. Mas, quando abandonamos a casa do Pai, lugar do amor e da misericórdia, nossa alma fica assim, atingida por um sono mortal, perturbador.

Então o filho cai em si “Pai, pequei contra o céu e contra ti”. Ele faz o seu exame de consciência.  Reconhece o mal que foi ter saído da casa do Pai. Esse passo é muito importante em nosso processo de cura interior, pois examinamos o que fazemos à luz dos preceitos divinos e percebemos a distância que se estabeleceu entre nós e Deus. O que somos e o que devemos nos tornar depende do encontro com o Deus misericordioso, revelado por Cristo, que sempre nos recebe de braços abertos. Em meio ao nosso sono, somos despertados e, diante de nós, aparece um espelho que, à luz do Espírito Santo, faz-nos ver quanto mal o pecado nos faz e o quanto precisamos do perdão de Deus.

“Na casa do meu pai há pão com abundância... vou voltar e dizer: Pai, pequei contra o céu e contra ti...". Ele admite o erro e toma a firme decisão de voltar à casa do Pai. Esse passo é, sem dúvida, o mais doloroso, pois envolve a aceitação de si mesmo e a dúvida sobre a aceitação por parte dos outros. Uma vez, fazendo um trabalho assistencial com os moradores de rua da minha cidade, perguntei a um deles se ele não tinha casa. Ele me respondeu que sim. Então perguntei porque ele não voltava, e ele disse: “eles não me aceitariam depois do que fiz”. Esse exemplo ilustra a dura decisão que precisamos tomar. Além de reconhecer o erro, precisamos ter coragem de admiti-lo. Devemos estar certos da imensa misericórdia de Deus, “que não leva em conta nossas faltas. Se o fizesse, o que seria de nós? Nele se encontra o perdão” (Cf.Sl 129). Tudo pode ser perdoado desde que haja arrependimento. Um bom exemplo disso é o caso do ladrão ao lado da cruz. Ele admitiu o erro que o levou àquela condenação e reconheceu que Jesus não merecia isso, pois era inocente do crime que lhe havia sido imputado. A sua consciência o acusou diante do juiz que julga com amor, por isso, ouviu o que não esperava: “hoje mesmo estarás comigo no paraíso”. O ladrão encontrou a salvação, sendo recebido na eternidade por aquele que espera nosso arrependimento.

“Pai, pequei contra o céu e contra ti, já não sou digno de ser chamado seu filho”. Diante do mal que o filho fez a si mesmo, ele decide-se voltar à casa do pai. Quer ser recebido pelo menos como um empregado. A condição em que se encontrava gerou uma mudança de consciência com relação a si mesmo e ao mundo que o cercava. As bebedeiras, orgias, comilanças, orgulho e avareza passaram a causar nele uma tristeza que produziu arrependimento (cf. 2 Cor 7,10). Às vezes, por não querermos enfrentar a realidade, enganamo-nos considerando que tudo vai bem. Criamos desculpas que amenizam nossa culpa e continuamos vivendo como se não tivéssemos feito nada de errado. Mas, chega uma hora, que não suportamos mais essa situação. Do fundo de nossa alma, gritamos: “pequei”.

O arrependimento exige da pessoa uma relação de confiança na bondade e misericórdia divina. Confessar os pecados é humilhar-se diante da mão poderosa de Deus que não nos pune, mas perdoa. No aspecto jurídico, toda a acusação da qual eu sou culpado, deve ser punida conforme a lei. A experiência com o Cristo ressuscitado, coloca-nos diante de outra lei, imutável, que transcende nossa compreensão, lei que não pune, mas salva, que não condena, mas perdoa, lei do amor, a mesma que fez com que houvesse festa na casa do pai. O anel do dedo, as sandálias e a veste nova são sinais da dignidade que foi restaurada. É importante levar em conta, nesse itinerário, a força dessa palavra: RESTAURAÇÃO. Esse é um ofício do artista que quer fazer com que a obra se assemelhe ao que era antes. Com todo o cuidado, trabalha incansavelmente para que a obra seja contemplada da forma como foi concebida pelo criador. O divino artista trabalha assim, para fazer com que a deformidade causada pelo pecado dê lugar ao “homem novo”, transformado pela força do perdão.

A boa nova que a Igreja anuncia é essa: Deus vem perdoar os pecados! Aos seus apóstolos ele diz “o que ligares na terra será ligado no céu, e o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,19; 18,18; Jo 20,22s). Esse poder é exercido em nome de Cristo, e o sacerdote quando nos recebe no confessionário faz às vezes do Pai da parábola que celebra com alegria nossa reconciliação. A sentença que se repete constantemente é essa: “esse meu filho estava morto e voltou a viver, estava perdido e foi reencontrado”. Nesse encontro, somos julgados pelo amor, e essa dinâmica do encontro nos traz de volta para a comunhão da qual nos afastamos por causa do pecado.

 

 

quinta-feira, 20 de março de 2025

O banho do Espírito

          “Estando ele a orar, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre ele” (Lc 3, 21-22). 

O batismo de João é um batismo de arrependimento, que preparava o povo para a chegada do Reino de Deus. Ele exortava o povo a uma mudança de vida. Isso é Metanóia. Essa é uma palavra de origem grega que significa arrependimento, conversão, mudança de direção. É um itinerário, um caminho de quem se “acomoda” a uma nova forma de viver. O que João propõe é uma mudança radical de valores ajustada à escolha que fazemos pelo Reino. Opiniões, crenças, comportamentos, pensamentos e atitudes são conformados pelo projeto do Reino, anunciado por João e levado à plenitude em Cristo Jesus, Nosso Senhor. Metanóia é um caminho de confrontos inevitáveis entre o que sou e o que devo me tornar. Por isso a necessidade de arrependimento.

Alguém pode se perguntar: porque devo me arrepender? Porque reconheço que sou pecador, necessitado da misericórdia divina, percebo quando olho para mim, que erro, me desvio, saio da rota e tenho que voltar atrás, para depois seguir em frente. É o Espírito Santo que me conduz nessa hora a um verdadeiro arrependimento porque é Ele que nos convence sobre o pecado (Cf. Jo 16, 12). 

O pecado é uma ofensa. Deus revela todo o seu amor em Jesus, seu Filho, mas nós o abandonamos, nos deixamos ser escravizados pelo mal, valorizando falsamente as coisas deste mundo, iludidos pelo prazer efêmero que não sacia nossa sede de amor e plenitude. O Catecismo diz que “o pecado é uma falta contra a razão, a consciência reta; é uma falta ao amor verdadeiro, para com Deus e para com o próximo, por causa de um apego perverso a certos bens” (CIC 1849). 

Quando pecamos nos afastamos de Deus, do seu amor, ofendemos, machucamos e pervertemos a ordem estabelecida pelo Criador. Não enxergamos, ficamos cegos e surdos, decaídos pelos males cometidos. Estamos vivos, mas nossa alma está morta. Essa condição de mortandade da alma é um perigo, pois põe em risco a nossa salvação. É o arrependimento que nos devolve a condição de “agraciados”, de união íntima com Deus, nos aproxima novamente da graça santificante e devolve a vida que tínhamos perdido. 

Na dimensão sacramental, isso acontece através do Sacramento do Batismo, também chamado de “banho da renovação no Espírito Santo” (Cf. CIC 1215). Batizar significa «mergulhar», «imergir». A «imersão» na água simboliza a sepultura do catecúmeno na morte de Cristo, de onde sai pela ressurreição com Ele como «nova criatura» (2 Cor 5, 17; Gl 6, 15).

Uma vez batizados recebemos uma graça santificante que passa a atuar constantemente em nós. Nosso grande desafio é justamente permanecer nessa graça e isso é possível por meio do arrependimento. Nada deve ser mais importante do que permanecer nessa condição de “agraciados”. Sendo assim, o Espírito Santo age para nos lembrar da nossa condição de pecadores e fazer com que examinemos nossa vida à luz do mistério salvífico de Cristo. Sempre em nossos lábios deve ressoar a oração “vinde Espírito Santo” para que ele realize essa obra de transformação. 

Proponho uma imagem para ilustrar o que quero dizer. Todos os dias tomamos banho. Mas, tem alguns momentos que o banho é mais especial. Por exemplo, quando a mãe dá o primeiro banho no seu bebe ou quando o jovem toma banho para se encontrar pela primeira vez com sua “paquera”. Esse banho é caprichado! Imagina o banho do homem e da mulher no dia do casamento?! Pois bem, alguns banhos são mais especiais que outros. Digo isso para você entender que o banho recebido no Batismo é diferente. Confere uma graça santificante além de nos associar por toda a vida ao mistério de Cristo. Porém, precisamos tomar banho todos os dias, não é verdade? Esse banho diário simboliza a necessidade diária de ser banhado pelo Espírito Santo para renovação, limpeza e purificação da alma. 

Então se apresse e tome hoje o banho do Espírito. Diga que toda convicção: “Vinde Espírito Santo”.